
Em resumo 56
Acabo de ver naquilo que se convencionou chamar «redes sociais» – o Facebook – um vídeo de Ariano Suassuna (1927-2014) no qual o poeta e dramaturgo brasileiro faz, perante uma plateia de estudantes, o elogio da língua portuguesa. Começa por referir a opinião do grande Miguel de Cervantes, passa a um poeta popular do Sertão da Paraíba e acaba no célebre vilancete de Luís de Camões – «Descalça vai para a fonte». Para explicar o que é um mote e uma glosa ele declama: «Descalça vai para a fonte /Leonor pela verdura;/Vai formosa e não segura ./Leva na cabeça o pote/O testo nas mãos de prata» e por aí continua mas é aqui que – como se diz – a porca torce o rabo porque no vídeo aparece a palavra texto em vez de testo. Qualquer soldado raso da Literatura – como eu sou, pobre de mim – sabe que um testo é uma tampa, não é preciso ser linguista ou filólogo ou o que quer que seja de mais elevado. É uma questão de dicionário, uma coisa bem elementar. O problema é mais vasto. Tem a ver com uma coisa que nos autocarros modernos de Lisboa começa a aparecer: uma voz feminina diz «B» em vez de «Bairro», diz «Pere» em vez de «Pereira», diz «Cásquilha» em vez de «Casquilha», diz «Cálhariz» em vez de «Calhariz». É de fugir. Explicaram-me que isto é uma aplicação informática, trata-se na verdade de uma voz e não de uma pessoa. Por isso não se pode esperar muito desta situação. É como nos comboios quando aparece «Melecas» em vez de Meleças ou no Metropolitano aparece «Marques Pombal» por Marquês de Pombal. Como já em 1983 dizia o meu colega de Departamento e querido amigo José Palla e Carmo (1923-1995) eles estão a assassinar o Português. Em resumo: pobres redes sociais.
José do Carmo Francisco, escritor
