
Francisco Maria Supico (Lousã, 1 de Novembro de 1830 — Rosto de Cão, Ponta Delgada, 20 de Abril de 1911), proprietário, editor e redator, desde a sua fundação até à sua extinção, do jornal de Ponta Delgada A Persuasão (1862-1911), assinava nesse jornal umas interessantíssimas «Escavações» históricas onde foi revelando ao mundo muito da história açoriana. Foi no número 236 dessas «Escavações», publicado n’A Persuasão de 16 de Janeiro de 1901, ano 40, número 4201, páginas 2 a 3, que mencionou o florentino Teófilo Ferreira, ou melhor, Manuel Constantino Theophilo Augusto Ferreira (Flores, 17 de Abril de 1840 — Lisboa, 13 de Dezembro de 1893), ou melhor ainda, Manuel José Salvador. Fê-lo a propósito da sua pertença a um «Grupo de… estudiosos» que incluía o próprio Supico, António Pereira, Baltazar Joaquim da Luz, Teófilo Braga e, claro, Teófilo Ferreira, e que publicaria o quinzenário O Santelmo entre Janeiro de 1859 e Novembro de 1860. Diz Supico:
«Ao grupo veio a pertencer tambem Theophilo Ferreira. Foi quando se assentou de vez em publicar o “Santelmo”, que foi o nosso orgão.
Era Ferreira typographo da imprensa em que o jornal se imprimiria, e as suas aptidões litterarias tambem já se tinham pronunciado. O Braga trabalhava na mesma imprensa como amador, mas não regeitando alguns cobres com que o proprietario da typographia da rua do Provedor, Manoel José de Moraes, lhe grati[fi]cava o serviço.
Eram os dois nossos consocios, nossos typographos.
Nenhum outro jornal portuguez terá gosado, como o nosso «Santelmo» a honra de ser materialmente feito por individualidades que tal distincção attingiram.
Theophilo Braga empunha o sceptro da realeza das letras patrias. Theophilo Ferreira saiu da officina para o professorado primario, foi professor e director da Escola Normal de Lisboa, foi medico e vice-presidente da camara da mesma cidade; e foi deputado da nação proferindo na camara discursos notaveis.
Era natural da ilha das Flores, de onde veiu para S. Miguel em pequeno e em condição humilde. Trazia o nome de Manuel José Salvador, que mudou para Manuel Constantino Theophilo Augusto Ferreira. Formou aqui as azas e voou. Para isto lhe servio muito pertencer ao grupo de estudiosos.»
Durante a sua carreira como deputado pelo Distrito da Horta, Teófilo Ferreira defendeu a sua ilha natal sempre que pôde, e fê-lo em 1892, num momento crucial, quando, depois de décadas de hesitações, enganos, avanços e recuos, e de muita mesquinhez bairrista e abandono do poder central, se firmavam finalmente as bases para o lançamento do cabo que chegaria aos Açores em 1893, mas que só tocaria as Flores, já em fibra óptica, em 2013, mais de um século depois. Teófilo Ferreira conta-se entre os vários florentinos e não florentinos que em vão lutaram para ligar as Flores ao mundo, dando-lhe uma possibilidade de desenvolvimento que merecia, mas que não teve. Pouco depois da chegada do cabo ao Faial, Teófilo Ferreira falece, desconfio que ainda com esperança de que o cabo haveria de chegar em tempo às suas Flores. Coloco no final deste texto, a intervenção de Teófilo Ferreira na Câmara dos Deputados, em 29 e 30 de Março de 1892. Antes, porém, reproduzo o elogio fúnebre que sobre ele escreveu José Lúcio de Mendonça e Figueiredo[1], proprietário e editor d’O Florentino, no seu número 187, ano 4, de 20 de Dezembro de 1893, páginas 1 a 2:
«Dr. Theophilo Ferreira
O telegrapho[2] com o seu laconismo deu-nos a triste noticia da morte do nosso patricio dr. Theophilo Ferreira.
