
“Em nome do Senhor Secretário Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades, Dr. Paulo Estêvão, que tutela também os assuntos da comunicação social no âmbito do Governo dos Açores, saúdo todos os presentes – os de perto e os de longe – que aqui se reúnem na Universidade do Estado da Califórnia em Fresno.
Sejam bem-vindos ao IV Encontro de Diretores de Comunicação Social dos Açores e da América do Norte, que vai desencadear o processo formal de constituição legal da ADMA – Azores Diaspora Media Alliance, sob a forma de associação transnacional.
Esta é uma resposta com futuro para um património com passado.
Por isso, no arranque dos nossos trabalhos, permitam-me uma palavra inicial de enquadramento geral.
Em 2027, vamos comemorar os 600 anos da descoberta e do povoamento do arquipélago dos Açores, com a coordenação governamental da Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades.
Fomos para os Açores há 600 anos, começámos a emigrar há 400 anos e começámos a comunicar há 200 anos.
A distância, a dimensão e a dispersão depressa motivaram o povo açoriano a apostar na comunicação para trazer o mundo e divulgar as ilhas.
Antes da internet, da televisão e da rádio, é com a imprensa que os açorianos se afirmam no mar.
De facto, só durante o século XIX, mais de 500 jornais são publicados em quase todas as ilhas, com exceção do Corvo.
O primeiro é o semanário Chrónica da Terceira, órgão oficial da Regência, fundado a 17 de abril de 1830, na cidade de Angra. Ele é hoje considerado o título pioneiro da imprensa açoriana.
Só dois anos depois se verifica a introdução da imprensa periódica na ilha de São Miguel, a maior do arquipélago, com a fundação, a 4 de maio de 1832, do jornal Chrónica, Semanário dos Açores, em Ponta Delgada.
As cidades de Ponta Delgada e Angra do Heroísmo publicam grande parte dos títulos da imprensa açoriana do século XIX.
Em São Miguel, Ponta Delgada publica 186 jornais de 1832 até 1899.
Na ilha Terceira, Angra do Heroísmo publica 144 jornais nos últimos 70 anos do século XIX.
Mas também a cidade da Horta, na ilha do Faial, publica 90 jornais periódicos, após a fundação, em 10 de janeiro de 1857, do semanário O Incentivo, o primeiro da imprensa faialense.
Progressivamente, a imprensa vai chegando às outras ilhas dos Açores:
O Futuro, em Santa Cruz da Graciosa, a 4 de agosto de 1866;
O Jorgense, nas Velas de São Jorge, a 15 de fevereiro de 1871;
O Picoense, na Madalena do Pico, a 20 de dezembro de 1874;
O Mariense, em Vila do Porto, Santa Maria, a 9 de abril de 1885;
e O Florentino, em Santa Cruz das Flores, a 2 de julho de 1885.
Ainda hoje se mantém o mais antigo periódico português, o Açoriano Oriental, fundado em 1835 na cidade de Ponta Delgada, a par de outros três jornais diários: dois em São Miguel, o Diário dos Açores, que se publica desde 1870, e o Correio dos Açores, desde 1920, e um na Terceira, o Diário Insular, a comemorar 80 anos.
A imprensa diária está aqui representada pelos diretores do Diário dos Açores, Paulo Viveiros, e do Diário Insular, José Lourenço.
Outros jornais não diários são regularmente publicados nas ilhas de São Miguel, Terceira, Pico e Faial, como, por exemplo, o semanário faialense Tribuna das Ilhas, fundado em 2002 e aqui representado pela sua diretora Susana Garcia.
É já no século XX que a rádio chega aos Açores. Depois de alguns postos emissores de iniciativa privada, a 28 de maio de 1941 é inaugurado o Emissor Regional dos Açores da Emissora Nacional, depois Centro Regional dos Açores da Radiodifusão Portuguesa e agora RTP Antena 1 Açores (a minha casa profissional desde há 42 anos).
