A Magia do WAVE Jazz Ensemble na Califórnia

Há momentos que terminam quando se apagam as luzes do palco. Outros, porém, permanecem muito para além do último acorde, guardados na memória e no coração de uma comunidade. Assim aconteceu com a presença do WAVE Jazz Ensemble na Califórnia, durante as comemorações dos sessenta anos da geminação entre Tulare e Angra do Heroísmo.

O grupo veio de Angra, na ilha Terceira, atravessando um oceano e um continente. Mas não trouxe apenas a sua música. Trouxe consigo uma cidade, uma ilha e essa maneira tão açoriana de transformar a distância em encontro, a memória em criação e a saudade em som.

A presença do WAVE teve também um profundo significado histórico. O jazz não chegou à ilha Terceira por acaso. A presença norte-americana na Base das Lajes, sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial e ao longo das décadas seguintes, abriu as portas da ilha a novas sonoridades, ritmos e linguagens musicais. Pelas ondas da rádio, pelos clubes, pelos convívios e pelos contactos entre militares norte-americanos e músicos terceirenses, o jazz entrou discretamente no quotidiano da ilha.

A Base das Lajes não foi apenas um lugar de importância militar e estratégica. Foi também um espaço de encontros humanos e culturais. A música atravessou as suas fronteiras e espalhou-se pelas freguesias, pelas coletividades, pelas filarmónicas, pelos salões e pelas noites de Angra e da Praia da Vitória. Os músicos terceirenses escutaram, aprenderam, reinterpretaram e incorporaram essas sonoridades, criando uma tradição de jazz que, embora ligada à influência americana, adquiriu uma identidade profundamente insular.

O jazz passou, assim, a pertencer também à Terceira. Ganhou os ritmos da ilha, a respiração do Atlântico, as melodias das festas, a sensibilidade das filarmónicas e a capacidade açoriana de receber o que vem de longe e lhe dar uma nova morada.

O WAVE Jazz Ensemble é uma das mais belas expressões contemporâneas dessa história. Formado em 2010, o grupo construiu um percurso artístico singular, combinando a grande tradição do jazz com composições originais e temas profundamente ligados à cultura musical dos Açores. Ao longo dos anos, atuou na Terceira, noutras ilhas do arquipélago e em várias cidades portuguesas, levando cada vez mais longe uma música nascida do diálogo entre o local e o universal.

Em 2022, publicou o álbum Perspectivas. Em abril de 2026, por ocasião do Dia Internacional do Jazz, apresentou, em Angra do Heroísmo, o seu novo álbum, Horizonte. Dificilmente poderiam ter sido escolhidos títulos mais apropriados para esta visita: uma geminação necessita de novas perspetivas para permanecer viva e de horizontes mais amplos para continuar a crescer.

O WAVE Jazz Ensemble — constituído por Rui Melo, Antonella Barletta, Antero Ávila, Paulo Borges e Nuno Pinheiro — trouxe à Califórnia o talento, a sensibilidade e a personalidade artística dos seus músicos. Cada um levou consigo a sua própria voz; juntos, construíram uma sonoridade capaz de unir a liberdade do jazz à alma musical das ilhas.

Da Terceira à Feira do Condado de Tulare

Um dos momentos mais simbólicos desta visita aconteceu na Feira do Condado de Tulare. Num espaço profundamente ligado à identidade agrícola do Vale de San Joaquin, o WAVE levou ao palco a música de Angra e da ilha Terceira.

Aquele concerto foi muito mais do que uma atuação musical. Representou o encontro entre duas culturas moldadas pelo trabalho, pela terra, pela emigração e por um forte sentido de comunidade. De um lado, uma ilha atlântica marcada pela agricultura, pelas pastagens e pelo mar; do outro, um vale californiano construído também pelo esforço de sucessivas gerações de emigrantes açorianos e portugueses.

