Norberto Ávila, ou a expressão de uma escrita literária por Víctor Rui Dores

O terceirense Norberto Ávila (1936-2022 ) não foi só um dramaturgo consagrado, dentro e fora de Portugal, com inúmeros prémios e distinções nacionais e internacionais, foi também um ficcionista de grande qualidade literária.

Discreto e sereno, Norberto Avila viveu em permanente desassossego criativo. Observador infatigável dotado de discernimento crítico, ele reinventou uma contínua e continuada necessidade de expressão literária, escrevendo com mestria narrativa e imaginação verbal. Era notório o seu intenso e obstinado trabalho oficinal, ele que foi (é) autor do apuro formal, da exigência estética, da preocupação estilística.

Há, efectivamente, uma qualidade literária que escreve Norberto Ávila, qualidade literária essa que perpassa toda a sua obra dramatúrgica, que inclui 30 peças, traduzidas em 16 idiomas e encenadas em vários países.

De referir que, em 2009, sob o título genérico de Norberto Ávila, algum teatro,  a Imprensa Nacional – Casa da Moeda publicou, em 4 volumes, 20 das suas peças. Este açoriano também se afirmou como tradutor, tendo traduzido peças de Jan Kott, Shakespeare, Tenesse Williams, Arthur Miller, Jacques Audiberti, Husson, Schiller, Kinoshita, Valle-Inclán, Fassbinder, Blanco-Amor, Zorrila e L. Wouters.

As peças de Norberto Ávila (que na sua maioria se integram na denominada corrente de “comédia de enganos”) são elas próprias um belíssimo exercício literário. Embora um texto teatral tenha como objectivo maior a sua representação, o que é facto é que cada peça de Norberto Ávila se lê com o mesmo prazer com que se lê um romance.

Estamos perante uma escrita requintada, engenhosa e eivada de uma fina ironia e crítica social, apanágio de quem escreve comédias de enganos e sátiras sócio políticas…

Norberto Ávila dominava a carpintaria literária tão bem como o fazia com a carpintaria teatral. Os seus romances No Mais Profundo das Águas (Salamandra, 1998), A Paixão Segundo João Mateus (com o subtítulo de Romance Quase de Cordel (Instituto Açoriano de Cultura, 2011) e Frente à Cortina de Enganos (Letras Lavadas, 2022) são disso um bom exemplo, bem como os contos incluídos em Nevoeiro e outros contos (Companhia das ilhas, 2025), obra póstuma.

Lancemos alguns olhares sobre estas quatro publicações.

Na minha opinião, o melhor romance de Norberto Ávila é aquele que passou completamente despercebido entre nós aquando da sua publicação:  No Mais Profundo das Águas. Através de um narrador omnipresente e omnisciente, esta obra lança olhares sobre o poeta-filósofo Antero Tarquínio de Quental e à Geração de 70, e é, por assim dizer, uma viagem histórica, social e cultural pelo século XIX português e europeu.

Acima de tudo, o livro traça um retrato profundamente humano de Antero, esse “génio que era um santo”, no dizer de Eça de Queiroz. Não se trata, porém, de uma biografia romanceada, já que Norberto Ávila renunciou à cronologia, optando por bem conseguidas elipses e analepses (digo, “flashbacks”), o que empresta a este livro grandes potencialidades cinematográficas. Estamos na presença de uma biografia literária, um relato minucioso da época de Antero, da sua vida nas ilhas, em Portugal e no estrangeiro, bem como das personalidades com quem conviveu, havendo a destacar a íntima amizade que manteve com o historiador Oliveira Martins.

Ao ler esta obra entramos na intimidade de “figuras de alto coturno” e que, de igual modo, ajudaram a construir o século XIX português: Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro, João de Deus, Batalha Reis, Germano Meireles, Alberto Sampaio, Teófilo Braga, José Fontana, Bulhão Pato, Adolfo Coelho (o primeiro português a ter a coragem de preconizar a separação do Estado e da Igreja), Salomão Sáragga, entre tantos outros nomes que questionaram Portugal e entreviram a direcção definitiva do pensamento europeu. Aqui também se evocam e convocam nomes como Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis, Bordalo Pinheiro, Columbano, António Feliciano de Castilho, Joaquim de Vasconcelos, Carolina Michaelis. E aqui se recordam autores estrangeiros indissociáveis da Geração de 70: Flaubert, Proudhon, Victor Hugo, entre outros.

Há também figuras obscurantistas, gente conservadora da tradição e do passado: Basílio de Sousa Pinto, o tenebroso reitor da Universidade de Coimbra, “inimigo de estimação” de Antero; o marquês Ávila e Bolama, o faialense que assinou a portaria que mandava encerrar definitivamente as Conferências Democráticas… Mas, ainda e sempre, é a figura de Antero que prevalece, um homem que, durante os 49 anos que viveu, ousou sonhar uma nova forma de sociedade para o nosso país. “Portugal ou se reformará política, intelectual e moralmente, ou deixará de existir”, escreveu ele no dia 26 de Janeiro de 1890, no jornal “A Província”. Palavras de uma gritante atualidade!

