
Em Resumo #40
A minha terra natal (Santa Catarina) pertence ao concelho de Caldas da Rainha mas está mais perto de Alcobaça. Não por acaso fez parte dos Coutos da Alcobaça e é vulgar ainda hoje (2026) ouvir alguém da terra dizer perante uma situação insólita: «A vida é como a morte de São Bernardo – uns a rir, outros a chorar». Isto na lembrança de um azulejo no Mosteiro local que representa a morte do fundador da Ordem de Cister: metade dos frades toca pífaro e tambor, a outra metade chora frente ao leito de morte de São Bernardo. Foi em Leiria que o meu avô materno cumpriu o seu serviço militar obrigatório entre 1926 e 1928. Foi em Leiria que em 1961 fiz o Exame de Admissão ao Liceu e à Escola Técnica. Quer isto dizer que os termos referidos e usados em Alcobaça e em Leiria são muitas vezes utilizados por nós no dia a dia. Um indivíduo aparvalhado, maloio, lapão ou palhoco (como se diz nos Açores) é chamado um vacão mas por razões de decoro e de decência a mulher equivalente é chamada de pacalaia. Lembrei-me destas palavras quando um dia destes, à saída da Estação do Metropolitano dos Restauradores em Lisboa ouvi um casal todo pós-moderno, todo telemóvel e smartphone, todo redes sociais a olhar o Palácio Foz e a dizer um para o outro: «Não achas que isto devia ir abaixo para fazer aqui um prédio como deve ser?» Isto dizia um deles e o outro concordava. Já parece uma figura dos «Peanuts»: «Eu amo a Humanidade mas detesto as pessoas». São apenas seres humanos… estes não merecem sequer a designação de pessoas. Nem ele nem ela. Em resumo. Nem o vacão nem a pacalaia.
José do Carmo Francisco, escritor