Na Feira do Condado de Tulare, o jazz tornou-se uma ponte entre esses dois territórios. As harmonias que nasceram na Terceira encontraram-se com uma comunidade que, embora distante das ilhas, continua a guardar os Açores na memória familiar, nas festas, nas irmandades, na língua, na fé e nas tradições.

O WAVE não se limitou a apresentar jazz em Tulare. Ajudou a lançar as sementes de uma tradição que poderá continuar a crescer nas nossas comunidades. Mostrou aos mais jovens que a herança açoriana não pertence somente ao passado e que pode ser recriada através de uma música moderna, livre e universal. Demonstrou também que o jazz, outrora levado à Terceira pela presença americana, podia agora regressar à Califórnia transformado pela sensibilidade dos músicos da ilha.

Houve nessa viagem uma espécie de círculo histórico: a América ajudou a levar o jazz à Terceira; décadas depois, a Terceira devolveu-o à América com sotaque açoriano.

A música entrou nas escolas

Durante a sua permanência em Tulare, o WAVE levou essa mensagem para além dos palcos. Os músicos visitaram as escolas públicas da cidade, entrando no espaço onde todas as grandes pontes para o futuro verdadeiramente começam: a sala de aula.

Num primeiro momento, participaram numa aula, dialogando diretamente com os estudantes e partilhando experiências sobre a música, a ilha Terceira, a criação artística e o percurso do grupo. Houve perguntas, curiosidade e a descoberta de um território que, para muitos daqueles jovens, existia apenas como um nome distante no mapa — ou como uma referência guardada nas histórias dos avós e bisavós.

Seguiu-se uma apresentação para cerca de trezentos alunos. Diante daquela jovem audiência, a música rompeu as barreiras da geografia e da língua. Os estudantes puderam escutar, talvez pela primeira vez, temas açorianos recriados através da liberdade do jazz. O que começou como uma apresentação transformou-se num encontro vivo entre gerações, culturas e possibilidades.

Foi ali, perante centenas de jovens, que a geminação revelou uma das suas dimensões mais importantes. Uma relação entre cidades não se sustenta apenas através de documentos, protocolos e cerimónias oficiais. Renova-se quando entra numa escola, desperta a curiosidade de um aluno, aproxima educadores e artistas e permite que um jovem descubra que o mundo é simultaneamente maior e mais próximo do que imaginava.

A presença do WAVE nas escolas públicas de Tulare poderá ter deixado sementes cujo verdadeiro alcance só conheceremos no futuro. Talvez algum daqueles alunos tenha regressado a casa com vontade de aprender um instrumento. Talvez outro tenha perguntado onde ficava a ilha Terceira. Talvez um jovem de ascendência açoriana tenha descoberto que a cultura dos seus antepassados podia dialogar com o presente sem perder a sua autenticidade.

É assim que se cria uma tradição: oferecendo aos mais novos a possibilidade de a continuar.

Uma noite única em Fresno State

O concerto conjunto com a Fresno State Jazz Orchestra, no Concert Hall da Universidade Estadual da Califórnia em Fresno, constituiu um dos momentos culminantes de toda a comemoração.

O Concert Hall esteve repleto. Perante uma audiência atenta, profundamente envolvida e disponível para viver intensamente cada momento, os músicos vindos da Terceira encontraram-se em palco com os estudantes da universidade. Alguns talvez não partilhassem a mesma língua falada, mas todos compreendiam a língua universal da música.

Não foi apenas um concerto. Foi uma conversa entre margens, gerações e tradições musicais. Foi também o encontro entre músicos formados em contextos distintos, unidos pela escuta, pela disciplina, pela improvisação e pela alegria de criar em conjunto.

Quando os sons da tradição terceirense se ergueram no Concert Hall de Fresno State, o Atlântico deixou de ser uma distância e transformou-se numa pauta. As melodias da ilha ganharam novas cores através do diálogo entre o WAVE e a Fresno State Jazz Orchestra. A audiência acompanhou esse encontro com uma atenção quase cerimonial, respondendo com entusiasmo e emoção a uma experiência musical que dificilmente se repetirá da mesma maneira.

