DOIS POEMAS DE NICOLAU SAIÃO

AS COISAS

As coisas multiplicam-se

muito mais que as pessoas. Só elas

possuem o segredo de tranquilamente jazer

entre as ervas, as águas, as ruínas

ausentes e presentes. A sua pele

é mais fina que a casca dos minutos

e contudo, sob o lume e o vento

sob a terra em que os passos já não soam

ou no deserto violento das palavras

as coisas repousam

ou, subitamente iluminadas

gritam e falam-nos com movimentos graves

adejando como estranhos pássaros nocturnos

ou como trémulos animais interditos.

As coisas

sofrem

elas sofrem como se existissem noutra esfera

próxima de nós

como uma Lua oculta, como um peixe fantasma

como uma flor solitária numa casa abandonada

como um gato que no sono se agita pleno de medo

As coisas

minúsculas, gigantescas, iguaizinhas a nós

ensanguentadas pelo nosso terror e a nossa cólera

sob as nossas mãos

entre os nossos cabelos

repousando junto a nós quando dormimos

calmas como o ruído dum comboio numa cidade matutina

As coisas

respirando devagarinho nas nossas memórias

andando junto às nossas recordações como se fossem

um elefante, um rato, um cão fiel

feitas de barro, as coisas

de madeira ou de cera, de vidro ou de cimento

feitas de cristal e de platina, de celulóide

do fresco celofane, de aço e de papel

pobres coisas num rés-do-chão amontoadas

esquecidas como um trapo manchado

livres e belas

nosso testamento, papiro para milénios a vir

As coisas

sempre atentas, sempre dormindo esperando o despertar

o silencio luminoso

As coisas

nossas irmãs de mundo, nossas filhas, nosso sinal perfeito

neste universo que é o nosso resumido encontro

com a sua

eternidade acontecida.

O PÉ

Em todos os lugares, é

sempre pé: pé de mundo

pé de mando, pé de mar. Sem par

é pé de coxo. Pé

parado. Morto em pé.

Por vezes

os pés desaparecem

durante anos: esconderam-nos

em claustros, chaminés, prisões.

O pé no fundo

é estranho: de noite

parece um ser solar. Um pé

sem perna já foi mais frequente do que pensam.

Um pé de casa é uma vírgula posta

entre o campo e as estrelas. Um pé arabesco

é um pé a cavalo. E um pé que se preza

ama a liberdade. De contrário é pé chato

pé de planeta aziago.

Um pé sem suor é pé desafinado.

Lagosta, pé carregado

O pé costuma ver (o pé tem sorte)

o começo da vida, ou o fim do corpo:

ir de pés para a frente

fazendo finca-pé

à própria morte.

O pé de flor vive em todo o lado.

Planta de pé é um silêncio vegetal.

Pé de cabra é bom na magia oculta.

O pé de cão tem horror aos polícias.

O pé de amor é um bicho esquisito: mede

os outros pelo seu tamanho – pé universal

Pé ou mão? Doce animal

dentro do coração.

in Os Objectos Inquietantes

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