Outras duas rádios históricas, de iniciativa privada, se seguem à rádio pública, ambas em 1947: o Rádio Clube de Angra, a 3 de abril, e o Clube Asas do Atlântico, a 5 de outubro.
Quatro décadas depois, são atribuídas frequências locais de radiodifusão nos 19 concelhos das 9 ilhas, a começar pela Rádio Atlântida, fundada em Ponta Delgada em 1988, depois de quatro anos como “rádio pirata”.
A rádio açoriana está aqui representada pelo subdiretor da RTP/Açores, Paulo Correia, pelo vice-presidente do Rádio Clube de Angra, Miguel Azevedo, e pelo diretor da Rádio Atlântida, Carlos Pires Antunes.
Paulo Correia representa também a RTP/Açores, que assegura o serviço público de televisão desde 10 de agosto de 1975 e que convive agora com outros operadores privados, como a VITEC Azores TV, sedeada na ilha Terceira e registada em 2009, aqui representada pelo seu diretor Paulo Feliciano.
Resumidamente, é este o percurso histórico e contemporâneo da comunicação social nos Açores, agora cada vez mais dominada pelo recurso à internet, como veremos certamente nas intervenções subsequentes.
Do lado de cá, na diáspora portuguesa da América do Norte, de origem maioritariamente açoriana, remonta também ao século XIX o legado da imprensa luso-americana, com o Jornal de Notícias editado na Pensilvânia em 1877 ou A Voz Portuguesa fundada na Califórnia em 1880.
Nos Estados Unidos, mantêm-se em publicação importantes jornais como o Luso-Americano (1928) em New Jersey e o Portuguese Times (1971) em Massachusetts ou o Tribuna Portuguesa (1979) na Califórnia.
Este último, editado em São José como único jornal impresso de língua portuguesa no Estado da Califórnia, está aqui representado pelo seu diretor Miguel Ávila.
No Canadá, há dois jornais mais antigos no Quebeque – A Voz de Portugal (1961) e o LusoPresse (1996) – e dois jornais mais recentes no Ontário: O Milénio Stadium (2004) e o Correio da Manhã Canadá (2012).
De regresso à Califórnia, foi aqui que se registou a primeira emissão de rádio em língua portuguesa fora de Portugal, há mais de 100 anos, por iniciativa do emigrante terceirense José Vitorino, emitida a partir da cidade de Stockton, a 10 de junho de 1920.
Hoje, temos, por exemplo, a rádio KLBS, fundada em 1961 e a emitir em onda média desde a cidade de Los Banos, ou a rádio KSQQ, que emite em frequência modelada desde 1990 a partir de São José – ambas pertencentes ao grupo do comendador Batista Vieira e aqui representadas pela sua diretora Regina Silveira.
Outro importante grupo que marca presença neste Encontro é o Diáspora Media Group, com o seu diretor João Manuel Dias, aqui representando a Rádio Portugal USA, fundada em 2010, e a Televisão Portuguesa da Califórnia, que opera desde o início da década de 1980.
Os meios audiovisuais das comunidades portuguesas do Estado da Califórnia estão ainda representados aqui pela RTA – Rádio Televisão de Artesia, fundada em 1991, na pessoa do seu Diretor Manuel Aguiar.
Na Califórnia, como nos Açores, a comunicação social foi e é determinante para valorizar e aproximar as nossas comunidades..
Ora, é para articular e potenciar a relação transatlântica dessa comunicação identitária, incluindo imprensa, rádio e televisão, que se encontra em fase de constituição definitiva a ADMA – Azores-Diaspora Media Alliance, impulsionada pelo Governo dos Açores e coordenada pelo Portuguese Beyond Borders Institute da Universidade do Estado da Califórnia.