Caio para não mais se levantar este ateleta, que do nada se soube elevar ás posições mais eminentes, vindo a occupar um logar destinto entre os homens notaveis do seu paiz; caio este incansavel trabalhador, para quem não houve o impossiveis [sic], e que tudo o que foi, deveu-o ao seu esforço e à sua força de vontade.
É esta a sua coroa de gloria, o titulo mais valioso á estima e consideração dos seus concidadãos.
Theophilo Ferreira, não foi só um bom e exemplar chefe de familia, foi um cidadão prestante ao seu paiz e a instrucção publica deve-lhe muitos e assignalados serviços.
Filho de paes humildes nasceu Manoel Constantino Theophilo Augusto Ferreira, na ilha das Flores a 17 d’abril de 1840.
Até aos 10 annos empregou-se nos trabalhos do campo e cursou na aula publica as primeiras letras.
N’esta edade passou á ilha de S. Miguel, oude successivamente como caixeiro, typographo, jornalista e professor, ganhou o seu parco sustento.
Commolativamente com estas occupações, conseguio Theophilo Ferreira cursar o lyceu de Ponta-Delgada onde fez os exames de grammatica portugueza e latina, philosophia racional e moral, latinidade, mathemathica elementar e rhetorica durante os annos de 1856 a 1860. N’este ultimo anno fez Theophilo Ferreira exame de professor de instrucção primaria sendo despachado em 12 d’abril do mesmo anno para a Ribeira Grande, logar que exerceu até 1868 em que o nosso biographado concebeu o arrojado projecto de cursar a escola medico-cirurgica de Lisboa.
Em 5 de maio de 1868 obteve licença para frequentar a escola normal de Marvilla, chegando a Lisboa a 30 de julho do mesmo anno. Durante as ferias de 1868 preparou-se para o exame de geographia e historia, que realisou no lyceu de Lisboa em 7 d’outubro do mesmo anno.
No anno lectivo de 1869 fez todo o curso da escola normal, obtendo o diploma de professor. N’este mesmo anno conseguio fazer exame do 1.° anno de dezenho no lyceu de Lisboa e economia politica no Instituto Industrial e Commercial.
Por despacho de 5 de fevereiro de 1870 foi nomeado professor da cadeira de instrucção primaria de Santa Catharina com exercicio na do Soccorro, passando em novembro do mesmo anno para a de Santa Izabel.
No decurso de 1870 a 1871 conseguio concluir o curso do lyceu, matriculando-se n’este anno na escola polytechinica[sic] onde até o anno de 1873 tirou o curso de sciencias naturaes. N’este anno matriculava-se na escola medica, e era nomeado em commissão para o cargo de director e professor da escola normal, cargo que exerceu sem interrupção até à sua morte, sendo no mesmo collocado defenitivamente em 1882.
Em 5 de julho de 1878 concluio o seu curso de medecina e o que a muitos parecia uma utopia, conseguio elle com o seu trabalho perseverante e insano.
N’este mesmo anno foi eleito vereador da camara municipal de Lisboa sendo encarregado do pelouro de illuminação. Reeleito em 1879, foi encarregado do pelouro de hygiene, creado por sua iniciativa, até janeiro de 1882 em que lhe foi destribuido o pelouro d’istrucção[sic]. Foi n’este ramo de serviço que Theophilo Ferreira fez uma revolução completa na organisação das escolas municipaes de Lisboa, creando varias cadeiras e inaugurando a primeira escola infantil pelo systema Froebel[3].
Como jornalista coloborou com o sr. Theophilo Braga no jornal litterario Meteoro, quando ainda estudante no lyceu de Ponta Delgada. Qundo[sic] foi nomeado professor da Ribeira-Grande redigiu a Estrella Oriental a convite do sr. Francisco Maria Supicio actual redactor da Persuazão.
Fundou o Pyrilampo e Forum e redigiu o Campeão Liberal que fez epoca na ilha de S. Miguel, e era o correspondente n’esta ilha do Jornal do Commercio de Lisboa.
Quando vereador da camara de Lisboa, escreveu e deu á estampa os trabalhos seguintes:
Breves considerações acerca do estado da fazenda municipal, apresentado na sessão de 25 d’agosto de 1879.
