Antologia “Humor na Literatura Açoriana” do pendor irónico ao humor declarado por Víctor Rui Dores

                                                                                                                      “O riso é uma opinião.”

                                                                                                                               Eça de Queiroz

Em tempo de racionalismos, precisamos de humor como do pão para a boca. Olhamos à nossa volta e vemos que o mundo está marcado por guerras e genocídios, medos e ameaças, desejos e renúncias, conflitos e euforias. Por isso, o humor é uma excelente forma de quebrar a rotina e de renunciar à banalidade de um quotidiano quantas vezes pardacento.

Há que libertar o homo ludens que há dentro de nós, porque brincamos pouco, rimo-nos insuficientemente e deveríamos utilizar formas mais saudáveis de rir e fazer rir. Até porque há no humor uma dimensão catártica – que tem a ver com o drama das nossas frustrações históricas, as inquietações do nosso presente de crise e a angústia do nosso futuro incerto.

É a nossa condição insular que, de certo modo, nos obriga à necessidade de momentos humorísticos, nós que, nos Açores, vivemos ciclos e ritos que se situam nessa ambígua fronteira que separa o profano do religioso, sendo que, muitas vezes, um e outro são indissociáveis e estão interligados – as festividades do Espírito Santo, por exemplo.

 “Para nós, açorianos, a Geografia vale outro tanto como a História”, escreveu Vitorino Nemésio. E eis-nos perante um dado inapelável: o fenómeno da insularidade deixou marcas no espírito dos açorianos. São 6 séculos de isolamento físico, de contacto permanente com o mar, de horizontes finitos, de cataclismos vulcânicos, de uma religiosidade que foi gerada precisamente no terror sagrado de sismos e vulcões – fatores que marcaram e moldaram definitivamente a maneira de ser, estar, pensar e agir do povo açoriano. O conceito da açorianidade (criado em 1932 por Nemésio, por decalque de hispanidad, de Miguel de Unamuno) é, segundo aquele autor terceirense, “esse amor elementar que não conhece razões, mas impulsos”, é essa força telúrica, essa especificidade e idiossincrasia de que hoje tanto se fala.

Vem tudo isto a propósito da recente publicação de Humor na Literatura Açoriana, Antologia (Letras Lavadas, 2026), com coordenação do autor destas linhas. A obra dá continuidade à Antologia de Humor Açoriano, o Humor na Literatura Açoriana (Letras Lavadas, 2024), coordenada por Helena Chrystello e com prefácio de Aníbal Pires. Mas trata-se de uma nova Antologia. Mantive os textos dos 15 escritores já antologiados e acrescentei escritos de outros 17 escritores, o que perfaz 32 autores (num espaço temporal que vai do século XVIII até à atualidade), que distribuí por ordem cronológica e não por ordem alfabética, conforme constava na Antologia anterior.

1. Da origem do humor nos Açores

É inegável a existência de uma criatividade popular açoriana – bem patente na nossa literatura oral: romanceiro, cancioneiro e adagiário.

Tal criatividade tem raízes fundas e profundas nas “Cantigas de Amigo”, nas “Cantigas de Escárnio e Maldizer” (que tem antecedentes nas “chocalhadas” e nas “arruaças”) e na “Chacota”, “canção de fazer rir verdades e fantasias”, um dos géneros musicais utilizados por Gil Vicente para “criticar, troçar de tudo e de todos, mas a todos divertindo”, usando, por vezes, um vocabulário desbocado. O estilo de crítica humorística do pai do teatro português correu e encontrou simpatizantes a imitá-lo. Como os Açores se encontravam ainda no período de povoamento, bastou que um desses simpatizantes viesse parar às ilhas para que se vulgarizassem, com as devidas adaptações, o escárnio e a zombaria.

Convirá é não esquecer que, muito antes de Gil Vicente, já havia em Portugal muitas outras formas de representação: os arremedilhos, os momos, os autos, os mistérios, os milagres e atuações processionais. E, desde logo, há a considerar a seguinte circunstância: a forte religiosidade do povo açoriano teve como consequência inevitável a procura de uma componente profana. Com efeito, a religião tornou o açoriano um ser manso, resignado e paciente e mandou-o renunciar ao mundo proibido pela salvação eterna das suas almas.  A festa pagã veio romper com tudo isto, e sempre foi uma forma encontrada pelos ilhéus para o exorcismo de angústias e inquietações.

E é aqui que entra o “humor açoriano” que terá certamente origem nas referidas “Cantigas de Escárnio e Maldizer”. A ilha Terceira possui, na canção “As Velhas”, resquícios desse género satírico: os velhos pretensiosos que aspiram ao casamento e recorrem a artifícios para disfarçar as ruínas da velhice, a grande diferença de idades entre casados e as alusões de carácter sexual foram sempre objeto de troça e motejos por parte do povo.

Assistimos, nos dias que correm, a tais influências medievais e renascentistas nestas ilhas. Por exemplo: de origem religiosa, temos as Cavalhadas em São Miguel; e, na componente profana, as Danças de Entrudo na Terceira. Estas, de espada, pandeiro e “bailinhos”, animam, em manifestação espontânea e genuína, todos os “salões” terceirenses num teatro do povo e para o povo, em representações que atingem a teatralidade plena: grande economia de meios e uma enorme eficácia cénica. A uma média de 60 por ano, as Danças de Entrudo constituem “a maior manifestação de teatro popular rimado em língua portuguesa”, segundo o estudioso José Orlando Bretão. Trata-se de um fenómeno que capitaliza forças e energias (só quem está doente ou acamado é que, pelo Carnaval, não sai de casa para ver danças), fenómeno esse que, pelo exercício de uma feroz crítica social, funciona como uma autêntica catarse coletiva.

Por outro lado, e herdeiros de toda esta tradição poética e musical de base trovadoresca, temos os atuais improvisadores açorianos que, exprimindo-se em quadras, sextilhas, ou décimas, se digladiam, no terreiro ou no palco, em animadas cantigas ao desafio. Estamos perante uma verdadeira arte poética, iniciada por mestres da cantoria e lavradores da palavra (o Terra, o Bravo, o Charrua, a Turlu ou o João Ângelo), e continuada até aos dias de hoje por repentistas de várias gerações.  A agudeza de espírito, o humor sagaz e a capacidade de ironia são as qualidades mais apreciadas desses repentistas. De resto, uma cantoria será sempre um pretexto para um exercício de crítica, que pode ir da breve alusão irónica à mordacidade e ao sarcasmo mais cruéis.

2. Humor em contexto literário

                                               “Não se faz boa literatura com bons sentimentos.”

                                                                                                                                                              André Gide

Percorrendo vários géneros literários, o humor é algo que acompanha o homem desde as suas origens e está intrinsecamente associado aos comportamentos humanos, aflorando sobretudo quando eles não são conformes com as regras estabelecidas pela sociedade ou pelos grupos sociais.

No contexto da civilização ocidental, terá sido Homero o primeiro autor a produzir momentos de humor. Mas de que falamos quando falamos de humor?

E é tão difícil definir o humor que até se diz que a própria tentativa é uma piada… Em rigor, não há um humor – existem humores.

Não escondo esta profunda convicção que sempre (man)tive: sem algum humor não há boa literatura… Meio século de contacto permanente com as artes de palco, dá-me relativa segurança para poder aqui afirmar que é muito mais difícil fazer rir do que fazer chorar. E isto porque, contrariamente ao choro, o humor é produto da inteligência e da imaginação – pela associação de ideias a personagens e situações inesperadas, imprevistas e imprevisíveis. O resultado pode ir do sorriso, ao riso ou à gargalhada mais estridente.

É certo que o humor português, quase sempre “revisteiro” ou “brejeiro”, está a anos-luz da inteligência e da subtileza do “humor britânico”, mas cada povo sabe de si, regendo-se pelos seus próprios princípios e valores. O humor que em espaço luso temos é aquele que soubemos criar ao longo dos séculos.

Em matéria de produção literária produzida nos Açores não temos propriamente livros humorísticos, mas, sim, poemas, contos, crónicas e outras narrativas com momentos de humor, sátira, ironia, chiste…

Atentos ao real e ao risível das coisas, os autores aqui antologiados sabem que é a brincar que se castigam os (maus) costumes, na conceção horaciana de prodesse et delectare. Mas há também aqui uma conceção de raiz barthesiana: “le plaisir du texte”, que sou tentado a traduzir por deleite verbal.

Tal deleite verbal é, no contexto da tradição humorística portuguesa, resultado do trocadilho, da chalaça, da chacota, do lapsus linguae, do burlesco e da cisão de sentidos. Ontem como hoje temos autores que souberam e sabem pôr em causa o signo linguístico, brincando com o sintagma e com o paradigma, com a sintaxe e com a semântica.

Nesta matéria, nos Açores soubemos reproduzir, adaptar e (re)criar o que vinha de fora, num fenómeno de claro mimetismo cultural. Na pesquisa que fiz para este projeto editorial, encontrei, sobretudo, muita qualidade de escrita.

 O autor mais antigo que topei a produzir verdadeiro humor foi o padre florentino José António de Camões (1777-1827) que, mutatis mutandis, poderemos equiparar a Paulino António Cabral de Vasconcelos, o Abade de Jazente (1719-1789) …

E temos, no faialense Manuel García Monteiro (1859-1913), um satírico que, em matéria de zombaria, nada fica atrás de um Nicolau Tolentino (1740-1811), ou de um Guerra Junqueiro (1850-1923).

O picaresco do poema “Fidalguia” de Roberto de Mesquita (1871-1923) está ao nível das produções poéticas de um Cesário Verde (1855-1886).

E há muito de Alexandre O´Neill (1924-1986) na jocosidade da escrita de alguns dos nossos autores mais recentes.

Por conseguinte, grande é o humor inteligente e a imaginação criadora dos autores açorianos, cujos textos, provocando reflexões (algumas profundas) através da ironia e do efeito hilariante, podem aqui ser arrumados mediante os seguintes vetores temáticos:

 Do humor lúcido: padre José António de Camões, Costa Resende, Manuel Garcia Monteiro, Roberto de Mesquita, Vitorino Nemésio, Natália Correia, Emanuel Félix, Daniel de Sá, Santos Barros, Álamo Oliveira, Vasco Pereira da Costa, Urbano Bettencourt, entre outros.

Da dialética e da ironia: Onésimo Teotónio de Almeida, sem dúvida o autor açoriano que mais humor e ironia tem produzido nos últimos 50 anos, e que chama “ensaios em mangas de camisa” às suas divertidíssimas crónicas.

Da narrativa divertida, furtiva e desassombrada: Maria Luísa Soares, José Francisco Costa, Chrys Chrystello, Artur Veríssimo, Eduardo Bettencourt Pinto, Aníbal Pires, Pedro Almeida Maia, Alexandre Borges, Luís Filipe Borges, Diogo Ourique, Diana Zimbron, entre outros.

Da comicidade feita risadilha maldizente: João Teixeira Medeiros, Pedro da Silveira, José Martins Garcia, Marcolino Candeias, Victor Rui Dores, entre outros.

Humor na Literatura Açoriana, Antologia aí fica. Para (hilariante) fruição do leitor.

Victor Rui Dores, poeta

Leave a Reply