
Há datas que se assinalam no calendário e outras que permanecem, para sempre, inscritas no coração das comunidades. Esta pertence às duas categorias. É número e memória, celebração e compromisso, marco no tempo e promessa lançada ao futuro.
Celebramos sessenta anos de uma geminação que começou como gesto institucional, mas depressa se tornou uma relação profundamente humana: uma ponte construída com viagens e reencontros, música e amizade, trabalho e esperança, palavras partilhadas e memórias transmitidas de geração em geração.
Em 1966, o Atlântico parecia muito maior.mmAs notícias viajavam devagar, dentro de envelopes que guardavam fotografias, relatos de família e aquela palavra tão nossa — saudade — que os portugueses levaram consigo para todas as geografias onde aprenderam a reconstruir a vida. Não havia a proximidade instantânea dos nossos dias. Uma voz demorava a chegar; um rosto permanecia meses numa fotografia; uma visita era esperada como quem aguarda o regresso de uma estação.
Aproximar duas cidades separadas por milhares de quilómetros exigia imaginação, coragem e, sobretudo, a convicção de que a distância geográfica nunca deve apagar a proximidade humana. Tulare e Angra souberam reconhecê-lo.
Esta foi a primeira geminação entre uma cidade dos Açores e uma cidade dos Estados Unidos. Os seus fundadores compreenderam, com uma lucidez que o tempo apenas veio confirmar, que as comunidades açorianas da Califórnia não constituíam um território exterior aos Açores. Eram — e continuam a ser — outra forma de as ilhas existirem no mundo.
Porque uma ilha não termina onde acaba a terra e começa o mar. Uma ilha prolonga-se nos lugares para onde partiram os seus filhos, nas casas onde ainda se pronunciam os nomes das freguesias, nas cozinhas onde sobrevivem sabores antigos, nas festas onde se coroa o Espírito Santo, nas filarmónicas, nos clubes, nas associações e nas palavras portuguesas que resistem, por vezes frágeis, mas luminosas, no quotidiano de outras pátrias.
Durante seis décadas, esta ponte foi atravessada por autarcas, estudantes, professores, agricultores, empresários, músicos, escritores, artistas e famílias. Por ela viajaram projetos, ideias, afetos e oportunidades. Por ela passaram pessoas que chegaram como visitantes e regressaram como amigos. E muitos descobriram que a fraternidade entre povos começa quando deixamos de contemplar o outro à distância e aprendemos a reconhecê-lo pelo nome, pela voz e pela sua história.

Hoje, ao recebermos a Presidente da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, Engenheira Fátima Amorim, e a delegação que a acompanha, celebramos uma relação que não permanece imóvel como uma fotografia antiga. Celebramos uma amizade viva, capaz de se renovar, de acolher novas gerações e de responder às interrogações do nosso tempo.
A presença da Senhora Presidente da Câmara, o seu empenho pessoal e institucional e o apoio continuado da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo testemunham que esta geminação não pertence apenas ao património das cerimónias. Pertence à realidade concreta das pessoas, à educação dos jovens, à circulação das ideias e à vontade de transformar a memória numa força criadora.
O WAVE Jazz Ensemble ofereceu-nos uma belíssima metáfora dessa renovação. O jazz vive do diálogo, da escuta e da liberdade. Cada músico possui a sua voz, o seu timbre e a sua maneira de respirar a música; mas é do encontro entre diferenças que nasce a harmonia. Nenhum instrumento precisa de deixar de ser aquilo que é para pertencer ao conjunto. Pelo contrário: quanto mais verdadeira for cada voz, mais rica se torna a criação coletiva.
O mesmo acontece entre Tulare e Angra. A música atravessou o oceano e um continente. Entrou nas escolas públicas de Tulare, encontrou centenas de estudantes, falou-lhes numa linguagem que não necessita de tradução e mostrou-lhes que uma ilha aparentemente distante pode chegar até eles através de um saxofone, de uma guitarra, de uma voz ou do ritmo de uma bateria.
Chegou igualmente à Universidade do Estado da Califórnia em Fresno, onde dialogou com estudantes, professores e músicos do Fresno State Jazz Orchestra. Nesse encontro, Terceira e Califórnia reconheceram-se através da música. Não como territórios estranhos, mas como espaços tocados pela mesma curiosidade, pela mesma criatividade e pela mesma vontade de aprender uns com os outros.
