
Apresentação livro «Os Açores: Mistérios e Mudança», Thomas Fischer
Ponta Delgada 07/06/2026 — Museu Carlos Machado
Neste ano de 2026, em que se comemora o cinquentenário da Região Autónoma dos Açores, da Autonomia, do 6 de Junho (assinalado ontem), e abeirando-se os 600 anos dos Descobrimentos dos Açores — efeméride na qual parece que ainda não se começou a pensar, a não ser que fôssemos capazes de planear com a antecedência da Deutsche Technologie — tenho muito gosto em apresentar-vos este trabalho.
Thomas Fischer nasceu na Alemanha Federal, passou a infância em Londres, retornou a terras germânicas, mais concretamente a Bremen, e depois a Colónia, onde estudou Economia e Sociologia e se iniciou no jornalismo. Talvez por isso este livro seja “a perspetiva e a paixão de um jornalista-viajante”. Fascinou-se pelo 25 de Abril português; fascinou-se tanto que para a Lusitânica viajou num Carocha verde — um carro alemão, note-se — e tornou-se correspondente de vários órgãos de comunicação social. Depois adquiriu nacionalidade portuguesa. E ainda escreveu Entre Cravos e Cardos: Portugal aos olhos de um estrangeiro que se tornou português, incluído no Plano Nacional de Leitura.
Hoje, neste evento integrado no Utopia Açores, por sua vez incluído no programa da PDL26, Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura, tenho a honra de apresentar o seu mais recente trabalho: Os Açores: Mistérios e Mudança, uma edição Letras Lavadas, grupo Publiçor, que se torna agora um excelente candidato a um Plano Internacional de Leitura, caso existisse!
Os olhares de estrangeiros sobre os Açores sempre me fascinaram. Não faltam publicações de visitantes que, ao longo dos séculos, foram registando as suas impressões: umas mais positivas do que outras; umas mais sinceras do que outras. Cada visitante, sua sentença. Resolve-nos a eterna ideia de Daniel de Sá, de que “sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”, muitas vezes citado por Onésimo Teotónio Almeida na ideia inversa, a de que “sair é a melhor maneira de nela ficar”; ambos por sua vez citados por João de Melo, que aborda este dilema em O Meu Mundo Não é Deste Reino. Poupa-nos também a célebre necessidade de Saramago, a de que “é preciso sair da ilha para ver a ilha”, de que “não nos vemos se não sairmos de nós”. Também quis intrometer-me nesta discussão e, em Ilha-América, romance que o Thomas Fischer generosamente também refere neste livro, e que por isso agradeço, escrevi que “abandonar a ilha que somos é o maior ato de coragem”.
Afinal de contas, os visitantes do arquipélago ao longo dos séculos apontam-nos os traços ilhéus de que até desconfiamos; alguns de que nem gostamos. No livro Viajantes nos Açores: O olhar estrangeiro sobre as ilhas desde o século XVI, Maria das Mercês Pacheco pergunta “o que nos faz ser quem somos, tanto aos nossos olhos como aos olhos de quem nos visita” narrando outros olhares de fora. Só para referir os mais célebres, pois entre eles foram centenas: Winston Churchill, Príncipe Alberto do Mónaco, Herman Melville, Charles Darwin, e os irmãos Bullar, que eternizaram a expressão “Azorean Torpor” no livro A Winter in the Azores, and a Summer at the Baths of Furnas, expressão mais tarde reutilizada por Vitorino Nemésio.
Mas já há algum tempo que ninguém “de fora” escrevia em detalhe sobre os Açores. E tal exercício é deveras importante, tais olhares são indispensáveis. Fulcrais. Carregam a importância de nos vermos aos olhos de outra pessoa, a relevância da alteridade: por isso vamos ao psicólogo, em busca de validação; por isso desabafamos com amigos, em busca de confirmação; por isso falamos da nossa vida ao cabeleireiro, ao empregado de balcão, por isso pedimos segundas opiniões — e às vezes terceiras.
Mas visitar um destino por uns dias, ou de férias, não é o mesmo do que lá viver, pois não? Com a minha companheira, mudámo-nos para Braga, para Coimbra e para a Irlanda. Neste último destino, passámos os primeiros três dias num alojamento local com um divinal pequeno-almoço incluído — estávamos maravilhados! No meio de uma crise habitacional, mal sabíamos que nos esperava uma temporada a viver num hostel de esquina, esgotando o saldo do cartão de crédito até encontrarmos aposentos dignos — para depois, tendo uma morada, obter o PPS Number, uma espécie de cartão de contribuinte local, e só então poder começar a receber a minha bolsa de estágio, motivo pelo qual nos tínhamos mudado. Quando o conseguimos, no entanto, a vida cor-de-rosa do país verdejante começou a perder cor.
Digo-o para sublinhar que Thomas Fischer não visitou os Açores apenas para picar o ponto: fê-lo incontáveis vezes, consecutivamente e ao longo de décadas. Não se trata, portanto, de um olhar superficial, mas de uma reflexão profunda, sociológica e jornalística, de paixão e verdadeiro interesse.