A constituição da ADMA resulta de quatro encontros de diretores de comunicação social dos Açores e da América do Norte, realizados em quatro anos nos dois lados do Atlântico:
O I Encontro realizou-se em maio de 2022, nas cidades de Angra do Heroísmo (ilha Terceira) e Ponta Delgada (ilha de São Miguel), na Região Autónoma dos Açores;
O II Encontro realizou-se em outubro de 2022, nas cidades de Fall River e New Bedford (Massachusetts), na costa leste dos Estados Unidos;
O III Encontro realizou-se em junho de 2025, nas cidades de Toronto (Ontário) e Montreal (Quebeque), no Canadá;
O IV Encontro realiza-se agora, em setembro de 2026, na Universidade do Estado da Califórnia, em Fresno, na costa oeste dos Estados Unidos.
Completamos assim a geografia da comunicação social dos Açores e da América do Norte, desde o Atlântico até ao Pacífico, e avançamos agora para a fase decisiva do processo de formalização da ADMA, através do protocolo a celebrar , no final deste Encontro, entre a Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades e o Portuguese Beyond Borders Institute da Fresno State University.
Nos termos do documento subscrito em New Boedford, esta nova associação visa sete objetivos fundacionais:
1. Criar espaços que permitam aos membros da ADMA trabalhar em rede e discutir questões profissionais e societais em ambos os lados do Atlântico
2. Promover uma cobertura ampla da diáspora açoriana, em todas as suas multiplicidades, e trazer à Diáspora, particularmente às segundas, terceiras e sucessivas gerações, um melhor conhecimento dos Açores de hoje
3. Facultar contatos e fontes de informação entre jornalistas e órgãos de comunicação social sedeados nos Açores e na Diáspora
4. Incentivar a juventude em ambos os lados do Atlântico a prosseguir carreiras no jornalismo, incluindo a possibilidade de se criarem espaços para estagiários dos Açores nos Estados Unidos e Canadá e vice-versa
5. Defender uma cooperação recíproca que se baseie na experiência e nos pontos comuns que unem os meios de comunicação social nos Açores e na Diáspora
6. Estabelecer contatos entre o mundo académico americano e canadiano e a comunicação social da Diáspora e dos Açores, possibilitando a participação dos profissionais da comunicação social em novos fóruns de debate e formação
7. Gerar, através das várias plataformas de comunicação, novos conteúdos direcionados aos açordescendentes que não comunicam em português
A ADMA nasceu e cresceu por vontade da comunicação social, por impulso do Governo dos Açores e por mérito do seu coordenador, o Professor Diniz Borges, enquanto diretor do Portuguese Beyond Borders Institute.
É a ele que dedico uma última palavra, de sentido e merecido reconhecimento, por toda a inexcedível colaboração prestada à implantação da ADMA e à organização do Encontro, no contexto da deslocação à Califórnia de uma delegação representativa da comunicação social dos Açores.
Uma deslocação organizada pela Direção Regional das Comunidades, com o contributo interno da colega Sofia Silva e com o acompanhamento externo do Conselheiro da Diáspora Açoriana eleito pelo Estado da Califórnia, Zeto Carvalho.
Estamos todos a trabalhar pela nossa Açorianidade sem fronteiras.
Na verdade, os Açores só ficam verdadeiramente completos com a sua “décima ilha”.
Isso justifica todos os esforços que possamos fazer – poderes públicos e entidades privadas – para aproximar os Açores e a América do Norte, cada vez mais, afirmando a identidade açoriana no lado de cá e aproveitando o potencial americano no lado de lá.
Por isso e para isso, é imperativo que se conheça nas ilhas, cada vez mais e melhor, a dimensão e o dinamismo da diáspora açoriana dos Estados Unidos e do Canadá, ao mesmo tempo que importa atualizar e intensificar o conhecimento exterior dos novos Açores.
A comunicação social é fundamental para essa consciência.
E a cooperação mediática é determinante para essa aproximação.
Daremos assim melhor futuro ao nosso passado.
Um bom Encontro para todos!”
José Andrade
Diretor Regional das Comunidades
Fotografia do jornal Tribuna Portuguesa.
