
Sobre Sede, de Avelina da Silveira: a coragem de escrever o indizível, a literatura como consciência e a esperança como reconstrução da vida
A água conhece os caminhos mais secretos da terra. Desce pelas fissuras das rochas, atravessa a escuridão, demora-se nas profundezas onde a luz parece nunca chegar e, um dia, regressa à superfície, transformada em nascente. Também a existência humana conhece estas geografias subterrâneas, feitas de silêncios, de feridas invisíveis, de memórias que resistem ao esquecimento e de uma extraordinária vontade de continuar a viver. Algumas dessas travessias permanecem escondidas durante décadas, protegidas pelo pudor, pelo medo ou pela incompreensão dos outros. Outras encontram finalmente uma linguagem capaz de lhes devolver sentido. É precisamente dessa passagem entre a obscuridade e a luz, entre o desespero e a esperança, que nos fala Avelina da Silveira em Sede, um livro de rara coragem autobiográfica, de profunda inquietação humana e de uma sensibilidade poética que não procura embelezar a dor, mas encontrar-lhe uma voz.
Estamos perante uma obra que exige mais do que leitura. Exige disponibilidade para compreender, coragem para reconhecer e sensibilidade para aceitar que a fragilidade não diminui a dignidade humana. Avelina não escreve para despertar piedade, nem para transformar o sofrimento numa espécie de heroísmo pessoal. Escreve porque existem histórias que precisam de abandonar o silêncio, sobretudo quando esse silêncio é alimentado pelo preconceito, pela vergonha e pela incapacidade coletiva de reconhecer a complexidade da condição humana. A sociedade açoriana, a sociedade portuguesa e as comunidades de ascendência portuguesa espalhadas pela América do Norte devem-lhe, por isso, um reconhecimento que ultrapassa o domínio literário. A sua coragem consiste não apenas em revelar uma experiência profundamente íntima, mas em oferecer essa experiência como possibilidade de conhecimento, compreensão e solidariedade.
A literatura verdadeiramente importante nunca se limitou a proporcionar conforto. Desde a tragédia grega até ao romance contemporâneo, uma das suas grandes funções tem sido confrontar-nos com aquilo que preferiríamos ignorar. Aristóteles reconheceu na tragédia a capacidade de despertar compaixão e temor, permitindo ao público confrontar-se com as vulnerabilidades da existência. Séculos depois, a literatura autobiográfica aprofundaria essa relação entre experiência individual e consciência coletiva, demonstrando que uma vida singular pode revelar as contradições de uma época, os preconceitos de uma sociedade e os limites da nossa compreensão dos outros. A escrita de testemunho nasce precisamente desse encontro entre a memória pessoal e uma responsabilidade que a ultrapassa.
É neste território que devemos situar Sede. A obra aproxima-se daquilo que a crítica literária contemporânea designa por narrativa autobiográfica de testemunho, mas também da chamada patografia, a escrita que procura compreender a experiência da doença a partir de quem a vive. Estas narrativas não substituem a medicina, nem pretendem oferecer explicações clínicas definitivas. Fazem algo que a linguagem científica, pela sua própria natureza, nem sempre consegue realizar: revelam a experiência interior do sofrimento, a alteração da perceção do tempo, a fragilidade das relações, o peso do estigma e a difícil reconstrução de uma identidade que não pode ficar reduzida a um diagnóstico.
O filósofo Paul Ricoeur, ao refletir sobre a identidade narrativa, mostrou-nos como o ser humano procura compreender a própria existência através das histórias que conta sobre si mesmo. A memória, porém, não é um arquivo imóvel. É uma reconstrução permanente, atravessada pelas interpretações que o presente faz do passado. Em Sede, esta dimensão torna-se particularmente significativa. A Avelina que viveu os acontecimentos não é inteiramente a mesma que, três décadas depois, os revisita através da escrita. Entre ambas existe uma distância feita de amadurecimento, conhecimento, perdas e conquistas. O livro nasce desse diálogo entre a mulher que sofreu e a mulher que aprendeu a compreender melhor o significado do seu sofrimento.
