
Carla Devesa Rodrigues lançou “O Faial à Volta da Mesa – Receitas Culinárias em Cadernos Arroladas (1899-1930)”. O livro explora a mesa das elites faialenses no auge da cabo-telegrafia e mostra como as relações femininas derrubaram barreiras.
O livro situa os hábitos alimentares das elites faialenses no auge da cabo-telegrafia. De que forma esse ambiente cosmopolita se refletiu na mesa das famílias mais favorecidas?
Como não poderia deixar de ser, as então novas comunidades de residentes, ligadas às empresas de cabos-submarinos, foram bem acolhidas na Horta. E existem antecedentes que ajudam a explicar essa boa integração.O acolhimento de estrangeiros não era desconhecido para a Horta, como o demonstra o caso da família Dabney, americana, que ali viveu entre finais do século XVIII e finais do seguinte, marcando profundamente a sociedade faialense.De igual modo, também é verdade que, desde meados de oitocentos, o Faial enveredou pelo turismo, possuindo hotel, talvez que o mais antigo dos Açores, numa fase em que o demais arquipélago não sabia o que isso era.Porém, a vinda dos cabo-telegrafistas, oriundos de distintos países, com as suas tradições enraizadas, no auge do nacionalismo Ocidental, representou um desafio totalmente diferente, tanto para os faialenses, como para os emigrantes que ali aportaram. Estes, tal como os Dabney, viviam em bairros próprios, cidadelas muradas, que protegiam uns dos outros. Era circunstância sem futuro, como sempre se tem verificado quando se erigem muralhas. Todas elas, apresentam fissuras.Cedo houve a necessidade de desmaterializar essas barreiras e foi através do mundo feminino que tal sucedeu. As redes de sociabilidades femininas funcionaram como as retroescavadoras que minaram os alicerces, sendo que, comunicando umas com outras através de frivolidades – ou assim pareceria aos olhares misóginos tanto dos faialenses, como dos estrangeiros residentes – fez com que uns e outros tivessem de, para lá de comunicar, conviver. E essa transformação passou, inevitavelmente, por aquilo que eram as suas funções esperadas, fossem elas insulares, alemãs, britânicas, americanas, etc.: o labor doméstico, a criação do lar.Assim, sendo a mesa das elites faialenses espelho e reflexo da dimensão dos seus cabedais, o ambiente de centro do cosmos que na Horta, se fazia sentir, materializava-se na incorporação de ingredientes de origem industrial nas receitas, novidades como o fermento químico (RoyalBakingPowder), a gelatina (Jell-O e Knox), ambos em pó, ou os cereais de pequeno-almoçoprocessados (CornFlakes e Rice Krispies); na inclusão em receituários familiares de diversos pratos estrangeiros, sua respetiva feitura e apresentação; ou, simplesmente, na possibilidade de adquirir produtos, emdiversos jornais tão anunciados, como pães de primeira qualidade fabricados pelo sistema francês, espanhol ou italiano, pudins de Natal britânicos em latas de dois ou quatro quilos ou, até, para as cozinheiras ousadas, preparados para bolos sem ovos, os Bird’sCustardPowder.Foi a partir das mesas, dessa transgressão feminina, que se urdiu a construção de uma sociedade de cooperação transnacional, que se vê nos receituários culinários, mas que depressa ultrapassou a esfera estritamente feminina, consolidando-se também na sociabilização masculina, através dos desportos, transpirando depois para a integração plena, fisicamente visível no Café Internacional e na Sociedade Amor da Pátria, com saraus, bailes, música, cultura. As famílias começaram a privar umas com outras e também depressa, a resultar da proximidade entre ilhéus e os novos habitantes, surgiriam casais internacionais.Essa Horta, de há cem anos, é uma lição e uma inspiração universalista para todos os Açores nos dias de hoje, pois demonstra maior inteligência, proveito e enriquecimento para a comunidade que, ao invés de excluir, integra.
Quebrar barreiras no feminino
“Foi a partir das mesas, dessa transgressão feminina, que se urdiu a construção de uma sociedade de cooperação transnacional, que se vê nos receituários culinários, mas que depressa ultrapassou a esfera estritamente feminina, consolidando-se também na sociabilização masculina, através dos desportos, transpirando depois para a integração plena, fisicamente visível no Café Internacional e na Sociedade Amor da Pátria, com saraus, bailes, música, cultura”.

Britânicos, americanos, alemães, franceses, italianos e espanhóis conviviam na Horta. Que influências deixaram na gastronomia?
Bem, para isso terão de ler e, como em todos os meus livros que abordam a história da alimentação, faço o desafio de se experimentar, pois que a história, sendo ciência séria, não impede que seja divertida e prazerosa. Ler e experimentar, uma combinação pedagógica, útil e poderosa. E, no caso, saborosa.Porém, procurando responder à questão no que às influências respeita, diria que todas aquelas que,os elos de um quotidiano partilhado,permitiram forjar pois, não se passariam apenas as receitas de mão, também o como e, sobretudo, o como fazer bem, exigiria que a barreira linguística se ultrapassasse, obrigaria à demonstraçãode como confeccionaros pratos – alguns, cujos nomes, FudgeCakewithSea Spray Frosting ouJell-O Chocolate Pudding com Lady Baltimore Coberto, faziam adivinhar a complexidade – que se partilhavam.
