
Vamberto Freitas e a arte de fazer da leitura literatura
Toda a grande literatura precisa de quem a escreva. Mas precisa igualmente de quem a compreenda, a preserve e a conduza para além do seu próprio tempo. Há leitores que percorrem livros; há outros que lhes prolongam a vida. São esses que descobrem afinidades invisíveis, restituem contextos esquecidos e transformam cada obra numa conversa permanente entre épocas, geografias e gerações. Vamberto Freitas pertence a essa raríssima linhagem. Ao longo de décadas, fez da crítica literária uma arte de leitura e da leitura um exercício de criação, oferecendo-nos ensaios que possuem a rara qualidade de serem simultaneamente interpretação, reflexão e verdadeira literatura.
Na grande tradição crítica do século XX, o ensaio deixou de ser um simples comentário à margem da obra para adquirir plena autonomia literária. Edmund Wilson, Lionel Trilling, Alfred Kazin, Irving Howe ou Susan Sontag compreenderam que um grande ensaio não explica um livro; faz dele um ponto de partida para pensar a literatura, a cultura e a condição humana. É essa mesma conceção que percorre toda a escrita de Vamberto Freitas. Os seus ensaios recusam a leitura apressada e o elogio fácil. Habitam demoradamente as obras, escutam-lhes os silêncios, descobrem-lhes as genealogias, aproximam autores separados por oceanos e gerações e devolvem cada livro ao leitor com uma densidade que antes lhe permanecia oculta.
Quem acompanha a sua escrita sabe que cada texto nasce de uma rara combinação entre vastíssima cultura literária, rigor intelectual e extraordinária sensibilidade estética. Ler Vamberto Freitas é perceber que um livro nunca termina na última página. Continua na inteligência de quem o interpreta, na sensibilidade de quem o contextualiza e na capacidade de quem o inscreve numa tradição maior. Os seus ensaios iluminam as raízes de uma obra, revelam-lhe os diálogos invisíveis, descobrem-lhe as afinidades mais profundas e devolvem-na enriquecida por uma leitura que é simultaneamente crítica, histórica, filosófica e profundamente literária. É por isso que os seus textos ultrapassam largamente a circunstância que lhes deu origem. Muitos deles deixam de ser apenas ensaios sobre determinados livros para se tornarem, eles próprios, peças maiores da literatura ensaística em língua portuguesa.
Os dois ensaios recentemente publicados sobre Soul of Black Stone: Echoes of Islands, Shadows of Time, de Lara Gularte, e Code Blue: New & Selected Poems, de Sam Pereira, ambos editados pela Bruma Publications em coedição com a Letras Lavadas, constituem mais uma demonstração da extraordinária maturidade do olhar crítico de Vamberto Freitas. Não se limitam a apresentar dois livros. Fazem aquilo que apenas os grandes ensaístas conseguem fazer: devolvem as obras aos leitores maiores do que eram quando chegaram às suas mãos. Situam-nas numa tradição, revelam-lhes as linhagens invisíveis, descobrem os diálogos que mantêm com outros escritores e outras épocas e, sobretudo, ampliam-lhes o horizonte de leitura.
No ensaio dedicado a Lara Gularte, Vamberto Freitas não procura explicar a poesia; procura habitá-la. Entra nela com a delicadeza de quem sabe que cada poema guarda mais silêncio do que palavras e que a missão da crítica não consiste em desfazer o mistério da criação, mas em iluminá-lo. É por isso que consegue reconhecer, numa frase que permanecerá certamente entre as mais significativas da sua obra ensaística, que “os Açores têm uma dupla história na sua literatura: a portuguesa e a norte-americana. Tentar fugir desta realidade será fugirmos de nós próprios.” Não é apenas uma observação sobre um livro; é uma reflexão sobre a própria natureza da literatura, sempre maior do que as fronteiras que a pretendem limitar.