A paixão segundo João Mateus é uma obra sui generis, pela transposição de uma linguagem dramatúrgica para um discurso de ficção narrativa. Com mestria, desenvoltura e imaginação criadora assente na magia do verbo, Norberto Ávila recria o falar popular da ilha Terceira, explorando as suas particularidades lexicais e fonéticas. Livro sintomático da mundividência açoriana, vale por essa experiência linguística, e vale, sobretudo, pela profunda humanidade das suas personagens.

A matriz desta obra integra-se numa tradição teatral com raízes fundas e profundas na Idade Média e no Renascimento. Refiro-me às Danças do Entrudo, que remontam a um tempo em que o religioso e o profano se interligavam, a um tempo que é anterior às comédias e às farsas de Gil Vicente, considerado o criador ou o fundador do teatro em Portugal. Convirá, porém, não esquecer que, antes dele, muitas outras formas de representação já existiam: os arremedilhos, os momos, os autos, os mistérios, os milagres, as atuações processionais, etc.

Os poetas populares, os repentistas e os improvisadores açorianos dão hoje forma e conteúdo a toda uma tradição poética e musical (bem patente no Cancioneiro dos Açores) que remonta às cantigas de amigo, às cantigas de escárnio e maldizer, às canções de gesta medievais, enfim, à bela poesia trovadoresca.

Desse tempo pretérito, mantemos, nos Açores e com especial incidência na ilha Terceira, as referidas Danças do Entrudo que chegam até nós em forma de chocalhadas, arruaças, folias e chacotas. A partir desses materiais soubemos adaptar e criar coisas novas, como, por exemplo, “As Velhas”, a cantiga satírica terceirense. As Danças do Entrudo, vulgarmente conhecidas pelos “bailinhos”, as danças de espada (de teor dramático), e as danças de pandeiro (de teor cómico) continuam a ser a “teatralidade plena” e, segundo José Orlando Bretão, constituem, anualmente, a maior manifestação de teatro popular rimado

 Frente à Cortina de Enganos, através de uma história socialmente bem humorada, dá conta da excessiva dependência de programas televisivos, num tempo saturado de imagem, informação e comunicação. E numa era de clonagem televisiva em que os programas são decalcados uns dos outros: reality shows absurdos, novelas a granel, repetição de modelos e formatos, sensacionalismo noticioso e uma total ausência de diversidade cultural…

Norberto Ávila é ainda autor de um álbum fotográfico, intitulado As Fajãs de São Jorge (Concelho da Calheta), editado em 1992 com a chancela da Câmara Municipal da Calheta, e ainda de um livro de poesia, Percurso de Poeta (edição de autor, 2000) que mereceu o “Prémio Natália Correia” atribuído pela Direção da Cultura dos Açores.

 Postumamente publicado, em Nevoeiro e outros contos (Companhia das ilhas, 2025), Norberto Ávila volta a demonstrar um grande poder de observação e uma extraordinária pormenorização, possuindo capacidade descritiva e elegância narrativa. , E com uma ironia muito subtil a rondar por perto. São cinco narrativas escritas com sensibilidade e apuro literário. E com diálogos muito bem carpinteirados, técnica que este autor dominava, na perfeição, na sua escrita teatral.

  Com avisada coordenação de Paulo Enes Silveira e “Breve nota de abertura” assinada por Álamo Oliveira, o livro encerra com uma “Biografia extensa elaborada pelo autor” bem como uma bibliografia do mesmo.

Apesar de os contos desta obra se dispersarem por espaços geográficos diversos, são os Açores, sobretudo as ilhas Terceira e São Jorge, o microcosmo de referência, o epicentro do imaginário e a geografia afetiva de Norberto Ávila.

A missão do escritor é escrever contra o esquecimento. Para isso, ele utiliza três ferramentas fundamentais: memória, imaginação e capacidade de pesquisa.  Para Norberto Ávila a literatura sempre foi espaço de linguagem, lugar de resistência e afirmação da condição humana. Daí que, buscando na escrita o que há de insondável na alma humana, ele questione, em Nevoeiro e outros contos, as contradições da condição humana, o enigma e o mistério das (novas) mitologias do quotidiano. E disso são um bom exemplo os contos intitulados “O lastimoso caso de Valentino e Passareta”, “Das tintas e vernizes” e “Os dois irmãos gémeos de Santa Comba Dão”.

Estamos perante narrativas do imprevisto e do imprevisível: um médico que se recusa a deslocar-se para tratar de um doente; uma campa que é objeto de profanação e vandalismo; uma secreta infidelidade conjugal; o inesperado despedimento de um bancário; a descoberta, numa gaveta, de documentação suspeita; um empresário que, para mandar assassinar a sua ex-mulher, contrata um ex-toxicodependente; uma correspondência sonegada; uma má memória de Salazar; um pintor que consegue prodígios após ser operado às cataratas; um ex-guarda-florestal  que recebe um inesperado convite de uma italiana insinuante e insidiosa…

São histórias apetecíveis que se leem com o tal “plaisir du texte” de que falava Roland Barthes, e muito interessantes sob o ponto de vista narrativo: temos Norberto Ávila assumindo-se como autor omnisciente e omnipotente e que acumula com as funções de  narrador. Tudo isto em páginas de alta qualidade literária e atenta observação do humano, escritas por quem sempre viu os Açores com os olhos da memória e da distância.

Os escritores só morrem se  deixarmos de os ler. Por isso, o que é importante é que Norberto Ávila seja lido e que as suas peças sejam representadas.

Victor Rui Dores, poeta

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