Há algo de profundamente simbólico nessa viagem. O jazz, que também deixou raízes na ilha Terceira através da presença norte-americana na Base das Lajes e do contacto cultural que daí nasceu, regressou agora à Califórnia recriado por músicos açorianos. Aquilo que um dia atravessou o Atlântico numa direção voltou, décadas depois, enriquecido pela sensibilidade de uma ilha. Assim circula a cultura: nunca permanece intacta, mas também nunca desaparece. Transforma-se, mistura-se, ganha novas inflexões e regressa como uma memória capaz de improvisar o futuro.

A literatura e as artes plásticas tiveram igualmente um lugar central nesta celebração, sobretudo através da presença entre nós da Dra. Assunção Melo e da apresentação do seu livro dedicado a António Dacosta, uma das figuras maiores da arte portuguesa do século XX e um dos mais universais criadores nascidos na ilha Terceira.
Apresentar um livro sobre António Dacosta neste contexto foi muito mais do que acrescentar um momento literário ao programa comemorativo. Foi devolver à diáspora uma parte essencial da sua herança cultural. Foi lembrar-nos de que os Açores não ofereceram ao mundo apenas navegadores, emigrantes e trabalhadores incansáveis; ofereceram também artistas, escritores, músicos e pensadores capazes de transformar a insularidade numa linguagem universal.
Na obra de António Dacosta, a ilha não surge apenas como geografia. Surge como memória interior, como distância, inquietação, silêncio e regresso. Mesmo quando o artista se afastava fisicamente da Terceira, levava-a consigo como quem transporta uma paisagem secreta. A ilha permanecia na sua visão do mundo, nas suas figuras, nas suas ausências e naquele diálogo constante entre o real e o imaginado.
A investigação e a escrita de Assunção Melo ajudam-nos a compreender esse universo com maior profundidade. O seu livro não se limita a documentar a vida e a obra de um artista: restitui-lhe o tempo, a circunstância e a humanidade. Aproxima-nos do homem por detrás da criação e permite-nos perceber como uma vida nascida numa ilha pode abrir-se às grandes inquietações estéticas e humanas do seu século.
Foi igualmente significativa a presença da Dra. Assunção Melo nas aulas de Língua e Cultura Portuguesas da Universidade Estadual da Califórnia em Fresno. Entrar numa sala de aula é entrar no lugar onde o futuro começa discretamente. Ali, perante estudantes de diferentes origens — alguns descendentes de portugueses, outros movidos pela curiosidade por uma língua e uma cultura que começam agora a descobrir —, Assunção Melo não falou apenas de António Dacosta. Falou do poder da arte, da importância da investigação, da memória cultural dos Açores e da responsabilidade de preservar e reinterpretar aquilo que recebemos.
A sua presença permitiu que a língua portuguesa deixasse, por instantes, de ser apenas matéria de estudo e se tornasse encontro vivo. Os estudantes puderam escutar uma voz chegada dos Açores, dialogar com uma investigadora e autora, formular perguntas e compreender que aprender uma língua significa também entrar numa civilização, numa memória coletiva e numa maneira particular de olhar o mundo.
Uma aula assim ultrapassa as paredes da universidade. Torna-se uma pequena ponte dentro da ponte maior. Demonstra que a geminação se cumpre verdadeiramente quando chega às salas de aula, quando desperta a curiosidade dos jovens e quando coloca o conhecimento em circulação. As instituições assinam protocolos; mas são os encontros humanos que lhes dão alma.
A presença de Assunção Melo e a apresentação da sua obra recordaram-nos, assim, que uma comunidade sem memória cultural corre o risco de se tornar estrangeira de si própria. Preservar a memória de António Dacosta é também preservar uma forma açoriana de interrogar o mundo. E levá-la às novas gerações da diáspora é garantir que essa memória não permaneça encerrada nos arquivos, mas continue a respirar, a questionar e a criar.

Mas celebrar não é apenas recordar. A melhor homenagem ao passado é a coragem de imaginar o futuro. Sessenta anos não encerram um ciclo. Abrem novas portas.
