Nota de Leitura por José do Carmo Francisco

Mário Rui Cordeiro

New York Central Park

Mário Rui Cordeiro (1950-2016), poeta e artista plástico, é autor de dois livros anteriores: «Mãos para dedos» (1969) e «Nau eléctrica» (1984). Esta edição de 104 páginas recolhe textos escritos entre 1971 e 1974. Essas páginas são uma edição da Espaço Ulmeiro, nota de contracapa de Manuel Jorge Valamatos, Testemunho de Hélder Paulo Tiago, design gráfico e capa de Armando Cardoso, imagem de capa e 13 desenhos de Mário Rui Cordeiro e apoio do Município de Abrantes. As narrativas integram o que por hábito se designa de prosa poética ou proso-poemas; seja como fôr «todas as histórias têm um homem por trás, um nome e um sentido». Ou dito de outra maneira, como se lê na página 15: «Estas narrações (dir-se-á depois) encerram a história de um homem porque nascem dum homem contra a relatividade das coisas, contra a malícia dos deuses, contra o próprio homem. Tudo isto devagar, sempre devagar até ao fim (a arte é lenta) até à reinvenção das terras e do mundo, dos lugares inhabitáveis, das vozes subversivas dos primeiros homens». A página 74 lembra que a doença abre as portas da morte: «Mas há o perigo: a doença. A doença, sabem? É um animal feroz que rói, corrompe e mata. Então morremos e o nosso amor morre e morrem as árvores e o vento. A morte é (apesar de tudo) terrível. Há quem diga que é injusto, que não devia ser assim. Outros dizem que é o começo de tudo. Sabem como é?». A página 102 faz uma pergunta: «E o homem diz: – ali havia um largo, além uma paisagem. E aquela árvore junto da fonte, ainda existe?». Resposta possível: estas são as emboscadas do esquecimento que é preciso combater. Sempre.

José do Carmo Francisco, escritor

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