A narrativa desenvolve-se em torno de uma hospitalização psiquiátrica no Canadá, em 1993, entrelaçada com memórias da infância, da adolescência, da vida familiar e conjugal, e com reflexões posteriores. Esta estrutura não linear constitui uma das suas qualidades literárias mais interessantes. O tempo da memória raramente obedece à cronologia dos calendários. Uma palavra pode devolver-nos uma infância inteira; um cheiro pode despertar uma ausência; uma experiência de vulnerabilidade pode fazer regressar acontecimentos que julgávamos esquecidos. Avelina compreende, intuitivamente, essa desordem interior e transforma-a numa arquitetura narrativa onde diferentes momentos da vida se iluminam mutuamente.
A linguagem poética acompanha esta reconstrução. A água, os pássaros, a natureza e as imagens de liberdade atravessam uma obra em que a realidade clínica convive com uma imaginação profundamente sensível. O título, Sede, constitui uma metáfora particularmente fecunda. Existe a sede física, evocada no quotidiano do internamento, mas existe sobretudo a sede de afeto, de liberdade, de reconhecimento, de dignidade e de pertença. É a sede de alguém que procura compreender-se num mundo que nem sempre soube escutá-la. Logo no poema de abertura, a autora escreve: «Tecidas em memórias e fios de esperança / Procuro palavras que façam sentido». A escrita transforma-se, assim, numa procura de significado, numa tentativa de reunir os fragmentos dispersos de uma existência.
Uma das passagens mais perturbadoras surge quando a autora recorda uma tentativa de suicídio na adolescência, praticamente ignorada por aqueles que a rodeavam. A jovem sobrevive, regressa à escola, continua a cumprir as suas obrigações e conclui, numa frase de uma simplicidade devastadora: «E ninguém percebeu a minha quase morte.» Poucas palavras poderiam revelar com tanta intensidade a distância entre a aparência social e a realidade interior. Quantas pessoas atravessam silenciosamente as nossas comunidades sem que alguém perceba a profundidade da sua dor? Quantas continuam a trabalhar, a sorrir, a cuidar dos filhos e a participar nas celebrações coletivas enquanto transportam um sofrimento que ninguém se dispõe verdadeiramente a escutar?
A literatura deste género possui precisamente essa capacidade de contrariar a invisibilidade. O médico e estudioso das narrativas da doença Arthur Frank distinguiu diferentes formas de contar a experiência do sofrimento, incluindo aquelas em que a pessoa procura transformar a desordem da doença numa possibilidade de descoberta e reconstrução. Não se trata de afirmar que o sofrimento é necessário para o crescimento humano, muito menos de romantizar a doença. Trata-se de reconhecer que uma pessoa pode encontrar significado na maneira como responde às experiências que não escolheu viver. Avelina não apresenta a dor como uma bênção. Mostra-nos, antes, que a dor não precisa de possuir a última palavra.
É também importante reconhecer a dimensão feminina desta escrita. Ao revisitar experiências de violência emocional, condicionamento familiar, desigualdade de género e expectativas sociais impostas às mulheres, a autora inscreve a sua história numa reflexão mais ampla sobre poder, autonomia e liberdade. Durante demasiado tempo, muitas sociedades ensinaram às mulheres que resistir significava suportar, que preservar a família exigia silenciar conflitos e que a respeitabilidade dependia da capacidade de esconder a própria infelicidade. Sede questiona essa herança. A escrita torna-se um exercício de autonomia, uma forma de recuperar o direito de interpretar a própria vida sem ficar prisioneira das interpretações alheias.