Ao longo dessas páginas acompanha Lara Gularte entre a memória e a imaginação, entre o presente e a ancestralidade, mostrando como a poesia se torna um lugar onde o tempo deixa de obedecer à cronologia para passar a obedecer à emoção. E quando escreve que “Lara Gularte não é de choro de vidas perdidas. É do seu embate consigo própria e da imaginação que persiste para além do que ela supõe ser os factos da sua vida”, compreendemos que a verdadeira crítica literária não descreve uma obra: revela aquilo que nela permanece escondido até para o próprio leitor.
O mesmo acontece em Code Blue. O ensaio sobre Sam Pereira possui a fluidez de uma narrativa e a profundidade de uma meditação sobre a poesia. As referências a Philip Levine, à Iowa Writers’ Workshop ou às paisagens do Vale de São Joaquim nunca surgem como mera informação biográfica; tornam-se elementos de uma cartografia literária que permite compreender a singularidade da voz poética de Sam Pereira. E quando Vamberto Freitas escreve que o poeta é “um dos primeiros poetas modernistas luso-americanos em atividade literária constante”, não formula apenas uma classificação crítica. Restitui-lhe um lugar na história da literatura. Mais adiante, ao afirmar que “a poesia de Sam Pereira é esse modo maior e artístico de nos dizer o nosso próprio destino nunca separado”, oferece-nos uma definição da própria poesia: esse território onde a experiência individual adquire inesperadamente um sentido universal.
É precisamente essa capacidade de transformar a leitura numa forma de conhecimento que distingue os grandes ensaístas. Nos textos de Vamberto Freitas, a erudição nunca pesa. Circula naturalmente entre autores, movimentos literários, geografias e épocas, como se toda a literatura participasse de uma única e interminável conversa iniciada muito antes de nós. Cada ensaio é um exercício de memória cultural, mas também de descoberta. Lê-se uma obra; termina-se a ler muitas outras.
O mesmo sucede com a longa entrevista recentemente realizada a Carlo Matos para a Gávea-Brown. Longe de se limitar ao formato convencional da pergunta e da resposta, transforma-se num verdadeiro diálogo intelectual, onde o entrevistador desaparece para deixar que a literatura ocupe inteiramente o espaço da conversa. Há entrevistas que informam. Esta escuta. Há entrevistas que recolhem declarações. Esta constrói pensamento. Ao longo das suas páginas, o leitor acompanha não apenas um escritor, mas o processo através do qual uma obra se pensa a si própria, se interroga e se explica. É também essa uma das marcas maiores de Vamberto Freitas: saber que entrevistar um escritor é, antes de tudo, ler profundamente a sua obra.
É essa coerência que percorre toda a sua produção ensaística. Nunca escreveu sobre literatura para a ornamentar com conceitos, nem para exibir uma cultura que, sendo imensa, nunca se torna ostensiva. Escreve para compreender. E compreender, no seu caso, significa aproximar livros entre si, reconhecer permanências, descobrir afinidades secretas e oferecer aos leitores novas possibilidades de leitura. A sua crítica nasce sempre da convicção de que nenhum grande livro vive isolado; todos pertencem a uma tradição de vozes que se respondem através do tempo.
Na história da literatura, há escritores que criam obras e há ensaístas que lhes asseguram a permanência. Sem estes, muitas páginas acabariam esquecidas no silêncio das bibliotecas ou na fugacidade do seu tempo. A grande crítica literária é também uma forma de criação, porque amplia o significado das obras e lhes oferece novas vidas através de sucessivas leituras. É esse o legado que Vamberto Freitas tem vindo a construir, com uma consistência rara e uma elegância intelectual que o colocam entre os grandes ensaístas da língua portuguesa.
Daqui a muitos anos, quando se regressar aos seus textos, eles já não serão lidos apenas como interpretações de determinados livros ou de determinados autores. Serão lidos como literatura. Porque possuem pensamento, ritmo, beleza verbal e uma invulgar capacidade de transformar a inteligência em emoção. Essa é talvez a mais elevada distinção que um ensaísta pode alcançar: escrever sobre literatura de tal modo que a própria crítica passe a integrar o património literário. Vamberto Freitas alcançou esse lugar há muito tempo. E é nesse espaço raro, onde o ensaio deixa de ser comentário para se tornar criação, que a sua obra permanecerá.
Diniz Borges