Durante alguns instantes, a universidade tornou-se uma extensão da ilha Terceira. No palco, cruzaram-se a memória musical dos Açores, a tradição jazzística norte-americana e a energia criadora de uma nova geração. Na plateia, açorianos, luso-americanos, estudantes, professores e membros da comunidade partilharam a mesma emoção.

O jazz voltou, simbolicamente, ao lugar de onde partira, mas regressou enriquecido pelo vento, pelo mar e pela alma da Terceira.

Uma homenagem à Presidente Fátima Amorim

Esta visita histórica não teria sido possível sem o apoio, a determinação e a visão da Presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, a Engenheira Fátima Amorim.

O seu empenho foi decisivo para que Angra estivesse representada na Califórnia com a dignidade, a proximidade e a riqueza cultural que esta celebração merecia. Ao apoiar a presença do WAVE Jazz Ensemble e ao acompanhar pessoalmente as comemorações, a Engenheira Fátima Amorim demonstrou acreditar numa geminação viva, construída não apenas através da memória do passado, mas também por meio da educação, da cultura, da juventude e da criação de novas oportunidades.

A sua presença deu ainda maior significado a estes dias. Foi a presença de uma autarca comprometida com a sua cidade, consciente da importância das comunidades açorianas da diáspora e profundamente empenhada em fortalecer os laços entre Angra do Heroísmo e Tulare.

À Presidente Fátima Amorim ficou, por isso, uma palavra de especial reconhecimento e gratidão. O seu apoio permitiu que a música de Angra atravessasse o Atlântico, entrasse nas escolas, chegasse à Feira do Condado de Tulare e enchesse o Concert Hall de Fresno State. Mais do que apoiar uma visita, ajudou a criar um acontecimento destinado a permanecer na história desta geminação.

O eco que permaneceu

O jazz ofereceu-nos uma bela metáfora dos sessenta anos de amizade entre Tulare e Angra. É uma música que vive da escuta, da confiança e da liberdade. Cada músico possui a sua voz, mas nenhuma voz procura apagar as outras. Existe espaço para a improvisação, para a surpresa e para o risco, mas também a responsabilidade de regressar ao conjunto e construir uma harmonia comum.

Assim tem acontecido entre as nossas duas cidades. Tulare e Angra conservaram as suas identidades próprias, mas aprenderam, ao longo de seis décadas, a escutar-se mutuamente e a criar algo que nenhuma delas poderia ter construído sozinha.

Agradecemos profundamente a Rui Melo, Antonella Barletta, Antero Ávila, Paulo Borges e Nuno Pinheiro pela generosidade, pelo talento e por todos os momentos que partilharam com as nossas escolas, a nossa universidade e a nossa comunidade. Em cada atuação, levaram consigo Angra, a Terceira e a história musical de uma ilha que soube acolher o jazz e transformá-lo numa expressão da sua própria alma.

As luzes dos palcos apagaram-se. Os instrumentos regressaram aos seus estojos. Os músicos atravessaram novamente o continente e o oceano. Mas a música não partiu com eles.

Ficou na alegria dos que os escutaram na Feira do Condado de Tulare. Ficou nos olhos dos trezentos alunos que descobriram uma ilha através de uma canção. Ficou no silêncio atento de um Concert Hall repleto e no aplauso que se ergueu quando o último acorde ainda pairava no ar.

Ficou, sobretudo, entre duas margens.

Porque, durante estes dias, o WAVE não trouxe apenas o jazz da Terceira à Califórnia. Trouxe o vento do Monte Brasil, o rumor da baía de Angra, a memória das noites das Lajes e a voz de uma ilha que aprendeu a fazer do oceano não uma ausência, mas um caminho.

E, quando a última nota se extinguiu, compreendemos que o Atlântico já não separava Angra de Tulare. Era apenas o imenso espaço azul onde aquela música continuava a viajar.

Diniz Borges

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