Nesta perspetiva, a obra dialoga com uma tradição literária internacional de extraordinária importância. Em The Bell Jar, Sylvia Plath explorou a experiência da depressão e o sufocamento das expectativas sociais impostas às mulheres. Em An Unquiet Mind, Kay Redfield Jamison conjugou a experiência pessoal da perturbação bipolar com uma reflexão sobre a doença, a criatividade e a identidade. Na literatura canadiana, Sarah Polley, em Run Towards the Danger, interrogou as relações entre trauma, memória e reconstrução pessoal. São obras muito diferentes na forma e no contexto, mas partilham uma convicção essencial: a experiência íntima, quando transformada em literatura, pode revelar verdades que ultrapassam largamente a biografia de quem escreve.
Avelina acrescenta a esta tradição uma dimensão particularmente açoriana e atlântica. A sua vida desenvolve-se entre São Miguel e o Canadá, entre línguas, culturas e diferentes formas de compreender a identidade. A frase «Estou presa entre duas línguas, dois modos de pensar» adquire, neste contexto, um significado que ultrapassa a experiência individual. Muitos emigrantes e descendentes de emigrantes conhecem essa condição de pertença múltipla, essa sensação de viver entre mundos que se completam, mas nem sempre se compreendem. A distância geográfica pode ampliar a liberdade, mas também intensificar a solidão. A memória das ilhas acompanha-nos, mesmo quando procuramos construir uma existência noutras margens.
É por isso que este livro deveria merecer uma atenção particular das nossas comunidades. Durante gerações, aprendemos a celebrar a resistência, o trabalho, o sacrifício e a capacidade de vencer dificuldades. Mas nem sempre aprendemos a reconhecer a vulnerabilidade. Nas nossas associações, famílias e instituições, continua a existir uma tendência para valorizar aquilo que se apresenta publicamente como sucesso e esconder aquilo que poderia ser interpretado como fragilidade. Organizamos celebrações da identidade, mas raramente interrogamos os silêncios que essa mesma identidade transporta. Preservamos tradições com entusiasmo, mas nem sempre demonstramos igual dedicação à compreensão das vidas concretas que lhes dão continuidade.
Uma comunidade culturalmente madura não pode medir-se apenas pelas festas que organiza, pelas homenagens que promove ou pelos símbolos que preserva. Deve medir-se também pela maneira como acolhe aqueles que sofrem, pela capacidade de reconhecer diferenças e pela disponibilidade para transformar conhecimento em solidariedade. Avelina obriga-nos a fazer essa reflexão. E talvez uma das maiores contribuições de Sede seja precisamente mostrar-nos que a cultura não é apenas aquilo que celebramos coletivamente, mas também aquilo que temos coragem de compreender quando a realidade se torna incómoda.
Há, neste sentido, uma dimensão profundamente prática na leitura da obra. O sofrimento psicológico nem sempre se manifesta de forma evidente. Uma pessoa pode continuar a desempenhar as suas responsabilidades e, simultaneamente, enfrentar uma crise interior profunda. Precisamos de aprender a escutar sem julgar, a levar a sério expressões de desespero, a perguntar com serenidade quando receamos que alguém possa estar a pensar em suicídio e a facilitar o acesso a profissionais de saúde mental. Precisamos igualmente de compreender que a amizade, embora indispensável, não substitui o tratamento clínico, e que frases como «tens de ser forte» ou «isso passa» podem agravar o isolamento de quem necessita de apoio verdadeiro.
A leitura de Sede pode ainda ajudar-nos a reconhecer situações de violência psicológica, relações marcadas pelo controlo e formas subtis de humilhação que frequentemente permanecem escondidas no quotidiano familiar. A literatura não oferece receitas universais, mas pode ensinar-nos a formular perguntas melhores. Pode ajudar pais a escutar os filhos, professores a reconhecer sinais de sofrimento, amigos a compreender mudanças de comportamento e instituições comunitárias a criar espaços de diálogo menos condicionados pelo preconceito. Este livro merece, por isso, circular nas escolas, nas universidades, nas bibliotecas e nas organizações da diáspora, não como um manual terapêutico, mas como um instrumento de educação da sensibilidade.
