
Jules Auguste de Minvelle Morot nasceu em 1973 em Alc-le-Courtnay.
Poemas dispersos em jornais e revistas, nomeadamente interactivas, depois agrupados e dados a lume sob o título “Le mardi-gras” (alguns dos quais saídos em Portugal na DiVersos – revista de poesia e tradução, direcção de José Carlos Marques, na página interactiva paulista Cronópios/Musa Rara, de Edson Cruz e no TriploV , dirigido por Maria Estela Guedes).
Em prosa deu a lume “La chambre engloutie”, relatos e reflexões novelizadas de que extractos sairam na revista cearense de Fortaleza “AGULHA”, pela mão de Floriano Martins.
Licenciado em biologia marinha, exerceu o professorado. Depois da morte de seu pai tomou conta do ramo (criação de vinhos) em que sua família fez tradição.
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MOZART
Lêem-se os gregos
suecos, alemães
ou a doce língua
de não sei quantos
de não sei que imóvel pedaço de página
claves de sol
talvez o latim o alano o islandês
e é sempre a mesma música
sempre como um veio numa flor grossa obscena
Diz um um alfinete diz outro
um parafuso
pois sim
uma fina difusa coisinha semimorta
semi-deitada
semi-cerrada
uma inteligente coisa muda
maior que um tiro na orelha
pois não
uma espécie de porta
de dor discreta.
Meu bom senhor
olhai
nos prados nas tabernas
nos ermitérios
nos armários
um rasto de cão
Nos óculos do primeiro violino
tudo desaparece.
Tendes vós sono, desejo
de novas estações? Tendes florins?
Tendes, acaso, em dias
já passados
mãos musicais, sinais
de outras mortes?
O BESOURO
Soa lá fora
espalha-se pela casa
no calor das árvores que aguardam
o mais curto caminho
humano na direcção do ribeiro
o besouro o seu som de campainha
de sineta
astucioso repicar e logo
lembranças vagas na tarde
pequeno fio de memória nos nossos ouvidos
e é exacto um esvoaçante ser que em rodopios
perpassa
por sobre os roseirais
a sombra hirta dos sentidos.
Um harpejo
de violinos no nosso olhar reflectido
nos vidros
de hoje e amanhã
Agora um gesto um balbuceio
um simples animal de metal furando a tarde
seguro bem seguro
do seu talento da sua carne temporária
lembrança de céus distantes
de anos repassados de poeira
de roteiros felizes.
COMOÇÃO DE NATAL
Eu sou um espião mais que perfeito
os olhos as mãos a silhueta
tudo o que fui aprendendo tudo o que esqueci
tudo quanto Senhor vi depois da vossa morte
até as colheres de madeira e o prato grosseiro
ao jantar
ao começo da noite
mesmo as peúgas esburacadas do meu primo
mesmo a camisa esfarrapada do meu pai
os alegres e tristes olhos da minha mãe
e quanto compramos sem pagarmos
e sem um deus lhe pague
Tudo isso guardo no meu coração.
Nas noites nos dias da minha adolescência
quando a meditar me sentava
na pedra pintada de branco
no meio da horta da pequena Armandine
que me ofertava castanhas cozidas quando era tempo de Outono
e me limpava o rosto com um lenço de linho
olhando o meu suor de sangue.
Tudo isso é o meu tesouro
caro Senhor para si e para os vossos anjos
para os vossos assistentes na floresta do céu
para os notários de vosso augusto Pai
sem esquecer o garoto que vós fostes
e mesmo o mendigo que vos ajudou
a montar sobre o burrinho
que vos levou até à porta Susa
naquele dia da Páscoa.
Assim, caro Senhor, perdoai-me
as minhas faltas
as minhas repentinas alegrias
os meus silêncios estranhos
e todos os poemas que foram só pensamento.
(Tradução de nicolau saião)
