
Num Outro “Regresso” A Casa
Mares imensos águas sem fim/antes de um porto a oeste.
Vasco Pereira da Costa, O Fogo Oculto
Nos trinta e três poemas que compõem O Fogo Oculto, de Vasco Pereira da Costa, são poucos os que não se seguram nas palavras “ilhas”, “mar”, “mareante”, água”, “porto” “baía”. Como diria um qualquer novo crítico, atenção à repetição de palavras, expressões ou leitmotivs, muito provavelmente denotam as significações que mais interessam no interior do poema, carregam temáticas e imagísticas que da fragmentação dos versos fazem um todo, um “livro”. Tira o poeta da ilha mas ilha não sai do poeta? Poderá ser. Há qualquer coisa quase genésica, atávica, na concentração da humanidade em pequenos e cercados espaços. Uma falecida escritora americana sulista, Eudora Welty, dizia que era mais fácil observar toda a humanidade em pequenas comunidades, como que, digamo-lo de outro modo, numa ratoeira que prende mas não mata. Outros grandes escritores do Ocidente recorreram frequentemente a esse recurso geográfico ilhéu para construir ou inventar utopias e distopias. A ilha que esboço (onde sempre renasço/fica na redondez do mundo/infindo/onde me prefiguro e me recorto), reafirma o poeta em “Lição de Montaigne”. O mundo todo é também aqui, relembremos — sem tirar nem pôr. Só os provincianos, só os que nunca viveram prolongadamente noutras partes continentais não sabem nem reconhecem este simples facto. Eis a nossa “universal” contingência: nem se pode regressar a casa nem se pode fugir ao passado. Existe o presente e o futuro, e depois existe a saudade. A viagem é perpétua para todos, nem vale a pena falar aqui de Ítaca, de epopeias ou anti-epopeias. Se as nossas naus não afundam, regressam sempre ao cais de origem, nem que seja só para tomarmos consciência de que somos daqui como de toda a parte. Só que ninguém escapa, repita-se, à sua própria memória.

Toda a obra de Vasco Pereira da Costa aponta nesse sentido, está resumida até nos seus títulos. O simbolismo na melhor poesia açoriana sempre recorreu ao lugar e aos fenómenos da nossa Natureza como imagística e metáfora da vida interior de cada poeta, e O Fogo Oculto perpetua esse formalismo no qual cada verso contém em si o visível e o invisível, toda evidência existencial de que é feita a narrativa da vida aqui reinventada ou fingida, memorializada. Se o poeta naturalmente é o centro dessa memória que reconstrói a sua caminhada de vida e pela vida, a sua voz não deixa de convocar esses lugares e sobretudo todos os que agora se tornam “personagens” na reconstituição de um mundo perdido ou, pelo menos, esquecido. A poesia pode ser tanto um acto narcísico como generoso ou de comunhão. A dor do intelectual ou poeta fechado na sua redoma já deu alguma bela literatura nos primórdios da modernidade, mas a ausência total de um outro a quem o leitor se aproxima num acto de pertença identitária depressa nos faz esquecê-la. Será na criação de mundos e memórias partilhadas, na historicidade comum, que procuramos esse espelho em que toda arte é contemplada e nos contempla: Meu avô traz nas mãos suadas/um sol maduro/colhido para que eu leia o meu destino de mar/-que ele quer fecundo. Tal como eventualmente no “regresso”, cita o poeta num outro passo que diz ser da partida das nossas origens que se inicia a viagem em busca de outros mundos e gente. É na descoberta desse espaço que Vasco Pereira da Costa continua a encontrar os que lhe lembram o passado, outra vida, outros sonhos. É do seu ser mais íntimo e escondido de que fala o poeta, de que nos fala; ao redizer-se, rediz-nos pelos chamamentos a sítios e eventos de imediato reconhecíveis que se desenrolaram em palcos que nos são comuns, sinalizados em códigos simbolistas que universalizam toda a sua experiência e, uma vez mais, a nossa memória colectiva.