Do ponto de vista estritamente literário, Sede possui também as tensões próprias de uma obra que procura conciliar testemunho, memória, reflexão e intervenção social. Em determinados momentos, a explicação aproxima-se do ensaio e interrompe a intensidade narrativa. Contudo, essa alternância entre a evocação poética e a necessidade de esclarecer revela uma intenção fundamental da autora: não basta contar o que aconteceu; importa compreender as circunstâncias que tornaram possível o sofrimento e contribuir para que outros não permaneçam prisioneiros de experiências semelhantes. A força da obra reside precisamente nessa recusa de separar a literatura da responsabilidade humana.
Mas seria injusto reduzir Sede a uma narrativa sobre a doença mental. O livro é, acima de tudo, uma reflexão sobre a vida. Avelina escreve sobre a criatividade, a amizade, a natureza, os afetos e a aprendizagem de uma liberdade interior conquistada ao longo de décadas. Nas páginas finais, afirma: «Não sou definida pela minha condição de saúde mental, mas sim pelas minhas ações». Esta declaração contém uma das mais importantes lições da obra. Nenhuma pessoa se resume ao seu diagnóstico, às suas feridas, aos seus fracassos ou aos momentos mais difíceis da sua existência. A identidade humana é sempre mais vasta do que aquilo que nos aconteceu.
A esperança que encontramos no desfecho não é ingénua nem triunfalista. É uma esperança amadurecida pela experiência, consciente de que a recuperação pode ser irregular e de que algumas vulnerabilidades exigem cuidados ao longo da vida. Quando Avelina escreve que uma existência criativa se encontra «nos pormenores, nas intenções, na gentileza e na atenção que damos aos outros», oferece-nos uma definição de felicidade distante das grandiosas promessas contemporâneas. A vida reconstrói-se, muitas vezes, nos gestos pequenos, nas relações verdadeiras, na capacidade de reconhecer beleza onde antes apenas encontrávamos desolação.
A literatura não tem a obrigação de nos tranquilizar. Tem, isso sim, a responsabilidade de nos tornar mais conscientes, mais inquietos e, desejavelmente, mais capazes de compreender os outros. Avelina da Silveira cumpre essa responsabilidade com uma coragem que merece reconhecimento literário e gratidão humana. Ao transformar uma experiência profundamente dolorosa numa obra de memória e reflexão, oferece-nos não apenas a história da sua sobrevivência, mas a possibilidade de compreender melhor tantas outras vidas que permanecem escondidas atrás das portas fechadas das nossas casas.
Porque existem livros que terminam na última página e outros que continuam dentro de nós, modificando silenciosamente a maneira como olhamos para o mundo. Sede pertence a estes últimos. Depois de o lermos, talvez escutemos com maior atenção uma voz hesitante, reconheçamos a tristeza por detrás de um sorriso ou compreendamos que, por vezes, a maior manifestação de coragem consiste simplesmente em pedir ajuda.
Avelina desceu às profundezas da sua própria memória e regressou com palavras onde antes existiam feridas. Não apagou a escuridão, mas encontrou nela a possibilidade de uma nascente. E deixou-nos uma verdade que merece permanecer muito para além deste livro: nenhuma existência humana se resume aos seus momentos de desespero, nenhuma fragilidade anula a dignidade de uma vida e nenhuma sociedade deveria permitir que alguém sofresse em silêncio por medo de ser incompreendido.
No fim, somos todos viajantes entre a sede e a água, entre aquilo que perdemos e aquilo que ainda podemos encontrar. Talvez a literatura exista também para isso: para nos lembrar que, mesmo nas terras mais áridas da alma, pode continuar a nascer uma flor, a correr uma água escondida, a anunciar-se uma manhã. Porque a esperança, como a água, encontra por vezes o seu caminho precisamente através das pedras que pareciam impedir-lhe a passagem. E nenhum ser humano deveria atravessar sozinho o deserto da sua própria sede.
Diniz Borges
O Livro vai ser apresentado na cidade de Ponta Delagada no dia 24 de novembro pelas 18h00 na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada.
Podem encomendar o livro em vários formatos através da Amazom:
