No Dia Mundial da Língua Portuguesa: Uma Língua, Muitos Mundos – Abdulai Silá (Guiné-Bissau)

UM MUNDO TÃO DIFERENTE…

— Senhora, quer criado?

Ela repetira esta frase já não sabia quantas vezes naquele dia. Uma pergunta imbuída de esperança, que colocara em muitas casas e a diversas pessoas. Até parecia que a origem das pessoas que a atendiam era determinada pela altura do sol: no início, quando o sol se encontrava lá embaixo, ainda mansinho, ela fora atendida quase sempre por jovens brancos, provavelmente filhos das senhoras brancas a quem de facto queria dirigir a fala; depois o sol subira, tornando-se bravo, agitando as pessoas as coisas, e então, durante todo aquele período, fora atendida por gente que certamente não habitava aquelas casas, uns empregados domésticos que apesar de serem, na quase totalidade dos casos, da sua raça, nem por isso se dignavam ouvi-la, deixá-la explicar direito as suas pretensões; enfim, o sol se acalmara de novo, o seu deixar de correr por todo o corpo e eis que finalmente ela localiza uma interlocutora condigna, uma senhora branca que habitava uma casa grande, que até parecia estar à sua espera.

— Senhora, quer criado?

Esta era uma das frases da língua dos brancos que aprendera quando decidira ir para Bissau arranjar trabalho, trabalho de criado, numa casa qualquer de brancos. A ideia nascera num dia em que para ela se tornara inesquecível, depois de um longo diálogo com uma das madrastas. Essa madrasta, a mais nova das quatro mulheres do seu pai, exercera a profissão durante alguns anos em Bissau. Trabalhara para uma senhora branca, mulher de um comerciante branco muito rico, que tinha lojas em Bissau, Nova Lamego, Teixeira Pinto, Aldeia Formosa e muitos outros locais. Ela falara da vida dos brancos, dos seus hábitos, do bem-estar, do conforto… “Quem me dera ter metade do que eles têm” tinha ela dito um dia, antes de lhe confessar, com amargura na voz e no rosto, o que imaginava ser uma profunda convicção sua: “É um mundo muito diferente disto!”. Ela ficara o resto do dia a imaginar onde podia estar tal diferença. Quando à noite chegou e ela foi para a cama, ainda lutava com essa interrogação. Acabou sonhando consigo mesma instalada numa casa grande, toda pintada de branco, com muitos criados à volta prontos a servi-la, dispostos a obedecer a todas as suas ordens. Ficou sem saber se foi a estranha sensação de prazer provocada por esse sonho ou se foi a emoção transmitida pelas palavras da madrasta que a levou a tomar aquela decisão. Fosse como fosse, o certo é que, a partir daquele dia, ela começara a ver as coisas de uma maneira diferente, qualquer coisa estranha instigava-a a rejeitar a vida que levava na sua tabanca e movia-a impetuosamente à procura do mundo dos brancos que, disso estava também convencida, era muito diferente daquele que tinham dito ser o seu. Foi certamente essa coisa estranha, que não lhe dera sossego a partir daquele dia, que a ajudara a suportar os vexames por que passara ao longo do dia e a enfrentar sem abalo a fadiga, a fome e a sede que ameaçavam fazê-la sabotar a sua iniciativa. Essa coisa estranha que a ajudara a escapar ao cobrador do autocarro de São Cuta que a levara de Biombo para Bissau, iria agora ajudá-la a achar aquilo que tanto queria. A prova disso estava ali à sua frente: uma senhora branca que olhava atentamente para ela.

— Senhora, quer criado?

Ela tinha preparado minuciosamente a viagem. Ninguém sabia de nada em Biombo. Ninguém, a não ser a sua madrasta amiga. Com ela aprendera aquela frase que estava repetindo vezes sem conta e outras julgadas de muita utilidade. Decorara tudo e aprendera inclusive algumas regras de comportamento que os patrões brancos exigiam dos criados pretos, maneiras próprias de responder, gestos indicadores de obediência e de submissão. Olhou para a senhora branca que, com uma mangueira na mão, continuava regando as flores que plantara no espaço que separava a casa do muro. Viu como ela segurava firme a mangueira e se preocupava em fazer a água abraçar o caule dos arbustos e descer vagarosamente até às raízes. Era um trabalho que, a seguir ao outro, um trabalho feito com atenção, que a obrigava a ficar muito tempo de pé, segurando a mangueira com todo o cuidado a fim de acertar no alvo e controlar em cada momento a quantidade de água a fazer chegar a cada plantinha. Um trabalho moroso. Não, aquele não era trabalho para senhora! Era um trabalho para criado fazer. “Quer dizer que ela não tem criado?”, concluiu no mesmo momento em que surgia na sua face uma expressão de alegria. Finalmente iria conseguir…

— Senhora, quer criado? Hm?

