A Pedra que Levita – Crónicas de Leonel Ventorim

O véu afastado entre o sonho e a realidade – a felicidade

Lembras-me um sonho lindo de aves pernaltas a passearem-se sobre a mesa da sala de refeições lembras-me o lamber de vidros de janelas em dias de espuma clara lembras-me os momentos em que se cega de felicidade e se tacteia nu de tanta certeza lembras-me uma mão a deslizar sobre uma folha de papel branca lembras-me um palácio perdido ainda por habitar lembras-me arrepios de pele feitos por violinos quando chovem no quintal mas também lembras-me dos antigos desejos agora em coma e de como existiu um pára-raios no lugar do coração lembras-me tanto do que foi e do que fui e tanto do que poderia ter sido ou do que poderei ainda vir a ser lembras-me que os gatos atravessam paredes e largam pêlos assim como os fantasmas largam ectoplasma à passagem lembras-me que sou um cavalo de fogo que ao cavalgar deixa rasto que arde. mas a questão é que existe um preço a pagar e tiro um cigarro, e acendo, e fumo – mas eu não fumo (ando distraído, as borboletas pousam-me no rosto e nem dou por isso), mas tu fumas, certo? fumarás mentiras umas atrás das outras puxando até ao fim para te satisfazes de mentiras com filtro e depois com a boca seca cuspir no prato onde comeste e no cinzeiro onde fumaste nas noites em que tiveste medo de estar sozinha e esticaste o braço sabendo que estava alguém do outro lado do espelho, alguém que o atravessou a direito e o inverteu para que te visses como eras de verdade e sentisses o calor da compreensão e cumplicidade, e sentiste, e deste de ti é verdade, mas aqueles momentos que marcaram ou irão marcar a minha a tua a nossa possível futura história, aqueles momentos únicos e intransmissíveis, porventura não serão respeitados como alicerces que são pois esfumam-se em ti como os círculos de fumo que fazes com a boca enquanto serpentes sobem-te pelas pernas e eu viro os olhos e corro, corro para mim sabendo-me presente nos dois lados do espelho. embaciaste-te sozinha (quase sempre se embaciam), já não me vejo reflectido estou entre o passado e o futuro, confuso. com quem estou a falar? sei que tenho um preço a pagar por ser genuíno e ter o sol a arder por dentro, lembro-te um sonho lindo, eu sei acabaste de fumar, mas, arderás nua dentro do espelho? este que seguro na mão enquanto estou à janela com vista para a cidade e tento adivinhar a sua idade camada sobre camada como é o nosso corpo feito. agora deito-me, ao teu lado. abraças-me. lembras-me um sonho lindo e tudo eu fausto contigo.

Leonel Ventorim, Junho de 2026

Se possível, Leonel Ventorim escreve de tudo: de romance a horóscopo, de teatro a bula farmacêutica, de poesia a epitáfio, de jornalismo a boletim meteorológico. Gosta de espécies literárias em perigo de extinção tal como a crítica de teatro, a qual practica actualmente. Tem cerca de duzentas gravatas, dois gatos, gosta de gelado de chocolate e pistáchio, e é torcedor do Botafogo

Leave a Reply