Os cemiterios em Lisboa—parecer apresentado á camara municipal pela commissão nomeada na sessão de 30 de dezembro de 1878 para indicar o meio pratico de extinguir as vallas.
Relatorio do pelouro da instrucção da camara municipal de Lisboa referente ao anno de 1882.
Em 1890 foi Theophilo Ferreira eleito deputado pelo circulo da Horta, cargo que desempenhou até 1892 com o maximo zelo.
Se não conseguiu melhoramentos importantes para o circulo que representava em cortes, foi devido ao mau estado financeiro do paiz, e á continua mudança de ministerios que n’estes ultimos annos tem regido os destinos de Portugal. A sua boa vontade de bem zelar os interesses do seu circulo e especialmente os da sua terra natal, são bem manifestos nos discursos por elle pernunciados[sic] em diversas sessões da camara dos deputados. Em face dos numerosas exemplos de deputados pelo circulo da Horta, que nada teem feito a favor dos seus eleitores, surprehende- nos até, que Theophile Ferreira tivesse o arrojo de levantar a voz a nosso favor.
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Eis o que foi a traços largos e mal alinhavados, a vida do homem, que tudo o que foi deveu-o ao seu esforço e ao seu trabalho.
Theophilo Ferreira morreu pobre, porque em vida teve sempre por devisa a honradez e a probidade, e apesar de ser um trabalhador incansavel não conseguio deixar a familia ao abrigo da miseria.
Paz á sua alma.
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A redacção do Florentino tem a honra de convidar todos os cavalheiros, amigos e admiradores do nosso patricio dr. Manoel Constantino Theophilo Augusto Ferreira a assistirem a uma missa que se hade[sic] rezar pelo seu eterno descanço, na egreja de S. Francisco[4] no dia 22 do corrente pelas 9 horas da manhã.»
Introduzido, ainda que recorrendo às palavras de outrem, o nosso personagem, vejamos o que Teófilo Ferreira, enquanto deputado, disse na Câmara dos Deputados em 29 e 30 de Março de 1892 sobre o cabo submarino. A sua intervenção surge num artigo de 24 de Abril de 1892 saído n’O Fayalense, ano 35, número 25, página 1:
«CABO SUBMARINO
Na sessão da camara dos srs. deputados de 29 de março ultimo, o digno deputado por este circulo da Horta, sr. dr. Theophilo Ferreira, zelando como sempre os interesses da ilha das Flores, d’onde é natural, propoz para que o cabo submarino que ha de ligar os Açores com o continente, alcançasse desde logo a ilha das Flores, visto que ella não se achava comprehendida no projecto. A este respeito disse o illustre deputado:
“Queria advogar os interesses da sua terra natal, a ilha das Flores, e fazendo-o promovia um melhoramento para aquella ilha, um beneficio para o commercio e para a sciencia, e um acto de patriotismo. Era sua opinião que se praticava grande injustiça não se comprehendendo no projecto esta ilha, tanto mais que a ilha das Flores era ponto forçado onde vae toda a navegação do Atlantico, e afflgurava-se-lhe que, só por uma ignorancia do concessionario é que um tal ponto não fora comprehendido no projecto.
Tinha muita pena que o cabo submarino de Lisboa aos Açores não podesse ser lançado por conta do Estado, por ter a convicção de que o paiz havia de tirar grande resultado d’esta linha, mas as nossas circumstancias financeiras eram taes que não podiamos demorar o lançamento d’essa linha.
Não vinha pedir uma esmola nem um acto de caridade para os povos açorianos, como ouvira dizer hontem ao sr. Aristidis, illustre deputado; o que vinha pedir ao governo era somente o cumprimento d’um dever, da mesma maneira que os povos açorianos sabiam cumprir os seus.