A história deste belo livro começa com um episódio em que um aparelho GPS, daqueles primordiais, levou o autor para um sítio errado. Fez-me recordar um cruzeiro no Douro que nos foi oferecido, a mim e à Cristina, e ao colocarmos “Cais de Gaia” na pesquisa, o maldito dispositivo levou-nos para o Cais de Gaia errado. Perdemos a generosa oferta. E à semelhança da reclamação de Thomas Fischer, de que aquela marca anunciava incluir os mapas de “todo o Portugal”, também o nosso NDrive o propagandeava. Mas não tinha: havia apenas os da “faixa retangular ibérica”. Mais grave ainda: na parte de trás do equipamento dizia em letras bem gordas: “Made in Portugal”.
Os relatos de Thomas Fischer remontam ao tempo em que os Açores eram conhecidos na Europa pelo seu anticiclone: “ein Hoch uber den Azoren” — espero que a minha dicção alemã não vos cause ferida. Já agora, curiosamente, em finlandês diz-se “Azorien korkeapaine”, que faz lembrar “dor”, sentida por muitos de nós quando se fala do estado do tempo.
O autor refere que, e passo a citar: “Em muitos mapas da Europa, não há lugar para os Açores, nem para outras regiões ultraperiféricas, como a Madeira ou as Canárias, arrumadas em pequenas caixas, longe da sua localização geográfica real, só para mostrar que existem.” Eu acrescentaria que quem as colocou naquelas caixas não é ilhéu e muito menos um bom cartógrafo.
Ao exemplificar a dimensão do território de mar ocupado pelas ilhas dos Açores, comparando-a com o território de Portugal Continental, propõe uma ponte entre São Roque do Pico e as Velas de São Jorge, uns 20 quilómetros que seriam pouco mais do que a ponte Vasco da Gama, sobre o Tejo. Só que aqui, apetece-me acrescentar, não é Lisboa; só é Lisboa na repartição das Finanças, nos balcões da Segurança Social, na direção das forças policiais e do Exército, e no rasgado fundo dos nossos bolsos.
Diz o autor que aqui havia “muita matéria-prima para reportagens”, tantas que as foi realizando ao longo dos anos. E até fala da hospitalidade açoriana, que perante a tentativa espanhola de se tomar a ilha Terceira, o último pedaço de território português naquele século XIV, o povo da Salga se deu ao trabalho de soltar touros bravos e assim vencer uma batalha com mais pompa do que a de Aljubarrota.
O autor depois recua à primeira visita ao arquipélago, quarenta anos volvidos, quando éramos sobretudo “beleza paisagística”. Hoje somos beleza paisagística, mas com vacas e pessoas… ao menos são felizes — algumas pessoas também são felizes.
Um episódio aqui narrado, sobre o embarque numa aeronave com direito a atraso, ainda pela companhia aérea TAP, já não era bom indicador dos atrasos do futuro; e não me refiro apenas aos atrasos dos aviões: o nosso futuro sempre esteve em fusos horários errados.
Na primeira visita a São Miguel, fala de restaurantes fechados muito cedo — e empregados rudes —, questiona o pouco movimento nas artérias da cidade a partir de uma certa hora e aborda o mau comportamento de certos condutores ao volante, em desrespeito dos peões. Tudo coisas do passado, portanto (mas há coisas que nunca mudam). Depois confessa que conseguiu alugar um Volkswagen Golf vermelho, o que me parece estratégia para aceder a tecnologia fiável — típico comportamento alemão.
Conta também a história de ter assistido, num restaurante local, filhos de emigrantes regressados da América a colocar ketchup num cozido das Furnas. Já tive a minha dose dessa americanização, ao ver espalhar uma cama do famoso molho Heinz encarnado sobre um bife de lombo à regional. Sim, num bife à regional. Para nós, um crime hediondo; para eles, a nova Azorean Cuisine. Mas não pense o Thomas Fischer que se safa deste crime sem nenhuma culpa: acontece que Henry John Heinz, que em 1869 inventou o famoso molho ketchup, em Pittsburgh, nos Estados Unidos, tinha ascendência alemã.
Fischer também faz uso do realismo mágico, por exemplo, sobre a ilha de São Jorge: considera-a a espinha dorsal de um dragão, com precisamente o nome do santo, São Jorge, que terá matado o dragão, primo do monstro de Loch Ness.
Sabe o nome do Sr. Décio, o taxista terceirense, e até o tempo e o lugar onde os pais dele o conceberam (terão de ler o livro para perceber a história). Aborda os bairrismos, a emigração e a transição da baleação para o whale watching. Fala do passado com os pés assentes no presente, mas com uma visão de futuro. Fala da insularidade, dos custos desse fenómeno imutável, da desvantagem de não termos acesso aos mesmos bens, a certos cuidados de saúde, a todos os jornais, e de existirem três capitais dos Açores, não somente uma.
