
A identidade de Peniche é moldada por uma dualidade profunda: a monumentalidade da pedra militar da sua Fortaleza e a vibrante cultura imaterial do mar. No centro desta geografia encontra-se o Campo da Torre (Campo da República), um espaço de charneira que, apesar do seu potencial, sofre hoje de uma fragmentação funcional que dilui o seu valor.
Situado na transição imediata entre o núcleo urbano consolidado e a imponente frente sul da Praça-forte de Peniche, este plano aberto desempenhou, ao longo dos séculos, um papel multifuncional, servindo defensivamente como fosso exterior, socialmente como espaço de feira franca, laboralmente como suporte à actividade piscatória e espiritualmente como palco de devoção popular. Por isso, é imperativo transformar este recinto, relegado a parque de estacionamento ou recinto de feiras sazonais, num ecossistema interpretativo dinâmico que una a história da resistência política à história viva dos homens e mulheres do mar.
A requalificação deste espaço não deve limitar-se à substituição de pavimentos. Inspirando-nos em modelos internacionais como Pasajes de San Pedro ou Bergen, devemos reintroduzir a cultura marítima no desenho urbano. Pode passar, por exemplo, pela musealização do eixo do “Bota-Abaixo”, assinalando no pavimento o traçado histórico por onde as embarcações deslizavam em direcção ao mar no antigo Portinho de Revés, utilizando marcadores em pedra polida e madeira. Complementarmente, a criação de um “Estaleiro Vivo” — uma estrutura de carpintaria naval onde mestres e aprendizes mantenham embarcações tradicionais sob o olhar do público — transformaria a praça num ecomuseu participativo.
Esta visão deve estender-se às áreas de lazer. As esplanadas comerciais devem ser reinventadas como esplanadas interpretativas, com estruturas em pinho e carvalho que evoquem o cavername das traineiras, e coberturas em lona que remetam para o cordame tradicional. Nestes espaços, a gastronomia — a sardinha e a caldeirada — deve ser acompanhada por mediação cultural, como guias de áudio e exposição de artefactos navais, tornando o acto de comer uma experiência de aprendizagem.
Não podemos esquecer a dimensão humana e imaterial. O Campo da Torre deve homenagear o trabalho feminino, integrando no pavimento elementos que recordem as mulheres que ali secavam roupas e reparavam redes. Historicamente, este é também o ponto de encontro entre a “resistência marítima” e a “resistência política”; foi aqui que os pescadores lutaram pelos seus direitos e onde, em 1974, a população saudou a liberdade. Por isso, o itinerário “Do Mar à Liberdade” deve ligar a Ribeira Velha à Fortaleza num discurso único e coeso.
Neste processo de restauro da identidade, é fundamental reafirmar a centralidade espiritual do local. O Campo da Torre deverá ser o centro nevrálgico da Festa em honra de Nossa Senhora da Boa Viagem. Por isso, defendo que para além da procissão marítima nocturna, a procissão em honra da padroeira deve voltar a passar solenemente pelo interior deste recinto. Esta medida, aliada à transferência das diversões feirantes para um espaço mais adequado, devolveria ao Campo a sua função de palco monumental para a fé dos pescadores.
Para concretizar esta ambição, urge elaborar um Plano de Pormenor e Regulamento do Espaço Público que regulamente materiais e eixos visuais, garantindo que o Campo da Torre respire em harmonia com a Cidadela. Este instrumento de gestão municipal deve fixar regras claras quanto aos materiais permitidos nas esplanadas — dando prioridade à madeira tratada, ao ferro e à pedra calcária —, à volumetria das estruturas de sombra e aos limites de ocupação do solo, impedindo a descaracterização comercial do recinto.
Sugere-se ainda a criação de um arquivo digital de memória oral e etnográfica focado no quotidiano do Campo da Torre. A recolha sistemática de testemunhos de carpinteiros de machado-de-costa, calafates, pescadores e mulheres da comunidade permitirá preservar um acervo imaterial de valor inestimável, cujos conteúdos poderão alimentar os guias áudio e os dispositivos digitais disponibilizados aos visitantes nas esplanadas interpretativas.
A execução destas medidas permitirá converter o Campo da Torre num espaço urbano qualificado, coeso e identitário, onde a memória da pesca, a arte da construção naval de madeira e o testemunho da resistência política se articulam harmoniosamente como factor de atracção turística sustentável.
