
É sempre mais urgente o amor
Nós não precisamos de drama, o que precisamos urgentemente é de fazer amor na nossa cama e depois repousar longamente no corpo um do outro na paz de quem se ama. O drama é inerente à vida mas é o alimento da cobardia e o verdadeiro amor não é do campo do sonho mas da realidade: sólida, diária, palpável – Nunca desejo “Bons sonhos” mas sim “Bom sono, e melhor realidade.” – E então encontrei-te a ti, nesta idade, quando já não esperava nada, porém a idade e a maturidade certa onde só o que é verdadeiro, bonito e saudável interessa, porque o amor não é somente coração mas também cérebro. E como desde o início foi tudo tão bonito em nós, tão cheio de tesão e desejo misturado com o sentimento de segurança só disponível a quem o verdadeiro amor alcança. Tudo em nós é linguagem nova parida nos olhares, beijos e troca e decidimos que não são apenas as flores que se convertem em palavras mas também as palavras se podem converter em flores e quão bom seria fazer da nossa vida um jardim, e nós assim, abelhas, iríamos nos polonizar um ao outro, de manhã de tarde de noite, no corpo exposto e nas almas nuas passeando de mão dada pela escala que é o tempo do Passado ao Presente foragidos que somos dos traumas da guerra do amor e da solidão e reconstruindo-nos no agora num amor à primeira vista coisa já pouco vista neste tempos de egolatria e sociopatia. E no nosso primeiro jantar num restaurante em Alfama ouvimos na rádio Édith Piaf – disseste que parecia que estávamos num filme antigo – e da outra vez que bebemos vinho e comemos pizza num piquenique improvisado num mirante da Graça, e agora quem por nós passa ouve os batimentos dos cardionamorados a bater TUM TUM TUM TUM a bombar, a fluir, a energia do existir, porque o que flui, existe, o que não flui, não existe, não se insiste, e no teatro gostei de pousar a minha mão na tua perna, e gostei da tua mão na minha mão, gostei também de quando nos beijámos na cozinha ter tido uma erecção, enquanto no forno cozia o salmão. Sim, amigos, e o seu superlativo: apaixonados; amantes e amados; namorados – cúmplices do acto maior: porque é sempre mais urgente, o amor.
Leonel Ventorim, Junho de 2026Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio, de jornalismo a boletim meteorológico. Gosta de espécies literárias em perigo de extinção tal como a crítica de teatro, a qual practica actualmente. Tem cerca de duzentas gravatas, dois gatos, gosta de gelado de chocolate e pistáchio, e é torcedor do Botafogo
