Contra o Esquecimento-Uma leitura de Temas de História Açoriana – Volume II, de Carlos Enes

Há uma estranha injustiça que acompanha quase todas as ilhas. O mesmo mar que, durante séculos, lhes trouxe homens, ideias, mercadorias e civilizações é também aquele que, lentamente, vai afastando a sua memória do grande relato das nações. O oceano aproxima geografias, mas distancia lembranças. Talvez por isso os arquipélagos sintam uma necessidade tão profunda de contar continuamente a própria história: não por nostalgia, mas porque sabem que a memória é a primeira forma de autonomia. Antes de existir nos estatutos políticos ou nas instituições, a autonomia nasce sempre da consciência de um povo sobre si mesmo. E essa consciência alimenta-se menos das celebrações do que do paciente trabalho de compreender o caminho percorrido.

É neste horizonte que deve ser lido Temas de História Açoriana – Volume II, de Carlos Enes. Não como uma simples reunião de estudos de trabalhos anteriormente publicados, mas como um exercício persistente de restituição da memória histórica açoriana num tempo em que recordar se tornou, paradoxalmente, um dos atos intelectuais mais difíceis. Numa época em que a velocidade da opinião ameaça substituir a paciência da investigação e em que a simplificação do passado parece satisfazer mais do que a sua complexidade, esta obra devolve espessura ao tempo e restitui à História a sua verdadeira função: não confirmar aquilo que já pensamos, mas obrigar-nos a pensar novamente aquilo que julgávamos conhecer.

À primeira vista, o leitor encontra um conjunto de estudos dedicados a temas aparentemente distintos: a autonomia açoriana, o cinema, a peste de 1908, as festas do Espírito Santo, o Carnaval angrense, o movimento socialista, a oposição ao Estado Novo, a viagem de Marcelo Caetano aos Açores ou a correspondência de Vitorino Nemésio com Salazar. Poder-se-ia pensar tratar-se apenas de uma compilação de artigos dispersos. Mas essa impressão rapidamente se dissolve. Existe uma coerência profunda que percorre toda a obra, uma espécie de corrente invisível que une cada ensaio ao seguinte. Todos eles interrogam, de formas diferentes, uma mesma realidade: como se construiu a experiência histórica açoriana, como se formou a identidade das ilhas e de que modo uma sociedade insular dialogou, resistiu ou se acomodou aos diversos poderes que procuraram moldá-la.

É precisamente aqui que reside a originalidade do trabalho de Carlos Enes.

Durante muito tempo, a historiografia açoriana privilegiou duas grandes narrativas. A primeira foi essencialmente descritiva, organizada em torno de acontecimentos, cronologias e protagonistas. A segunda, mais recente, concentrou-se na construção política da autonomia, procurando explicar o percurso institucional que conduziu ao regime autonómico atual.

Carlos Enes percorre um caminho diferente.  A sua História nasce menos dos grandes acontecimentos do que das permanências. Interessa-lhe compreender os mecanismos profundos da sociedade, os ritmos lentos das transformações culturais, a formação das mentalidades, os conflitos entre diferentes visões do mundo, os modos como instituições, rituais, epidemias, festas populares ou movimentos políticos acabam por revelar aquilo que uma comunidade verdadeiramente é.  Daí estarmos perante uma história profundamente humana.  É precisamente essa dimensão que confere ao livro um dos seus maiores méritos: a recusa da mitologia.

Vivemos uma época em que todas as comunidades parecem sentir necessidade de construir narrativas heroicas sobre si mesmas. Os Açores também não escapam a essa tentação. Entre o discurso turístico, a celebração identitária e certas leituras políticas do passado, corre-se frequentemente o risco de transformar a História numa sucessão de certezas confortáveis.