Abrem-se portas no ensino e na investigação. Desde 2016, cerca de oitenta estudantes e docentes participaram em intercâmbios entre a Universidade Estadual da Califórnia em Fresno e a Universidade dos Açores, quase todos apoiados pela Fundação das Cidades Irmãs e pela Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. Foram experiências profundamente transformadoras. Jovens da Califórnia conheceram a realidade açoriana; estudantes e docentes dos Açores descobriram novas dimensões da diáspora; e todos regressaram com uma compreensão mais ampla de si mesmos e do mundo.
Agora, estas experiências devem crescer.
A cooperação iniciada nas ciências agrárias pode alargar-se à comunicação social, à educação, à saúde, à sustentabilidade, ao turismo, à economia, à história, à literatura, à música e às artes. Podemos criar estágios, projetos conjuntos de investigação, cursos de verão, residências artísticas, encontros de escritores, programas de história oral e oportunidades para que jovens das duas margens trabalhem lado a lado. Podemos fazer da universidade não apenas um lugar de ensino, mas uma verdadeira casa atlântica do conhecimento, onde os Açores, Portugal, a Califórnia e a diáspora se encontrem para pensar os desafios comuns do nosso século.
Abrem-se portas na agricultura e na inovação. Tulare e a Terceira conhecem a cultura da terra e do leite, a dignidade do trabalho rural e os desafios enfrentados pelas comunidades agrícolas. Conhecem o amanhecer nos campos, o labor que começa antes da luz, a incerteza das estações e a íntima relação entre a sobrevivência de uma comunidade e a saúde da terra que a sustenta.
As duas regiões podem partilhar conhecimento sobre a gestão da água, as alterações climáticas, a produção sustentável, a tecnologia agrícola, a valorização dos produtos locais e a renovação geracional no mundo rural. Podem aprender uma com a outra, não porque sejam iguais, mas precisamente porque as suas diferenças oferecem perspetivas complementares.
Abrem-se portas na cultura, no turismo, no comércio e no empreendedorismo.
Podemos aproximar artistas, escritores, bibliotecas, museus, arquivos, associações, empresas, produtores e jovens empresários. Podemos transformar a afinidade histórica em colaboração concreta, criar itinerários culturais, exposições, festivais, programas editoriais e iniciativas que permitam às duas cidades conhecerem-se para além das cerimónias oficiais.
Podemos fazer da cultura não apenas um espelho onde contemplamos aquilo que fomos, mas uma janela através da qual imaginamos aquilo que ainda podemos construir.
Abrem-se, sobretudo, as portas da participação juvenil.
Nenhuma geminação sobreviverá apenas da nostalgia. A nostalgia pode aquecer a memória, mas não basta para construir o futuro. Se esta amizade quiser chegar aos cem anos com a vitalidade com que hoje chega aos sessenta, terá de pertencer aos jovens. Devemos chamá-los não apenas para assistirem às cerimónias, mas para as imaginarem; não apenas para ocuparem os lugares reservados à audiência, mas para tomarem a palavra; não apenas para herdarem a ponte, mas para decidirem para onde ela nos levará.
É necessário que conheçam os nomes dos pioneiros, mas também que acrescentem os seus próprios nomes a esta história. Que saibam por que razão a ponte foi construída, mas que tenham liberdade para lhe acrescentar novos caminhos. Que recebam a memória como herança, nunca como prisão.
Os fundadores tiveram a ousadia de olhar para além das limitações do seu tempo. Num mundo em que comunicar era difícil, imaginaram a proximidade. Num tempo em que viajar era privilégio de poucos, conceberam a circulação de pessoas e de ideias. Quando o Atlântico parecia uma fronteira, viram nele um caminho.

A nossa responsabilidade é ter a mesma ousadia. Num mundo que volta a erguer muros — políticos, culturais e interiores —, as cidades-irmãs recordam-nos que a amizade internacional não pertence exclusivamente aos governos. As comunidades também praticam a diplomacia.
Praticam-na quando uma escola recebe músicos vindos de longe; quando uma universidade acolhe uma escritora ou uma investigadora; quando um estudante vive durante algumas semanas noutra cultura; quando uma família abre a sua casa; quando uma biblioteca apresenta um livro; quando uma associação preserva uma memória; quando uma canção é partilhada; quando duas pessoas se sentam à mesma mesa e descobrem que as suas histórias, apesar das distâncias, possuem raízes semelhantes.