A senhora virou-se para ela e os seus olhares cruzaram por um instante. Lembrou-se naquele momento de um dos ensinamentos da madrasta, que tinha dito que o criado nunca deve olhar o patrão no rosto quando este olha para o criado. Por isso ela baixou rapidamente o olhar, ampliando inocentemente a expressão de alegria. Mas esta também não durou muito. Foi repentinamente substituída por uma outra, fruto de uma mistura de surpresa e indignação. O acto de água que a apanhou na altura do peito provocou uma reacção inesperada na rapariga que, colada ao portão, esperava tudo menos aquela atitude da mulher branca, que de repente deixara de fazer o trabalho que estava fazendo, de regar plantas, para regar a ela, que só queria ser criada. A rapariga deu passos indecisos, afastando-se do portão. Sacudiu as gotas de água que insistiam em penetrar no embrulho onde tinha algumas peças de roupa nova que trouxera consigo e que lhe tinham sido oferecidas pela madrasta. Roupa de indígena o patrão branco não gosta, tinha ela dito naquele dia que parecia agora tão longínquo. Voltou a fitar a senhora e constatou com uma certa surpresa que esta continuava o seu trabalho como se nada tivesse acontecido. Ficou boquiaberta ao olhar para a senhora e a pensar no sucedido. Mas será que acontecera alguma coisa de maior? Sim ou não? O comportamento da senhora dizia que não; ela ia fazendo o seu trabalho com o mesmo empenho, com a mesma perícia, com o mesmo ar. O facto de ela a ter molhado deve ter sido uma atitude talvez normal entre os brancos, uma reacção que ocorre provavelmente sempre que se vê pela primeira vez uma rapariga desconhecida colada ao portão quando se regam plantas. Lembrou-se de a madrasta ter dito uma vez que os brancos tinham uma afeição especial por essas coisinhas coloridas e frágeis a que chamam flor, que vendem muito caro, algumas delas parecidas com badiá, mas que não serviam para nada, não davam sequer para comer. Levou algum tempo a raciocinar, a ver se lembrava de mais alguma coisa que a madrasta tivesse dito sobre o comportamento dos brancos em relação às flores. Não, não havia nada. A falha de todos os trabalhos que o patrão branco pede ao criado preto a fazer, mas nunca lhe tinha falado da regra de flores plantadas à frente da casa. O patrão dela era comerciante muito rico… no entanto devia ter a casa sem flores! Será que comerciante branco rico não gosta mesmo de flores? O homem daquela senhora que tinha à frente não devia ser comerciante, portanto. Pobre? Não, branco pobre não existe. Ou, mas que raciocínio bruto! Então podia haver algum dia algum branco pobre ainda por cima a morar numa casa tão grande, tão bonita? Uma casa que se parecia com aquela com que sonhara naquele dia em que a madrasta lhe falara da vida dos brancos. Uma casa onde devia ser muito agradável morar, tão agradável como a sensação que tivera naquela noite de sonho. E ainda por cima com aquelas flores à frente, que a senhora plantara e de que ela iria agora passar a cuidar com muito carinho…

— Senhora, eu…

— Não!

A senhora falara alto, num tom autoritário. Com os olhos a brilhar de uma maneira muito estranha, ela fitava a rapariga que, do outro lado do portão, mantinha o embrulho de roupa apertado contra o peito. Dir-se-ia tratar-se de uma estátua, não fosse o seu pestanejar acelerado que tinha areia metida nos olhos. Volvidos poucos instantes, e numa atitude que parecia desafiar a intenção maliciosa que transparecia do olhar da senhora, a rapariga aproximou-se outra vez do portão, sempre com as mãos cruzadas sobre o peito, abraçando o seu embrulho de roupa de civlizado. Ficou colada ao portão, esperando que a senhora lhe dirigisse a mangueira e a molhasse todinha, pés à cabeça. Logo que tal sucedesse, iria encontrar uma forma de dizer à senhora que ela podia muito bem fazer todo aquele trabalho que ela estava fazendo, que também sabia lavar roupa, limpar o chão e que até aprendera a preparar alguns pratos de peixe e carne e canja de maneira como os brancos gostam, com vinagre e alho, mas sem malagueta. Esperava que depois de fazer a senhora entender isso, ela lhe abriria o portão e a conduziria para o interior da casa, daquela bela casa onde esperava muito rapidamente poder descobrir o que fazia o mundo dos brancos tão diferente…

Excerto do livro: A Última Tragédia

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