Cânticos do Mesmo Sal: a poesia de José do Carmo Francisco

Balada para Luís Filipe Maçarico

Adeus Lisboa, cidade

Tenho a vida em partilhas

Caldeirada de saudade                                                

Entre Almada e Cacilhas.

Eu digo adeus às matilhas

Em tuque-tuque infectado

Cidade das maravilhas

Está perdida no passado.

Se a Poesia é verdade

No fim tem sempre razão

Na Cova da Piedade

Tive prémio e ovação.

Por Incrível que pareça

Há sempre uma Academia

À espera de nova peça

Na mais teimosa alegria.

E um Céu que tem Maria

A captar em cada imagem

O preto e branco do dia

Povoamento e paisagem.

Na proa dum cacilheiro

O Mundo tem outra escala

Com Luís Alves Milheiro

Saltam poemas da mala.

Casario do Ginjal

Conservas e tanoeiros

Aqui em frente à Capital

Cantam versos derradeiros.

Sobre um tema de Emanuel Félix
(poema – autógrafo para Manuel Emílio Porto)


O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia
O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalha a noite inteira
Numa faina de alegria
E faz à sua maneira
Sumário dum novo dia
Como se uma feiticeira
Desenhasse a profecia
Duma vida verdadeira
Longe da monotonia
O motor duma traineira
Vem acordar o poema
Numa mesa de madeira
O poeta tem um dilema
Há a palavra pioneira
Que desenha no cinema
O fogo de uma lareira
Criando um novo sistema
O poeta escuta a traineira
Que dá a força ao poema
O motor duma traineira
Que fundeou na baía
Trabalhou a noite inteira
Mas só o poeta o ouvia


José do Carmo Francisco, poeta

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