Herberto Helder na Pastelaria Mourisca por José do Carmo Francisco

Um dia, lá pelos idos de 1987, estava eu a trabalhar no Departamento Operacional de Estrangeiro do Banco Português do Atlântico na Avenida Fontes Pereira de Melo em Lisboa quando o poeta E.M. Mello e Castro me disse: «Vamos ali à Mourisca que eu quero apresentar-te ao Herberto Helder». Eu era apenas um jovem poeta que alguns anos antes tinha ganho o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escitores ex-aequo com Raul Malaquias Marques; eu com «Iniciais» e ele com «Versões». O júri foi constituído por Pedro Tamen, Armando Silva Carvalho e Fernando J.B. Martinho. Eu escrevia no Diário Popular desde 1978 e no tri-semanário A BOLA desde 1979. Depois dos cumprimentos protocolares e de Herberto Helder (1930-2015) ter ido buscar uma cadeira para mim (só havia duas) acabou por me dizer isto: «Eu sei que você escreve nos jornais. Agradeço que ponha a circular que eu deixei de escrever. Eu deixei-me disso». Fez-me logo lembrar a frase de José Afonso nos anos sessenta quando ao regressar de Moçambique terá dito a Adelino Gomes no cais da Rocha do Conde de Óbidos algo como isto: «Você está aqui à minha espera com um gravador mas eu deixei-me disso. Aquilo que faço não passa de uma série de cantiguetas sem qualquer importância». Falta acrescentar que Herberto Helder estava na Pastelaria Mourisca a rever provas tipográficas do seu livro «As magias» que viria a ser publicado em 1988 na colecção Gato Maltês de Editora Assírio & Alvim. O facto de estar a rever provas de um livro no prelo explica que o pedido seja absurdo para o poeta nascido no Funchal como é absurda a ideia de que as cantiguetas (como ele dizia) serem muito mais importantes do que o cantor natural de Aveiro poderia supor naquele momento em que falou a Adelino Gomes. O criador nunca tem a verdadeira dimensão daquilo que criou. Nem pode ter naquele momento em que faz nascer. Estes dois casos acabam por confirmar esta ideia.

José do Carmo Francisco, escritor

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