O gajo sou eu por José do Carmo Francisco

Em resumo 29

Há um maluco que nada diz mas pensa: «Está um gajo à porta da Escola a querer oferecer cinquenta livros à biblioteca. O caramelo pede para ser recebido por alguém do Conselho Directivo mas não está ninguém para o receber. Ainda se fosse para vender ouro a prestações mas agora isto de oferecer livros não lembra ao Diabo. Muitas professoras começam a fazer o enxoval das filhas quando elas chegam aos doze anos, há quem compre pano de lençol e uma arca para juntar as peças compradas nas feiras. Com a sala dos professores cheia, esse ouro a prestações tanto pode ser para as mães como para as filhas. Eu não gosto de ler; nem livros nem revistas nem jornais. A televisão basta-me para saber o que se passa pelo Mundo. Ler faz-me sono. Aos domingos de manhã passo o tempo a lavar o automóvel, a podar as roseiras do jardim e a brincar com o cão. Ainda agora gastei quatrocentos contos no Veterinário com a operação do animal. A terra onde vivo já tem dois supermercados e um deles vende gasolina mais barata. Vem gente de longe para abastecer. Chegam a sair da auto-estrada para vir a esta bomba por causa de uns escudos a menos. Também gosto de poupar nas compras e o carrinho cheio lembra-me sempre o valor da poupança. Tenho um aquário à entrada da casa e quando recebo visitas há logo tema para conversa. Começa tudo pela cor dos peixinhos.» Esta crónica é escrita em 2026. Estamos de facto em 1999 e ninguém sabe o dia de amanhã; o futuro é uma carta fechada. Comecemos pelo princípio. Está um gajo à porta da Escola. Em resumo: o gajo sou eu.

José do Carmo Francisco, escritor

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