Que fontes, documentos e testemunhos foram decisivos para reconstruir a “mesa” das elites entre 1899 e 1930?
Foram transcritos e anotados cinco cadernos de receitas manuscritos: o Livro de Receitas de CapitolinaHortense da Silveira, da coleção particular de Margarida Gonçalves da Rosa; osLivros de Culinária do Fundo Família Campos,existentes na Biblioteca Pública eArquivo Regional João José da Graça; e um caderno escolar,com Receitas de Cosinha, existente nofundo do Museu da Horta.À época foi-me lançado o desafio de contribuir, com o saber que possuo, para criar melhores condições para o desenvolvimento sustentável da oferta gastronómica faialense, por parte do executivo municipal, principalmente do Carlos Ferreira. Entretanto regressei à Terceira e com a alteração do dia-a-dia, outras premências se foram impondo. Levou mais tempo do que o esperado, mas creio ir muito a tempo e constituir um bom contributo. E o setor da restauração pode, neste livro, encontrar inspiração para repensar opções, estratégias, caminhos, que singularizem o Faial da demais oferta atual.
O livro destaca que mãos femininas ousaram fundir culturas “de forma mais perfeita que os políticos”. O que tornava a sociedade faialense de então única?
Parafraseando João José da Graça, “O que se diz, o que se pensa e o que se faz na Horta, não se diz, não se pensa, nem se faz em qualquer parte do mundo.”. É preciso entender que o Faial sofreu duramente uma crise em meados de oitocentos. Houve fome severa, houve emigração massificada, houve o claudicar de um sistema económico obsoleto, alicerçado no vinho e no privilégio. Parte das elites perseveraram nas prebendas, extinguindo-se devagarinho, outra parte não. Esta, que sujou a camisa, provocou uma mudança nas bases do sistema económico. O combate passou a ser a alfabetização e a escolarização, tanto para rapazes, como para raparigas. Dando mundo, fazendo conhecer mundo, semeando esperança, antes ainda dos Cabos chegarem, a recuperação era evidente. Nos anos 20 de novecentos, o Faial não era apenas a ilha mais alfabetizada dos Açores, era mesmo o sítio mais alfabetizado de todo o país. E é nessa ilha pequena, com gente mais preparada, que se deu esse milagre da constituição de uma comunidade multinacional, cosmopolita na verdadeira aceção da palavra, gerando riqueza como nunca antes se vira. Assim se demonstra, para quem insiste em não querer ver, a urgência gritante de, séria e estrategicamente, se investir em educação e cultura em zonas periféricas.
As fontes
“Foram transcritos e anotados cinco cadernos de receitas manuscritos: o Livro de Receitas de Capitolina Hortense da Silveira, da coleção particular de Margarida Gonçalves da Rosa; os Livros de Culinária do Fundo Família Campos, existentes na Biblioteca Pública e Arquivo Regional João José da Graça; e um caderno escolar, com Receitas de Cosinha, existente no fundo do Museu da Horta”.

Que receitas selecionou que mostram esta fusão de culturas?
PeanutButterMacaroons ou Macaroons de Manteiga de Amendoim, uma receita de confecçãosecular onde,a amêndoa e a água de rosas, substituídas por baunilha, manteiga de amendoim e arroz tufado, pode ser dessa fusão, paradigma.
Há outras ilhas em que o cruzamento de culturas deixou sinais interessantes na gastronomia. Como vê o caso da Terceira?
No ano em que celebramos os 50 anos da Autonomia, fui-me apercebendo, pelos mais acesos debates na opinião pública, que os Açores se afirmam melhor como uma federação de nove ilhas-estado, do que como arquipélago. Este revela-se nevoento, de adesividade precária no quotidiano. É o que temos, quase 600 anos volvidos. Há razões históricas que parcialmente ajudam a explicar o que se passa, mas só em parte, pois parece-me ser mais um problema do presente que assistimos, por vezes com incredulidade.No que à ilha Terceira respeita, a sua riqueza gastronómicaé evidente. Contudo, tal como em todas as demais ilhas, os estudos acerca da história da alimentação são poucos e de valia distinta. É preciso analisar fontes documentais, ir ao fundo das questões e não ficar apenas pela rama. Os encontros sobre a História da Alimentação nos Açores procuraram começar a fazer caminho, em Angra, na biblioteca, depois na Horta, com o museu e a biblioteca e, desde então, encontram-se em suspensão criogénica. Nesse sentido este livro é contributo, mas não panaceia para todos os males. A alimentação na Terceira é rica, mas é de tempo longo, por vezes, ainda cheira a naus e galeões. Daí ser necessário, também aqui, pedir a quem tenha livros de receitas antigas, que os disponibilize, para que os possa estudar devidamente, procurando, pois, dar um futuro novo contributo, desta vez à ilha Terceira. A alimentação, ao transcender paladares e sabores, assume-se como património identitário gastronómico.
In Diário Insular–José Lourenço, director–Imagens do DI.
Livo publicado pela Letras lavadas, editora com a qual Bruma Publications tem uma parceria.
