
“Antes de nós morre o tempo”, escreveu um dia Montaigne. E com efeito, à medida que os anos passam, parece-nos que o tempo se vai encurtando. Daí que eu me lembre como se fosse agora o dia em que conheci Orlando Neves – e no entanto passaram já quarenta e tal anos…
Foi numa altura do tempo ameno, na primavera ou no início de verão, que recebi uma chamada telefónica do José Manuel Capêlo, poeta e editor que conhecera algum tempo atrás e me fazia saber que um confrade, “aliás de Portalegre”, tencionava visitar-me por esses dias: um de seu nome Orlando Neves, pessoa de variados interesses culturais de entre os quais avultava o de poeta de qualidade.
Passado um par de dias, com efeito, alguém me procurou no meu emprego dessa altura e se apresentou, dando-me logo de oferta simpática um livro de sua autoria – à guisa de cordial passaporte, digamos assim com apreço.
E, a partir daí, passámos a contactar sempre que ele se deslocava em diversos tratos à sua terra natal.
Vi sempre o Orlando como um confrade de muita estima, sensato e talentoso, com um senso de humor assinalável e judiciosamente atento ao seu interlocutor, que ele de pronto suscitara a dar-lhe colaboração para a revista a que estava ligado como figura fundamental – a “Sol XXI”.
Nas vezes em que cavaqueávamos, pude ficar sabendo que ele mostrava uma certa reserva em relação a certa gente e a certa entidade – que também me mostrara ser de facto gente muito duvidosa, para mais não dizer – com quem tivera um relacionamento muitíssimo pouco positivo.
Dizia Ernesto Sampaio em “A única real tradição viva” que “É esta a orla de um tempo onde todo o pensamento grande e rigoroso vai dar ao Inferno”. Noutro continente, por seu turno, referia Chesterton que “Todo o encadeamento de palavras leva ao êxtase, todos podem levar ao país das fadas”. É pois entre florestas e sombras inquietantes ou surpreendentes que se movem as vozes dos Poetas, uma vez que a razia social, se acaso consente a maravilha, muito mais desejaria essas vozes perenemente sob um sol negro de amargura. Nestes tempos do fim como lhes chamou André Coyné, a Poesia move-se com dificuldade e é deslocando-se entre Sila e Caribdis que a nave poética busca chegar a bom porto.
Não tenhamos ilusões: o Poeta que o é e não simples abonador de prestígios em verso para maior glória dos seus donos, tem sempre pela frente a insídia das horas do quotidiano policiado – mesmo sendo homem de paz – da intolerância social das aparelhagens sediadas nos polos onde a avidez, o interesse orientado, a mesquinhez, a corrupção judicial e a fraude pública ditam as suas leis.
Para os que persistem em opor aos desvigamentos sociais do dia-a-dia uma palavra alta e clara, já Gilbert Proteau nos esclareceu qual o destino mais provável: a corda, o punhal, o garrote, as difamações geralmente impunes, o calabouço e, nos casos mais suaves, a marginalização. Aos que acaso escapam, resta em geral uma vida de dificuldades que, entre nós, se cifra na “apagada e vil tristeza” dum mundo que não pode e não quer consentir a liberdade luminosa de ser-se “profeta e aedo num país onde só querem que haja lapuzes e vilões”, para citar Manuel Carreira Viana.
O autor com quem estamos a contas nunca se curvou a ditames que o tentavam submeter, a entidades que o desejavam curvado a noções que no fundo lhe eram alheias – porque provenientes da falta de carácter ou da assumpção de filosofias castradoras ou totalitárias. Foi sempre essencialmente um homem livre e liberto – e isso num lugar onde se estriba a falta de ética usa pagar-se caro.
O lirismo de Orlando Neve, separado – por uma brusca mutação interior – daquele que ainda hoje se expande em revoadas de folhas propiciadas por tanto vate de ocasião (ou, o que ainda é pior, por operadores de safada carreira cimentada por áulicos), aspirava à realidade, essa realidade outra em que as mãos, por exemplo, já não são objectos para prender os movimentos alheios mas sinal palpável de fraternal sabedoria alcançada, pomo finalmente liberto abrindo fulgores diferentes e mais autênticos.
Contra a quinquilharia que frequentemente fere o viajante, a sua poesia é susceptível de criar em quem a lê um apetite de melhor e menos banal. A sua adjectivação, que nunca bordeja as margens do efémero ou do destrambelhadamente pseudo-original, que nunca reside e se deixa cair na redundância pretensiosa mas é antes um sublinhar de adequadas iluminações, faz passar de estrofe para estrofe símbolos que extinguem a inutilidade das escritas que acatitam a leitura.
Dizia Étienne de Sénancour: “O homem é perecível; pode ser…Mas pereçamos resistindo e se, ao fim, o que nos espera é o vazio e o nada façamos com que isso seja uma injustiça”. A poesia de Orlando Neves, que permanece nos nossos ouvidos e na nossa cabeça muito depois de ser lida, ilustra de forma soberana como é possível lançar, aos deuses programados e programadores, o grande desafio dos que sabem ser e dar-se a si mesmos como penhor de que não foi em vão a passagem dum Poeta pelas planícies do tempo destroçado.
Até sempre, querido confrade e companheiro sem jaça!
Nicolau Saião
