
Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus, Poemas do Extremo Oriente, Maria Anna Acciaioli, Tamagnini, Nona Poesia, 2026
Comecemos pela beleza do livro, como são todos os da Nona Poesia: capa dura, mas com a macieza e leveza que sabem bem ao tato. É das mãos do Editor Henrique Levy, escritor e poeta, todo o design gráfico, que já distingue a coleção. Neste Flor de Lótus esta beleza continua por todos os poemas. A aguarela da capa é da poetisa.
Em nota do Editor: “Maria Anna Acciaioli Tamagnini é reconhecida como a primeira autora portuguesa a cultivar uma poesia de
de temática oriental, distinguindo-se por assentar na experiência direta de um espaço asiático, concretamente Macau, cuja vivência marcou profundamente o imaginário e a atmosfera cultural que atravessam Lin-Tchi-Fá / Flor de Lótus, única obra que publicou, em 1925.”
A poetisa, mulher do Governador Arthur Tamagnini, viveu em Macau sete anos “neste período, dedicou-se ao estudo da língua e da cultura chinesas, o que lhe permitiu estabelecer contacto e diálogo com membros da comunidade local, sobretudo com aqueles que frequentavam o Palácio do Governador” (nota do Editor).
Poemas que me (en)levaram ao Oriente extremo da sensibildade e da ambiência daquele Oriente com que sonhei e que o sonho me levou até lá. Há nas flores de lótus, nas vestes de sedas coloridas, nos “cabelos pretos azulados”, nas mãos brancas e longas, quase de seda, das mulheres, nas conversas dos velhos em amenos convívios, captados pela poetisa portuguesa, um penetrar profundo nas suas almas, nos sentires mais fundos. Também na ambiência da época, nas formas peculiares da poesia oriental, quer no conteúdo e na forma. Não esquecendo uma intervenção social que, numa voz feminina, não era comum.
O domínio da língua chinesa pela poetisa, a sua grande cultura e toda a sua participação ativa na sociedade local, a tudo isto a levou.
Há muitos poemas longos, mas aqui deixo dois pequenos, desta poesia que não poderá cair no esquecimento. Poemas que deveremos ler. Uma poetisa potuguesa que nos apresenta um verdadeiro, intenso e puro olhar orientalista.
Maria Anna Acciaioli Tamagnini morreu aos 36 anos, por via de um parto.
Natividade Ribeiro, escritora
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No pavilhão da poesia
Amanhecera.
A briza da primavera
Passou ligeira…
Na página, onde eu escrevia
Uma poesia,
Cahiram as flôr’s rosadas,
Delicadas,
De um tronco de cerejeira.
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No pavilhão do chá
Num vaso, preciôso, uma peónia.
Em trajes de cer’monia
Alguns velhos, letrados, reunidos,
Conversando entretidos.
A perfumar o ambiente,
Sobre pequenas mezas de charão,
Em taças, de Cantão,
Folhas de chá abrindo lentamente…


