Quando as Mulheres Escrevem o Oceano

Ogygia: Revista Literária e a cartografia invisível de uma literatura que nasce das ilhas para o mundo

Nem todas as ilhas se levantam do mar. Algumas erguem-se da palavra. Existem porque alguém recusou deixar morrer uma memória, um silêncio ou uma voz. São territórios construídos com páginas em vez de pedra, com imaginação em vez de geografia, onde a língua portuguesa continua a descobrir novas margens para o seu próprio destino. É nesses lugares invisíveis, onde a literatura substitui as fronteiras e o pensamento se torna pátria suficiente, que nasceu Ogygia: Revista Literária.

O seu terceiro número, dedicado ao tema “Mágoas, Dores e outros Dissabores”, chega agora aos leitores como mais um porto nesta longa travessia da criação literária. Mas reduzir Ogygia à condição de revista seria esquecer aquilo que verdadeiramente representa. Ela é, antes de tudo, um encontro paciente entre mulheres que escrevem, investigam, criam e interrogam o mundo através da língua portuguesa, transformando a literatura num espaço onde a memória coletiva continua a respirar e onde o futuro encontra, discretamente, o seu primeiro esboço.

Publicada pela Moonwater Editions, com a Bruma Publications, do Portuguese Beyond Borders Institute da California State University, Fresno, a promover este magnífico projeto aqui nos EUA, Ogygia ocupa hoje um lugar singular no universo editorial lusófono. Concebida e coordenada por Paula de Sousa Lima, Vera Pires e Avelina da Silveira, distingue-se por uma escolha simultaneamente simples e profundamente transformadora: todas as contribuições literárias, ensaísticas, de investigação e artísticas pertencem exclusivamente a mulheres. Não se trata de erguer uma fronteira, mas de abrir uma janela; não de restringir a literatura, mas de ampliar o seu horizonte, oferecendo visibilidade a vozes cuja permanência sempre fez parte da história da língua portuguesa, embora nem sempre da história da sua consagração.

Existe uma delicada ironia nesta escolha. Durante séculos, o mar que moldou a história açoriana foi descrito, cartografado e interpretado sobretudo por homens — navegadores, cronistas, exploradores, historiadores. As mulheres habitaram muitas vezes esse mesmo oceano em silêncio, guardando memórias, sustentando famílias, preservando a língua e transmitindo culturas sem que o seu nome figurasse nas grandes narrativas. Hoje, são elas que devolvem ao Atlântico uma nova gramática. Escrevem-no não apenas como geografia, mas como consciência; não apenas como horizonte, mas como destino partilhado. Nas páginas de Ogygia, o oceano deixa de ser distância para se tornar linguagem.

Talvez por isso o próprio nome da revista encerre uma extraordinária força simbólica. Na tradição homérica, Ogygia era a ilha de Calipso, esse lugar suspenso entre o tempo e a eternidade, onde Ulisses permaneceu antes de retomar a sua viagem. Desde então, Ogygia passou a representar todos os lugares onde a memória resiste ao esquecimento e onde a espera se transforma em esperança. Também esta revista parece querer construir a sua própria ilha: um espaço onde as palavras sobrevivem à velocidade do nosso tempo, onde a literatura encontra abrigo contra o ruído do imediato e onde cada texto acrescenta uma nova latitude ao vasto mapa da língua portuguesa.

Essa fidelidade à permanência manifesta-se igualmente numa escolha editorial cada vez mais rara. Desde o primeiro número, as suas coordenadoras acreditaram que a cultura só cumpre plenamente a sua missão quando permanece acessível. Por isso, Ogygia continua disponível gratuitamente em formato digital, recusando transformar o conhecimento e a criação literária em privilégio de poucos. É um gesto profundamente democrático, mas também profundamente humanista. Afinal, uma língua cresce não quando se fecha sobre si própria, mas quando circula; não quando seleciona leitores, mas quando encontra novos leitores em cada ilha, em cada cidade, em cada comunidade da diáspora.

Ao mesmo tempo, ouvindo aqueles que continuam a acreditar no valor quase ritual do papel, nasce também a edição impressa. Disponível através da Amazon, cada exemplar é colocado à venda praticamente ao preço de custo, sem qualquer margem de lucro para a Moonwater Editions, para a Bruma Publications ou para as coordenadoras editoriais. Num mercado frequentemente dominado pela lógica comercial, esta decisão assume um significado quase ético. O livro permanece aquilo que sempre foi nas melhores tradições culturais: um objeto de encontro, de partilha e de permanência.

O terceiro número convida o leitor a percorrer um território simultaneamente íntimo e universal. “Mágoas, Dores e outros Dissabores” poderia sugerir um itinerário de tristeza; contudo, a verdadeira literatura nunca permanece na superfície do sofrimento. Ela desce às suas raízes para compreender aquilo que a experiência humana possui de mais profundo. As dores tornam-se conhecimento. As perdas convertem-se em memória. As cicatrizes deixam de ser apenas sinais do passado para se transformarem em lugares de revelação. Assim acontece ao longo destas páginas, onde cada autora oferece uma perspetiva singular sobre as fragilidades que, paradoxalmente, também nos tornam mais humanos.

Mais do que reunir textos, Ogygia reúne consciências. Aproxima escritoras das ilhas e da diáspora, investigadoras, artistas e leitoras, criando uma comunidade silenciosa unida por uma mesma confiança na palavra escrita. E talvez seja precisamente essa confiança que torna esta publicação tão singular. Num tempo em que a velocidade parece substituir a reflexão e a opinião instantânea ocupa o lugar do pensamento amadurecido, a revista recorda-nos que escrever continua a ser um ato de escuta, de contemplação e de responsabilidade.

Também por isso, a parceria entre a Moonwater Editions e a Bruma Publications assume um significado que ultrapassa largamente a publicação de uma revista. Ela simboliza a continuidade de uma ponte literária entre os Açores e a diáspora, demonstrando que o Atlântico nunca separou verdadeiramente aqueles que partilham uma língua, uma herança cultural e um profundo compromisso com a criação. As páginas de Ogygia percorrem esse oceano sem passaporte, aproximando leitoras e leitores dispersos por continentes diferentes, mas unidos por uma mesma geografia interior.

Cada novo número amplia essa cartografia invisível. Não apenas porque acrescenta novos textos à literatura contemporânea, mas porque ajuda a corrigir uma longa ausência na memória coletiva da nossa cultura. Durante demasiado tempo, muitas vozes femininas escreveram quase em surdina, como se a literatura lhes concedesse apenas pequenas margens de existência. Ogygia responde a esse silêncio não com reivindicação estridente, mas com aquilo que sempre transforma verdadeiramente a história: a excelência, a inteligência, a beleza e a persistência da criação.

Talvez seja essa a mais bela vocação desta revista. Não apenas publicar literatura, mas cuidar da própria língua portuguesa; não apenas divulgar escritoras, mas preservar um património espiritual que atravessa ilhas, países e gerações; não apenas editar páginas, mas oferecer um lugar onde o pensamento encontra tempo para florescer.

Porque as ilhas ensinaram-nos, desde sempre, uma verdade que o mundo tantas vezes esquece. O oceano nunca serviu apenas para separar terras. Também transporta livros. Também conduz ideias. Também aproxima destinos.

E quando são mulheres a escrever esse oceano, a língua portuguesa descobre, uma vez mais, que ainda existem horizontes por nomear e infinitas viagens por começar.

Eis o link:

https://pub.marq.com/OGYGIA3

Leave a Reply