
A Poesia Sem Princípio Nem Fim

enlacemos a ternura cansada de ser pó/com horizontes dilatados nas memórias/cultivadas pela inesperada penumbra da morte…
Henrique Levy, Poemas Do Próximo Livro
Comecemos pelo que já é conhecido de muitos leitores de Henrique Levy. Ele optou aqui há alguns anos por lançar as suas âncoras na ruralidade dos Açores, onde passa acompanhado pelos dias e as noites contemplando o mar e os campos que lhe dão vida, sossego e felicidade. O mito de muitos poetas a viver quotidianamente irrequietos transmitindo depois a suas dores existenciais caem por terra ou ficam no ar sem nunca se ver os seus versos no papel ou no ecrã. Tenho aqui a meu lado a mais recente obra – obra é a única palavra justa neste caso – do autor, Poemas Do Próximo Livro. Antes de mais, devo lembrar que Henrique Levy nasceu e formou-se academicamente em Lisboa, mas viveria a sua infância em África, em São Tomé e Príncipe e Moçambique. Falo e convivo com ele frequentemente, mas raramente sobre estas e outras extensas andanças suas, apenas recito neste momento essa informação do longo e genial prefácio de Frederico Custódio a este livro: “… é o desnudar da dependência ontológica, entre a criatura e o seu criador, como a libertadora e plural possibilidade de ser”. Depois da análise de Frederico Custódio que abre o livro, apropriadamente intitulada “o condutor de deuses”, e ainda a suprema importância naturalmente vital da posterior “mensagem” do próprio poeta ao leitor, resta-me muito pouco a adicionar nestas linhas. No entanto, a poesia quer-se partilhada com quem tem a sensibilidade das palavras tanto na forma rítmica de música como nos pensamentos que encerram ou despertam em cada um ou uma, torna-se inevitável proceder às mais diversas interpretações. Só mais uma constatação essencial. Henrique Levy trouxe consigo para os Açores, literalmente, boa parte do mundo por onde andou em contacto directo com culturas e línguas que ele foi descobrindo por si e só. Integrou-se entre nós com a maior naturalidade, com os seus olhos brilhantes e a absoluta calma da sua alma, o bem-viver ante tudo o resto outro sinal maravilhoso do seu inesgotável talento literário na poesia e na ficção. Estes anos mais recentes da sua amena presença entre nós têm sido também dos mais consequentes como investigador e divulgador de obras que nos pareciam escondidas ou ignoradas, organizador exímio de colectâneas de prosa criativa contemporânea e redescobridor de poetas açorianos de outros séculos. Permanece, entretanto, num silêncio pouco habitual, e ainda mais na recusa de atirar foguetes em nome próprio, resguardando-se, do mesmo modo, para dar a mão nos bastidores a quem tem de comunicar com um público possível em pequenas ilhas como as nossas. O resto, deixará, pelos vistos, que o futuro responda com alguma apreciação da literatura diversificada e consequente saída da nossa suposta pequenez em busca, passiva a maior das vezes, de outros leitores noutras geografias.
Poemas do Próximo Livro é de facto uma obra excepcional entre nós, e este “nós” não se limita aos Açores. Dividido em livros I, II e III (esta última parte chamada “rumo ao instante claro”), alguns dos poemas das duas primeiras secções estão traduzidos ao cabo-verdiano por Ana Margarida Aguiar Pina, e em castelhano por Coloma Canals. Pretende homenagear as línguas e as culturas dos territórios insulares da Macaronésia, Açores, Cabo Verde, Canárias e Madeira, com a terceira parte do livro, num acto memorialista de outras geografias e relacionamentos íntimos e diversos com povos que parecem distantes, mas ficam nesta poesia muito perto e connosco irmanados. Aliás, cada poema mantém o mais vivo sentir do poeta, cada momento um mergulho dentro de si próprio na tentativa de um possível auto-entendimento sem nunca esquecer as múltiplas geografias em redor ou na memória clara de outros dias, de outras vivências. De resto, este impulso poético, este olhar a um tempo para dentro e para fora percorre toda a obra, chamando a si, através das linguagens menos ou mais metafóricas a participação do eventual leitor nos múltiplos significados de cada verso, sempre na ausência de qualquer ofuscação dos seus significados e significantes, com referências que vão desde o Cântico dos Cânticos aos mais recentes nomes modernistas. Não só revemos os estado de alma do poeta em cada momento, como revemos com a mesma força poética a história, contada ou reinventada de cada paragem sua no mundo, desde as origens do poeta até à distante China e países vizinhos, tendo ele passado e/ou vivido também noutras partes da Europa, Ásia, África e América. Serenidade e espanto, no seu melhor, perante a descoberta pessoal sempre que encontra um Outro, que depressa deixa de o ser, Ainda, interiorismo, vastidão de espaços, e por vezes o mais puro ou natural erotismo, como aponta Frederico Custódio – tudo numa outra homenagem à humanidade em sua frente. Eis a última estrofe do longo poema “amor oriental”, que encerra este magnífico livro: por entre negros cabelos corredios/a pele suave de aroma delicado/poisa nas pernas enlaçadas arrepios/a desprender suspiros de pecado/no esbelto ramo de cerejeira elevado.