Mas elogia a RIAC e a forma como se resolvem assuntos burocráticos mais depressa do que pela rede nacional da Loja do Cidadão — eu fui testemunha disso quando vivi em Coimbra e em Braga. O autor elogia a Autonomia, a forma de não desperdício dos votos no sistema eleitoral, a Universidade dos Açores, a vasta produção cultural e o acesso facilitado aos museus, à saúde, mas também personalidades que se evidenciaram dentro e fora do arquipélago, quer no desporto, quer na música — enaltecendo, por exemplo, a antiguidade do festival Maré de Agosto, até por nós esquecida de vez em quando.
E questiona-se porque haverá tantas festas na ilha Terceira, se será pelo sangue espanhol resultante dos casamentos de raparigas terceirenses com soldados espanhóis entre 1581 e 1642. Eu diria que a Terceira se tornou mais festiva do que as restantes ilhas num processo que se arrastou ao longo de séculos, mas foi sobretudo entre o final do século XIX e o século XX que a combinação de tradições religiosas, como o Espírito Santo, o Carnaval e os seus bailinhos, as touradas à corda, as filarmónicas e a forte vida comunitária consolidaram a sua reputação de “ilha da festa”. E assenta-lhe bem!
A dado momento, Thomas refere o Sr. António Ramos, operador da grua da Vila das Lajes das Flores, mas enfatiza que era mais conhecido como “dono do táxi branco Mercedes”. Ora, na indústria audiovisual, a colocação de adereços de certas marcas em locais estratégicos das cenas filmadas é uma técnica chamado de “placement”. Em alemão isso diz-se “Produktplatzierung”. Curiosamente, na literatura, diz-se “Literarische Produktplatzierung”. A partir deste ponto, continuei a minha leitura em busca de outras marcas alemãs.
O autor aborda igualmente os nossos sotaques, a nossa relação com o mar e os oceanos, com os terramotos e os vulcões, como as romarias e a fé nelas depositada. Relata a aceitação da comunidade LGBT. A evolução do papel da mulher na sociedade local, desde que foram escravas açorianas. Os touros da Terceira e os burros da Graciosa. A evolução (ou será a revolução) do turismo e os seus impactos — positivos e negativos, a começar pelo desaparecimento do silêncio contemplativo e da distribuição desequilibrada da riqueza gerada. Critica a dificuldade de transporte de matéria-prima entre ilhas e do que daí resulta: a iniquidade. Acrescento que os Açores se têm tornado numa balança desequilibrada, cada vez mais puxada para cada ilha.
Mas aprendi muito com este livro. Uma viagem no tempo, na geografia e no clima açorianos que muitos de nós gostaríamos de ter realizado, ou de um dia concretizar. Ao telefone, enquanto preparava esta apresentação, confessei ao Thomas que mais vezes um micaelense vai a Lisboa do que às restantes ilhas; e nisso ele ultrapassa a média, largamente. Eu, pecador, me confesso: mais vezes fui a Lisboa do que ao Faial ou à Graciosa. Somos aquela família alargada que está sempre a adiar aquele jantar, aquele convívio. Até quando? Quero passar uma semana nas Flores, um mês em Santa Maria e uma temporada no Pico até que me apeteça. Marcar só idas e esperar que o regresso me chame. Quero ser como o Thomas Fischer. Mas também gostava de ter resposta à pergunta por ele lançada: “E agora?”
Este é um livro que pode ser visto como uma peça jornalística, como um guia turístico, ao mesmo tempo um estudo sociológico, mas no final levo a sensação de que é uma carta de amor às minhas — às nossas — ilhas. E não sou apenas eu que o digo: a Professora Rosa Neves Simas, num artigo de opinião sobre este trabalho, recentemente publicado no Açoriano Oriental, escreveu: “no fim de contas, diria que a entrega e o empenho do autor fazem do texto uma carta de amor aos Açores”.
Com mais uma belíssima capa da autoria de Jaime Serra, que une o mar, a terra e o céu, a encosta à montanha do ponto mais alto de Portugal e os hélices de uma aeronave que nos liga pelos ares enevoados — fotografia do próprio autor, pelo que percebi. Os Açores: Mistérios e Mudança são 229 páginas em 15 capítulos recheados de paixão, amor e humor. “Os” hélices, no masculino quando falamos de aviação, tal como aprendi com o General Ferreira Almeida, amigo que mantenho em comum com Thomas Fischer, sobretudo destas andanças da literatura.
E o humor alemão é mais seco e direto. Um alemão diria: “o manual de instruções era tão claro que ninguém o leu”, enquanto o português diria “eu li metade do manual, mas agora sobra-me uma peça”. O autor termina com um “muito obrigado” que deveria ser nosso, para ele, em consideração ao trabalho que fez e continua a fazer pelo mundo açórico. Por isso termino dedicando-lhe o nosso muito obrigado, Thomas. Dankechung.
Ponta Delgada, 7 de junho de 2026
Fotos da Letras Lavadas






