
Numa conversa recente com os cientistas políticos Henry Farrell e Abraham Newman, o economista Paul Krugman abordou uma mudança decisiva no modo como olhamos para a globalização: a visão ingénua de um mundo em que o comércio aproximaria os países e reduziria os conflitos deu lugar a um ecossistema dominado por redes do poder e pela interdependência beligerante (weaponized interdependence).
Por outras palavras, as ligações que unem a economia mundial também podem ser usadas para vigiar, pressionar ou bloquear países. Uma potência que controla redes essenciais — como sistemas de pagamentos, plataformas digitais, semicondutores, energia, minerais ou cabos submarinos — pode transformá-las em instrumentos de poder. Numa autoestrada internacional cuja única portagem pertence a um só país, quem controla a portagem consegue ver quem passa, cobrar mais ou até impedir a passagem. É precisamente esta lógica que os Estados Unidos e a China têm vindo a explorar.
Os EUA tiram partido da centralidade do dólar, do seu sistema financeiro e do domínio de tecnologias avançadas para aplicar sanções, limitar transações e restringir o acesso de rivais a semicondutores e equipamentos essenciais. A China, por seu lado, usa o peso do seu mercado, das suas cadeias industriais e do controlo de minerais críticos, como as terras raras, para condicionar empresas e países que dependem desses recursos. Em ambos os casos, relações económicas criadas para gerar eficiência e prosperidade tornam-se meios de influência e pressão.
Mas este confronto entre gigantes não é um assunto distante. É que, de um dia para o outro, Portugal pode deixar de conseguir comprar tecnologia, energia ou matérias-primas essenciais. Sendo uma economia pequena, aberta e muito dependente do exterior, o país não fica à margem e uma guerra comercial, uma sanção ou uma falha no abastecimento pode aumentar o preço da energia, dos telemóveis, dos automóveis e de muitos outros bens do dia a dia. Por outro lado, as decisões tomadas em nome da segurança também têm custos. No 5G, por exemplo, afastar fornecedores considerados de risco pode proteger as comunicações, mas obriga as empresas a substituir equipamentos e a fazer novos investimentos.
Ainda assim, Portugal não tem apenas fragilidades — também possui trunfos. Sines, com os seus cabos submarinos e centros de dados, pode tornar-se uma ponte digital estratégica entre continentes. O lítio do Barroso pode ajudar a Europa a depender menos de fornecedores externos e a acelerar a transição energética. Estas oportunidades, porém, exigem decisões responsáveis. Não basta receber infraestruturas ou extrair recursos; é preciso criar conhecimento, proteger o ambiente, envolver as comunidades e garantir que o valor fica no país.
No fundo, autonomia estratégica não significa fechar o país ao mundo nem produzir tudo dentro de fronteiras. Significa escolher dependências com consciência, preparar alternativas e garantir que decisões tomadas no exterior não bloqueiam por completo a nossa economia. Num mundo mais fragmentado, a verdadeira segurança económica nasce do equilíbrio entre abertura, proteção e capacidade própria. Quanto maior for a nossa capacidade para compreender, produzir e decidir, menor será a dependência das escolhas dos outros.
Mas será que nós, enquanto país, estamos preparados para pagar hoje o custo da prevenção ou continuaremos a pagar amanhã o preço da dependência?