O Fogo Oculto vem na sequência de my californian friends/poemas, cuja primeira edição saiu em 2001. Numa, para mim, inesquecível entrevista a Vasco Pereira da Costa, perguntaram-lhe numa rádio local quando é que poderíamos ter o prazer de ler esse livro “em português”, quando é que seria “traduzido”. Foi um momento hilariante mas muito demonstrativo de como alguns “lêem” entre nós, de como alguns depois comentam veementemente o que nunca leram. Tivesse o entrevistador pelo menos folheado o livro, verificaria que só o título vinha em inglês. A questão aqui, no entanto, é outra, mas o que aí fica dito terá algum significado. O poeta, nascido em Angra do Heroísmo, reside em Coimbra desde os anos da faculdade. Se alguma dessa vivência continental portuguesa encontra uma ou outra expressão na sua prosa e poesia, o certo é que o seu “regresso” tem sido constante, e não só às ilhas. O seu contacto e intervenção literária na nossa Diáspora norte-americana influenciaram decididamente toda a sua obra destes últimos anos. Em my californian friends (reeditado numa edição bilingue em 2009), esse exercício poético não é sobre o lugar mas sim sobre si próprio, olhando-nos no contexto de um passado partilhado que tem a ilha como centro indelével de partida e chegada. São as figuras encontradas ora ocasionalmente ora procuradas nos rituais comunitários que lhe despertam outras memórias, as que marcam vidas e sortes individuais ou colectivas. As dedicatórias de alguns desses poemas são de igual modo um gesto de aproximação afectiva. Não sei se o presente volume encerra um ciclo de escrita, mas o tom da sua linguagem quase nos leva a crer que sim. Se for esse o caso, Vasco Pereira da Costa já construiu um cânone literário pessoal que espelha as andanças que mais o “definem”, e que nos devolvem múltiplas imagens e memórias dispersas em geografias que tanto nos são estranhas como nos são pátrias, pela nossa força e vontade adquiridas.
Muita da nossa literatura parte da ilha para o exterior, mas outra tanta, como O Fogo Oculto, parte do exterior para a ilha em revisitações que constituem uma narrativa completa. Perguntam-me onde nasci/-Numa ilha, por cima do mundo, diz o breve poema de abertura, “Certidão”; Não pode a ilha ser o limite, encerra o último, “O Fogo Oculto”. Os imaginários da literatura portuguesa em geral nunca estiveram limitados nem pela geografia nem pela história num pequeno mas disperso e diversificado país como o nosso. Se a caminhada histórica lusa, por outro lado, teve sempre o mundo inteiro como destino, a nossa literatura teria de ser, como é desde Camões e Fernão Mendes Pinto à presente geração muitos séculos depois, uma das mais universais e de cenários humanos mistos e abrangentes. Estamos numa tradição quase sem paralelo na Europa, para além da Grã-Bretanha, e, mesmo comparada com esta, sem os seus constrangimentos ou chauvinismos de toda a ordem que levaram à criação já na nossa época de uma literatura pós-colonial que essencialmente tem sido uma “resposta” ao racismo e à difamação que aquele outro imperialismo lançou sobre esses seus outros súbditos.
Vasco Pereira da Costa pertence a um rol de escritores oriundos dos Açores que, nos nossos dias, melhor têm retratado ou transfigurado a nossa experiência pluri-continental a partir da sua mundividência e simbologia atlântica. A poesia de O Fogo Oculto, na sua indisfarçada melancolia da ilha, é acima de tudo um íntimo testemunho de si e do seu tempo, mas também outro vigoroso registo e celebração dessa nossa sorte colectiva.
____________________
Vasco Pereira da Costa, O Fogo Oculto, Vila Nova de Gaia, Calendário de Letras, 2011.
Vamberto Freitas, crítico literário
Filamentos (artes e letras na diáspora açoriana) tem enorme prazer em republicar estes textos de Vamberto Freitas, o crítico literário português que tem escrito consistentemente sobre a criatividade nos Açores e na diáspora ao longo dos últimos 40 anos. Vamberto Freitas sempre soube destacar novos autores açorianos, novas vozes, novas linguagens, assim como os da nossa diáspora. Desde sempre, Vamberto Fretias destacou escritores emergentes em ambas as margens do Atlântico. A sua escrita sempre foi, e acreditamos que sempre será, marcada por travesias entre todas as vozes, dos clássicos aos contemporâneos das literaturas açoriana, portuguesa, lusófona, americana e universal.
