No Dia Mundial da Língua Portuguesa: Uma Língua, Muitos Mundos – Conceição Lima (São Tomé e Príncipe)

FRAGMENTOS POÉTICOS

Após o ardor da reconquista
não caíram manás sobre os nossos campos

E na dura travessia do deserto
aprendemos que a terra prometida era aqui

Ainda aqui e sempre aqui.
Duas ilhas indómitas a desbravar.
O padrão a ser erguido
pela nudez insepulta dos nossos punhos.

Emergiremos do canto
como do chão emerge o milho jovem
e nus, inteiros recuperaremos
a transparência do tempo inicial
Puros reabitaremos o poema e a claridade
para que a palavra amanheça e o sonho não se perca.

I

Transitório é este tempo que te divide
sem o saberes
transitórias as águas, os tambores quebrados
transitória a noite que à noite sucede
sem te veres

Transitória a pálida bruma a
ocultar-te de ti
transitório o silêncio ocupando espaços
além da tua boca

transitórias as pedras amargas desaguando
sem licença no litoral da aurora, transitória
a angústia das palavras ensanguentadas em tuas mãos.
Obstinado peregrino quem te acompanha além de ti?
Emissário de rios esquecidos quem te ouve?
Oh, surdas são as ondas deste mar
suspenso
entre os teus dedos e o teu sonho

II

Mas quem és sobre as horas caminhando?
Quem és lançando fúrias no deserto?
Quem és sobre a morte morrendo?
Sobre a morte erguendo quem és?

III

Pássaro de penas rotas e cintilantes
libertando na noite o tempo cativo
revolves as horas os magros celeiros
fustigas tremente o rosto dos meses
a cólera é teu argumento
o porvir teu fundamento.
À força de viver
na vida entraste
à força de sonhar criaste o sonho
tu és a voz do próprio sonho
lavrador teimoso de um tempo sem pomar

(… …)

Moldar os dias dos frutos maduros
este é teu projecto iniciado e longo
o barro da razão que te forjou
a substância pura que te ligou à vida

quando aprendeste os segredos da noite
e penetraste as trevas como espada fulgurante

Tuas mãos tingem já de púrpura a noite
o crepúsculo é o instante supremo a claridade

Quem fará recuar o tempo anunciado
por tambores e águas
noite a noite sem cessar?

Afroinsularidade

Deixaram nas ilhas um legado
de híbridas palavras e tétricas plantações

engenhos enferrujados proas sem alento
nomes sonoros aristocráticos
e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

Aqui aportaram vindos do Norte
por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:
navegadores e piratas
negreiros ladrões contrabandistas
simples homens
rebeldes proscritos também
e infantes judeus
tão tenros que feneceram
como espigas queimadas

Nas naus trouxeram
bússolas quinquilharias sementes
plantas experimentais amarguras atrozes
um padrão de pedra pálido como o trigo
e outras cargas sem sonhos nem raízes
porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso
todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas

E nas roças ficaram pegadas vivas
como cicatrizes — cada cafeeiro respira agora um
escravo morto.

E nas ilhas ficaram
incisivas arrogantes estátuas nas esquinas
cento e tal igrejas e capelas
para mil quilómetros quadrados
e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.
E ficou a cadência palaciana da ússua
o aroma do alho e do zêtê d’óchi
no tempi e na ubaga téla
e no calulu o louro misturado ao óleo de palma
e o perfume do alecrim
e do mlajincon nos quintais dos luchans

E aos relógios insulares se fundiram
os espectros — ferramentas do império
numa estrutura de ambíguas claridades
e seculares condimentos
santos padroeiros e fortalezas derrubadas
vinhos baratos e auroras partilhadas

Às vezes penso em suas lívidas ossadas
seus cabelos podres na orla do mar
Aqui, neste fragmento de África
onde, virado para o Sul,
um verbo amanhece alto
como uma dolorosa bandeira.

A casa

Aqui projectei a minha casa:
alta, perpétua, de pedra e claridade.
O basalto negro, poros
viria da Mesquita.
Do Riboque o barro vermelho
da cor dos ibiscos
para o telhado.

Enorme era a janela e de vidro
que a sala exigia um certo ar de praça.
O quintal era plano, redondo
sem tranca nos caminhos.

Sobre os escombros da cidade morta
projectei a minha casa
recortada contra o mar.
Aqui.
Sonho ainda o pilar –
uma rectidão de torre, de altar.
Ouço murmúrios de barcos
na varanda azul.
E reinvento em cada rosto fio
a fio

as linhas inacabadas do projecto

– Conceição Lima, no livro “O útero da casa”. Lisboa: Editorial Caminho, 2004.

A mão

Toma o ventre da terra
e planta no pedaço que te cabe
esta raiz enxertada de epitáfios.

Não seja tua lágrima a maldição
que seqüestra o ímpeto do grão
levanta do pó a nudez dos ossos,
a estilhaçada mão
e semeia

girassóis ou sinos, não importa
se agora uma gota anuncia
o latente odor dos tomateiros

a viva hora dos teus dedos.

– Conceição Lima, no livro “A dolorosa raiz do micondó”. São Paulo: Geração Editorial, 2012.

In: https://contosdobaitasar.blogspot.com/2020/05/poesia-africana-conceicao-lima-sao-tome.html

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