Uma visita pode parecer breve, mas deixar marcas duradouras. Uma aula pode despertar uma vocação. Um livro pode devolver alguém à sua herança. Uma canção pode ensinar aquilo que nenhum discurso consegue explicar. Um encontro pode alterar o rumo de uma vida. Esta geminação é, por isso, uma forma de diplomacia humana: feita de rostos, de memória, de escuta e de hospitalidade.
Neste salão do Tulare-Angrense, sentimos a presença daqueles que tornaram possível esta caminhada. Muitos já partiram, mas permanecem nas fotografias, nas histórias transmitidas entre gerações, nos nomes inscritos nas atas e, sobretudo, na confiança que semearam entre as duas cidades.
Talvez alguns nunca tenham imaginado até onde chegaria o gesto que iniciaram. Talvez não pudessem prever os intercâmbios universitários, os concertos, os projetos culturais, os livros apresentados ou os jovens que atravessariam o Atlântico graças à semente que lançaram. Mas é assim que trabalham os verdadeiros pioneiros: semeiam uma árvore cuja sombra pertencerá, sobretudo, aos que vêm depois.
Devemos-lhes gratidão.
Aos pioneiros, aos dirigentes municipais, à Fundação das Cidades Irmãs, à Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, às instituições educativas, aos clubes, às associações, aos artistas, aos escritores, aos professores, aos estudantes, aos agricultores, aos empresários, às famílias e aos voluntários.
A todos os que compreenderam que uma ponte não se conserva apenas com admiração. É preciso atravessá-la. É preciso cuidar dos seus alicerces, renovar os seus caminhos e permitir que novos viajantes nela deixem as suas pegadas. Uma ponte deserta torna-se monumento; uma ponte atravessada permanece viva.
Hoje, sessenta anos depois, cabe-nos continuar essa travessia.
Que esta comemoração não seja apenas uma homenagem ao tempo passado, mas um compromisso com o tempo que agora começa. Que cada visita produza colaboração; que cada encontro abra uma possibilidade; que cada livro desperte uma pergunta; que cada concerto aproxime sensibilidades; e que cada jovem que atravesse o Atlântico regresse com horizontes mais amplos e com a certeza de que pertence a uma história maior do que a sua própria biografia.
Tulare e Angra pertencem a duas margens, mas partilham a mesma corrente de memória. Entre esats duas cidades corre um oceano que separou famílias, mas que também transportou sonhos, trabalho, cultura e esperança. Um oceano que conheceu lágrimas de partida e alegrias de regresso; que guardou despedidas nos seus portos e trouxe futuros dentro de navios e aviões; que ensinou aos açorianos que partir não significa necessariamente abandonar e que regressar nem sempre exige o caminho físico de volta.
Durante sessenta anos, provámos que o Atlântico não precisa de ser uma distância. Pode ser um caminho.
Que os próximos sessenta anos sejam construídos com fidelidade às raízes e com liberdade para imaginar novos frutos. Que saibamos honrar os fundadores sem nos tornarmos prisioneiros do passado; preservar a memória sem deixar de inventar o futuro; conservar aquilo que nos identifica sem recear aquilo que ainda podemos vir a ser.
Que a música do WAVE Jazz Ensemble continue a recordar-nos o valor da escuta e da improvisação. Que a obra de António Dacosta nos ensine a transformar a ilha em visão universal. Que o trabalho de Assunção Melo nos mostre como a investigação e a escrita resgatam do silêncio as figuras essenciais da nossa cultura. E que a presença destes criadores, músicos e estudiosos nas nossas escolas e universidades confirme que a cultura só permanece viva quando é partilhada.
Porque uma geminação verdadeiramente viva não celebra apenas aquilo que fomos. Pergunta-nos o que ainda podemos ser.
E, diante das portas que estes sessenta anos nos abrem, avancemos juntos — Angra e Tulare, Açores e Califórnia, ilhas e diáspora — com gratidão pelo caminho percorrido, lucidez perante os desafios do presente e a audácia indispensável para atravessar o futuro. Que esta ponte continue firme. Que permaneça aberta. Que sobre ela continuem a passar estudantes e professores, músicos e escritores, agricultores e investigadores, famílias e sonhos.
E que nunca, por indiferença, esquecimento ou falta de imaginação, deixemos de atravessá-la.
Texto a partir de uma alocução comemorativa dos 60 anos da geminação entre Tulare e Angra do Heroísmo, proferida por Diniz Borges no Tulare-Angrense.

