James Baldwin, ou a urgência de voltar a ler a América

Algumas vozes não pertencem ao passado. Permanecem suspensas sobre o tempo como sinos que continuam a tocar muito depois de a praça ter ficado vazia. A literatura conhece esse raro milagre: escritores cuja obra se recusa a envelhecer porque foi escrita não para responder às urgências de uma época, mas para interrogar a condição humana. James Baldwin é um desses nomes. Cada página sua continua a respirar a inquietação da liberdade, a dor da exclusão e a esperança, sempre difícil, de uma América capaz de se reconciliar consigo própria.

Por isso, celebrar hoje o seu nascimento não é um gesto de memória. É um ato de cidadania. É admitir que existem momentos em que uma democracia precisa de regressar aos seus escritores para voltar a reconhecer o seu próprio rosto. E se alguma vez a América precisou de James Baldwin, esse tempo é agora.

Nascido no Harlem, a 3 de agosto de 1924, filho de uma empregada doméstica e criado sob a severidade de um padrasto pregador pentecostal, Baldwin cresceu entre a pobreza, a discriminação e a extraordinária riqueza espiritual da comunidade afro-americana. Ainda adolescente descobriu que as palavras podiam abrir portas que a sociedade insistia em manter fechadas. Aos vinte e quatro anos abandonou os Estados Unidos e instalou-se em Paris, procurando a distância necessária para compreender o país onde nascera. Não fugia da América; procurava um lugar onde pudesse respirar para continuar a amá-la. Essa distância geográfica acabou por lhe oferecer uma extraordinária proximidade moral. Baldwin passou a vida a escrever sobre a América precisamente porque nunca conseguiu abandoná-la. O seu exílio foi apenas físico. A sua pátria continuou a ser a língua inglesa e o grande e inacabado sonho americano.

A sua obra tornou-se uma das mais poderosas radiografias da democracia norte-americana. Em Go Tell It on the Mountain (1953), talvez o mais autobiográfico dos seus romances, explorou a infância, a religião, a culpa e a procura da identidade num Harlem profundamente marcado pela pobreza e pelo fervor religioso. Em Giovanni’s Room (1956), num gesto de enorme coragem para a época, escreveu um dos mais belos romances sobre o amor entre homens, recusando limitar-se às expectativas de quem esperava que um escritor negro escrevesse apenas sobre questões raciais. Em Another Country (1962), desmontou as fronteiras artificiais entre raça, desejo, classe e identidade, revelando que todas as formas de exclusão acabam por nascer do mesmo medo. Em If Beale Street Could Talk (1974), transformado décadas mais tarde num extraordinário filme de Barry Jenkins, ofereceu uma das mais delicadas histórias de amor da literatura americana, mostrando como o racismo institucional destrói vidas muito antes de destruir sonhos.

Mas foi sobretudo como ensaísta que Baldwin conquistou um lugar irrepetível na história intelectual dos Estados Unidos. Notes of a Native Son continua a ser uma das mais profundas meditações sobre raça, pertença e identidade nacional alguma vez escritas. E The Fire Next Time, publicado em 1963, permanece um dos livros fundamentais para compreender não apenas o movimento pelos direitos civis, mas também as tensões que continuam a atravessar a sociedade americana. As suas páginas não oferecem slogans nem soluções fáceis. Exigem coragem. Obrigam o leitor a abandonar o conforto das certezas para entrar no terreno mais difícil da responsabilidade moral.

Baldwin recusava ser reduzido a uma categoria. Nunca quis ser apenas um escritor negro, um escritor homossexual, um escritor político ou um intelectual. Queria ser simplesmente um escritor. E talvez por isso tenha conseguido falar simultaneamente da América e da condição humana. Via no racismo uma tragédia não apenas para quem o sofria, mas também para quem dele necessitava para construir uma falsa ideia de superioridade. Via no preconceito uma prisão para vítimas e algozes. E acreditava que nenhuma democracia poderia sobreviver se recusasse enfrentar as suas próprias mentiras.