A poesia de Henrique Levy, a grandeza da sua imagística em geral permanece numa já conhecida perfeição, um acto intensamente pessoal, e logo depois abrangente entre o que o leitor sabe, sente e absorve na perturbação positiva do seu alargado entendimento e aconchego de outros lugares e gente. A troca entre o poeta e nós todos também está alicerçada nas várias epígrafes, ora de outros poetas por aqui bem conhecidos, ora pelas palavras citadas de outros nomes que hoje são parte dos chamados cânones nacionais e mundiais – nos gestos contínuos de afinidades eletivas, na arte e no sentir do autor. Muitos escritores esquecem, ou fazem por esquecer, que para além de si vieram muitos outros, estão presentes outros tantos, e o futuro a outras gerações pertence. Escrever é e será sempre um exercício solidário mas, por natureza, provisório – a mítica de nomes e obras abraça poucos, e ficam marcados inevitavelmente por todas as incertezas, menos entre os que julgam que tudo sabem, sem nunca interpelarem esses deuses inventados que podem “reinar” durante milénios e manter as academias em atenção, quase sempre perplexa e cheia de meros palpites teóricos. A literatura perdura no tempo enquanto as gerações quiserem, ou a mutação do mundo o permitir, reforçando ou retirando a sua relevância. Citar um nome não será sabedoria, criar um pensamento duradouro enquanto vivemos já será muito. A obra de Henrique Levy, estou em crer, vai permanecer entre nós num alongado espaço de tempo. Do poema “regaço”:
se te ausentas
vigílias ardem na noite
adormecidas na demora
enlaçada na alvura da cambraia
e nos ramos de árvores dobrados
pelo cântico de rutilantes aves
o destino dos dias dispersos
jaz no relógio suspenso
onde o tempo naufraga
ancorado na tua ausência
no linho das toalhas
nos livros abertos
nos espaços vazios
no canto de um galo
a entoar no terraço
súplicas palavras
caídas no regaço
de uma carta
de amor…
Dos “espaços vazios”, das “súplicas das palavras”, até a outra completude da nossa literatura, e falo uma vez mais de toda a literatura da nossa língua, vinda e vincada no mundo lusófono e muito mais além, que é o seu e o nosso. Escrever a partir dos Açores poderá só raramente receber a devida atenção no nosso restante país, mas a ignorância e a pouca vontade de alimentar a imaginação eventualmente paga-se cara, desfaz só nos que são incapazes de olhar além da sua própria imagem reflectida num estreito e enferrujado espelho, do seu provincianismo que parece atávico. Não posso deixar de concluir este texto sem referir que, para além do que já disse sobre a presença de Henrique Levy entre nós, o seu contributo às nossas letras inclui a fundação da N9na Editora (assim escrito) dedicada ao lançamento da melhor poesia de autores açorianos, dentro e fora do arquipélago. A sua ficção, desde que se radicou em São Miguel, tem sido constante na forma de romance,
Vamberto Freitas, crítico literário
Henrique Levy, Poemas Do Próximo Livro, Ponta Delgada, N9na Poesia/Nova Gráfica, 2022. Publicado no “BorderCrossings” do Açoriano Oriental, 15 de julho, 2022
Filamentos (artes e letras na diáspora açoriana) tem enorme prazer em republicar estes textos de Vamberto Freitas, o crítico literário português que tem escrito consistentemente sobre a criatividade nos Açores e na diáspora ao longo dos últimos 40 anos. Vamberto Freitas sempre soube destacar novos autores açorianos, novas vozes, novas línguagens, assim como os da nossa diáspora. Desde sempre, Vamberto Fretias destacou escritores emergentes em ambas as margens do Atlântico. A sua escrita sempre foi, e acreditamos que sempre será, marcada por travesias entre todas as vozes, dos clássicos aos contemporâneos das literaturas açoriana, portuguesa, lusófona, americana e universal.