Por esta occasião não podia deixar de fazer referencia aos cavalheiros que mais se tem empenhado na resolução d’esta questão e eram elles o digno par sr. Souza e Silva, que até apresentára um projecto para que certas receitas especiaes cobradas nas ilhas fossem applicadas à illuminação das costas, porque seria inutil o lançamento d’um cabo, se o governo não pensasse ao mesmo tempo na illuminação das costas dos Açores; era o sr. Hintze Ribeiro, que, como ministro das obras publicas, apresentára um projecto e trabalhára muito em defeza d’este melhoramento, e eram os srs. Franco Castello Branco, Arouca, e agora o sr. visconde de Chancelleiros.”
Na sessão de 30 de março, tratando- se na camara do mesmo assumpto do cabo submarino para os Açores, o sr. Theophilo Ferreira mandou para a mesa as seguintes propostas:
“Proponho que ao numero das ilhas propostas se accrescente—e a das Flores.—O deputado, Theophilo Ferreira
“Proponho que tambem fique o governo auctorisado para que no contrato que se celebrar com quaesquer companhias ou individuos para o lançamento do cabo submarino para os Açores se inclua a clausula dos mesmos ficarem obrigados ao estabelecimento da illuminação das costas de todo o archipelago açoriano, segundo o plano da lei de 20 de março de 1883, ou outro que os technicos melhor entendam, de modo a precaver que a navegação transatlantica possa exercer-se isenta dos actuaes perigos e inconvenientes.—O deputado, Theophilo Ferreira “»
[1] José Lúcio de Mendonça e Figueiredo terá nascido nas Flores a 20 de Fevereiro de 1842. Desconheço a data do seu falecimento, mas possui jazigo no cemitério de Santa Cruz das Flores, pelo que terá falecido pelas Flores. Era casado e tinha família constituída pelo menos desde o início da década de 1870. A sua mãe faleceu em Santa Cruz das Flores em Julho de 1893. Actuava como proprietário e comerciante por atacado em Santa Cruz das Flores (transaccionando farinhas, vidros, fósforos, etc.); foi agente da Companhia de Seguros Bonança (1886) e consignatário marítimo (e.g., lugre Josephina, com destino aos EUA, em 1886). Esteve registado como professor de latim em Santa Cruz das Flores (1882). Foi delegado do correio (1876), tesoureiro da Câmara Municipal de Santa Cruz das Flores (função da qual foi exonerado em Agosto de 1887, voltando a exercê-la em 1893) e Administrador do Concelho de Santa Cruz das Flores (nomeado em Março de 1890, em funções documentadas em 1890 e 1891). Enquadrou-se nas hostes políticas locais e figurou como vice-secretário do Centro Regenerador das Flores (1889). Exerceu muitas vezes funções no quadro da comarca das Flores, onde foi 4.º juiz substituto (1876) e, durante muitos anos, 1.º juiz substituto (e.g., 1893 e 1894). Entre 1887 e 1894 (com provável ligação a partir de 1886), foi proprietário e editor do jornal O Florentino, onde publicou assiduamente editoriais de cariz crítico e intervenção pública. Vivia em Santa Cruz das Flores e possuía uma «magnífica e pitoresca quinta / casa de campo», descrita em 1885 como a única com condições e acomodação para passar «a estação calmosa» na localidade.
[2] A notícia saiu n’O Telegrapho, jornal diário faialense, ano 1, número 86, de 13 de Dezembro de 1893. Ironicamente, chegou de Lisboa ao Faial via cabo submarino, mas só chegou às Flores de barco:
«TELEGRAMMA
Á redacção do Telegrapho—Horta.
LISBOA—13 de dezembro 11 h. e 51 m. m.
Falleceu Theophilo Ferreira; em demonstração de sentimento houve feriado em todas as escolas da capital.»
[3] Trata-se de uma escola em formato de chalé, inaugurada em 1882, cujo edifício ainda existe no Jardim da Estrela, em Lisboa.
[4] Convento de São Boaventura. A igreja pertencia então à Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz das Flores, aliás como o resto do convento, onde estava instalado o hospital, tudo, aliás, graças aos esforços de outro ilustre florentino, Peixoto Pimentel.
Pesquisa e compilação de Manuel Menezes de Sequeira, Professor Emérito