“Amo a América mais do que qualquer outro país do mundo”, escreveu em Notes of a Native Son, “e é exatamente por essa razão que insisto no direito de a criticar perpetuamente.” Poucas frases definem tão bem o verdadeiro patriotismo. Baldwin nunca confundiu amor com complacência. Pelo contrário, ensinou que amar um país significa exigir-lhe que seja fiel às promessas inscritas na sua própria fundação. Criticar era, para ele, uma forma de esperança.

Noutra passagem memorável escreveu: “A história de como sofremos, de como encontramos alegria e de como triunfamos nunca é nova; mas precisa sempre de ser contada. Não existe outra história para contar. É a única luz que possuímos em toda esta escuridão.” É difícil imaginar palavras mais atuais. Numa época em que a verdade é tantas vezes substituída pela velocidade das redes sociais, pela simplificação ideológica ou pela conveniência política, Baldwin recorda-nos que as sociedades sobrevivem não porque escondem as suas feridas, mas porque têm a coragem de as narrar.

Também escreveu que “toda a arte é uma espécie de confissão, mais ou menos oblíqua. Todos os artistas, se quiserem sobreviver, acabam por ser obrigados a contar toda a história; a vomitar toda a angústia.” Talvez nenhuma outra frase explique tão bem a sua literatura. Baldwin nunca escreveu para tranquilizar consciências. Escreveu para as despertar. A sua prosa possui simultaneamente a musicalidade do sermão, a precisão do ensaio filosófico e a intensidade emocional da poesia. Cada frase parece carregar consigo séculos de sofrimento e, ao mesmo tempo, uma inesgotável confiança na possibilidade da redenção humana.

A sua influência atravessa gerações. Toni Morrison considerava-o uma das maiores consciências morais da literatura americana. Maya Angelou via nele um homem que transformava dor em beleza sem nunca a romantizar. Ta-Nehisi Coates reconhece em Baldwin um dos seus maiores mestres intelectuais. O historiador David Leeming, seu biógrafo, chamou-lhe “a consciência da América”. E Eddie Glaude Jr., professor de Princeton e um dos mais importantes intérpretes contemporâneos da sua obra, insiste que Baldwin continua a ensinar-nos que a maior ameaça à democracia americana não reside apenas no racismo ou na desigualdade, mas na incapacidade de um povo enfrentar honestamente a sua própria história.

Talvez seja precisamente por isso que os dias que hoje se vivem nos Estados Unidos exigem que voltemos a ler James Baldwin. Num país profundamente polarizado, onde regressam velhas linguagens de exclusão, onde se procura tantas vezes substituir a complexidade pela propaganda e a memória pelo esquecimento, Baldwin permanece extraordinariamente contemporâneo. Não porque tenha previsto o século XXI, mas porque compreendeu aquilo que muda muito pouco em qualquer século: o medo, o poder, a identidade, a dignidade e a permanente tentação de transformar o outro em inimigo.

Desde Walt Whitman até Toni Morrison, passando por Herman Melville, William Faulkner, John Steinbeck, Ralph Ellison, Flannery O’Connor, Joan Didion ou Louise Erdrich, a literatura americana sempre desempenhou um papel muito superior ao mero entretenimento. Foi o lugar onde a nação se interrogou, onde as suas contradições ganharam linguagem e onde as suas promessas foram constantemente submetidas ao julgamento da consciência. James Baldwin ocupa um lugar singular nessa tradição. A sua obra demonstra que a literatura não é um luxo das democracias; é uma das suas condições de sobrevivência. Uma nação que deixa de ouvir os seus escritores acaba, inevitavelmente, por deixar de ouvir a sua própria consciência.

Hoje, ao celebrarmos o centésimo segundo aniversário do nascimento de James Baldwin, não prestamos homenagem apenas a um extraordinário romancista, ensaísta ou pensador. Celebramos uma voz que continua a recordar à América aquilo que ela prometeu ser e aquilo que ainda pode tornar-se. Porque há escritores que pertencem às bibliotecas e escritores que pertencem à história. Baldwin pertence a uma categoria ainda mais rara: pertence ao futuro. Enquanto houver uma América à procura da sua melhor versão, haverá sempre uma razão para abrir um dos seus livros e escutar, de novo, essa voz serena, firme e profundamente humana que continua a dizer que a verdade, por mais dolorosa que seja, permanece o primeiro ato de liberdade.

Diniz Borges para Filamentos

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