Carlos Enes faz exatamente o contrário.  Os seus ensaios devolvem complexidade onde outros preferem simplificação. Mostram que a autonomia nunca constituiu um percurso linear nem consensual; que foi atravessada por rivalidades insulares, divergências políticas, interesses económicos e diferentes conceções do próprio arquipélago. Revelam igualmente que manifestações culturais, como as festas do Espírito Santo ou o Carnaval, conheceram profundas transformações ao longo do tempo; que a implantação do socialismo, o combate ao centralismo ou mesmo figuras como Vitorino Nemésio resistem a qualquer leitura redutora. Como o próprio autor sublinha na introdução, a autonomia foi sempre um campo onde se cruzaram interesses, tensões e diferentes projetos políticos, muito longe das narrativas simplistas que tantas vezes dominam o espaço público.   Esta honestidade intelectual é, talvez, a qualidade mais rara do livro.

Outro dos seus méritos reside na escolha do período estudado.  Grande parte da historiografia açoriana continua a privilegiar os séculos do povoamento, da expansão atlântica ou do liberalismo. Muito menos conhecido permanece o século XX, precisamente aquele em que nasceram muitos dos problemas e das conquistas que continuam a definir os Açores contemporâneos: a emigração moderna, a reorganização económica, os novos meios de comunicação, a afirmação das identidades políticas, os confrontos com o centralismo e, finalmente, a autonomia democrática.

É esse território que Carlos Enes escolhe explorar.  Na introdução, afirma-se claramente que os séculos XIX e XX continuam a apresentar numerosas lacunas historiográficas e que a reunião destes estudos pretende precisamente contribuir para o seu preenchimento. Não se trata apenas de uma observação metodológica; é uma tomada de posição sobre o que ainda falta conhecer da experiência açoriana.

Essa opção tem hoje uma relevância que ultrapassa largamente o universo académico.  Os Açores vivem uma fase decisiva da sua maturidade autonómica. Cinquenta anos de instituições democráticas consolidaram uma consciência política regional sem precedentes. Mas existe um paradoxo difícil de ignorar: quanto mais frequentemente se fala de autonomia, menos frequentemente se estudam as suas raízes históricas. Multiplicam-se os discursos; escasseiam as leituras. Invoca-se a identidade; esquece-se o processo histórico que a tornou possível.

É precisamente contra esse empobrecimento da memória que esta obra se ergue.  Não através da retórica. Mas através do arquivo.  Não através da opinião. Mas através da investigação.  Não através da nostalgia.  Mas através da disciplina intelectual.

Há ainda uma dimensão particularmente significativa na escrita de Carlos Enes.  O autor nunca perde de vista que toda a investigação histórica é, inevitavelmente, uma reflexão sobre o presente. Quando analisa a peste de 1908, está também a pensar os mecanismos sociais do medo e da reação coletiva. Quando estuda o Carnaval angrense, interroga as relações entre cultura popular, estratificação social e mudança histórica. Quando regressa às origens da autonomia, convida implicitamente o leitor contemporâneo a perguntar se continua a compreender verdadeiramente o significado político dessa conquista.

É nesse momento que o livro deixa de ser apenas História para se transformar num exercício de cidadania.  Sem proclamações.  Sem doutrinas.  Sem militâncias.  Apenas para recordar que uma sociedade incapaz de compreender o modo como chegou ao presente dificilmente conseguirá decidir o seu futuro.

É por isso que Temas de História Açoriana – Volume II merece ser lido muito para além dos círculos académicos. Não apenas porque acrescenta conhecimento à historiografia açoriana, mas também porque restitui à própria História a sua função mais nobre: formar uma consciência crítica.

Num tempo em que a informação se tornou instantânea e a memória perigosamente breve, livros como estes lembram-nos de que nenhuma comunidade permanece livre apenas porque possui instituições. Permanece livre porque conserva a capacidade de interrogar o seu passado com rigor, serenidade e inteligência.

No fundo, a obra de Carlos Enes fala menos dos Açores de ontem do que da responsabilidade dos Açores de amanhã. Porque a autonomia não se esgota nas leis que a consagram nem nas celebrações que a evocam. Sobrevive, antes de mais, na qualidade da memória que cada geração é capaz de transmitir à seguinte. E poucos gestos são hoje tão necessários, e tão profundamente políticos como esse paciente trabalho de impedir que uma comunidade se torne estrangeira da sua própria história.

Diniz Borges

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