Cartografias da Palavra

Prefácio ao livro de Floriano Martins pelo Professor Dr. Luís Miguel Barreiros

Há livros que não se deixam ler; antes, insinuam-se como uma respiração estranha, uma vibração subterrânea que antecede a linguagem. O texto de Floriano Martins pertence a esta linhagem rara, onde a palavra não descreve o mundo, mas parece nascer da sua própria combustão. Aqui, a prosa e a poesia não se distinguem; antes contaminam-se, como se cada verso fosse o vestígio de uma experiência que não encontrou forma estável fragmentando-se, por isso, em imagens, em cortes, em relâmpagos de sentido.

Há, desde o início, uma fenomenologia da linguagem que se aproxima do corpo, mas de um corpo já descentrado, atravessado por forças que o excedem. O sujeito que fala não é uno; vacila, multiplica-se, hesita entre posições, como se dissesse, com uma clareza quase dolorosa, “não sei quantos sou”. Esta oscilação não é meramente estilística, traduz uma condição existencial em que o eu se revela como superfície de inscrição de intensidades, de perdas, de desejos que não se deixam simbolizar plenamente. O mundo surge, assim, não como cenário, mas como prolongamento desta instabilidade: mares doentes, céus crucificados, cidades atormentadas. A paisagem é psíquica, mas não apenas; é também ontológica, como se o próprio real estivesse contaminado por uma falha de origem.

Nesta escrita, o amor não redime, dilacera. O erotismo, longe de uma fusão harmoniosa, aproxima-se de uma lógica de perda e de excesso, em que cada encontro já contém a marca da morte. A insistência de imagens como cadáveres beijados, corpos inadequados, orgasmos atravessados pela noite, sugere uma economia pulsional onde Eros e Thanatos não se opõem, mas se entrelaçam num movimento indistinguível. Poder-se-ia ler aqui, com prudência, uma tonalidade psicanalítica, não no sentido de uma interpretação sistemática, mas como ressonância: a dificuldade de simbolizar a perda, a repetição de cenas de abandono, a tentativa, sempre falhada, de reinscrever o objeto no campo da linguagem.

E, no entanto, há algo que resiste a qualquer redução teórica. Talvez aquilo a que chamaríamos, em termos fenomenológicos, a experiência do abismo, não como metáfora, mas como modo de estar. O sujeito parece habitar um limiar constante entre dentro e fora, entre presença e dissolução, onde a identidade se torna provisória e o tempo, poroso. “Nada antes do tempo”, escreve-se, como se o passado e o futuro fossem apenas variações de um mesmo vazio insistente.

O livro, neste sentido, não oferece respostas, intensifica a pergunta. Que forma pode tomar a vida quando já não se acredita na sua unidade? Que linguagem resta quando as palavras parecem ter perdido a sua capacidade de fixar o real? Floriano Martins responde, com uma escrita que assume a sua própria precariedade, fazendo dela não um limite, mas uma potência.

Referências Bibliográficas:
(Bachelard, 1961; Freud, 1920/1981; Lacan, 1966; Merleau-Ponty, 1945/1999)

Bachelard, G. (1961). Poésie de l’Éspace (3 ed.). Gallimard.

Freud, S. (1920/1981). Beyond the Pleasure Principle (1920) (J. Strachey, A. Freud, A. Strachey, & A. Tyson, Trans.). In S. Freud (Ed.), Beyond the Pleasure Principle, Group Psychology and Other Works (1925-1926) (Vol. S. E., 18, pp. 1-64). The Hogarth Press / Institute of Psychoanalysis. ((Orig.: 1920))

Lacan, J. (1966). Au-delà du «Principe de réalité». In J. Lacan (Ed.), Écrits (pp. 73-92). Éditions do Seuil.

Merleau-Ponty, M. (1945/1999). Fenomenologia da Percepção (C. A. R. d. Moura, Trans.; 2ª ed.). Livraria Martins Fontes Editora. ((Orig: Phénoménologie de la Perception, Éditions Gallimard, 1945))

Luís Miguel Barreiro

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