Catedrais de Leite e Sol: Anthony Barcellos e o Romance Épico dos Açorianos na Califórnia por Diniz Borges

A literatura étnica é a cartografia da alma. Nasce onde a geografia se cruza com a memória — onde a travessia de um povo se transforma num coro de palavras. Cada comunidade que atravessa o oceano leva consigo uma biblioteca invisível: canções de partida, provérbios de resistência, silêncios moldados pelo exílio. Quando essas histórias encontram voz numa nova terra, não se limitam a descrever uma experiência — ampliam o mundo.

Para comunidades diaspóricas como a portuguesa, maioritariamente (95%) açoriana, do Vale de São Joaquim na Califórnia, a literatura torna-se espelho e ponte — um modo de recordar quem fomos e de dialogar com o mundo que nos rodeia. Dá forma a uma identidade plural, simultaneamente insular e continental, enraizada na terra ancestral, mas nutrida pela luz americana. No jardim multicultural de uma nação como os Estados Unidos, essa escrita não é periférica; é essencial. Enriquece a República das Letras com novos timbres, idiomas e afetos, lembrando à sociedade em geral que a verdadeira democracia é a do verbo — o direito de existir através da palavra.

E para a pátria — sobretudo uma terra como os Açores, nascida do vento e da água — esta continuidade de narrativas através da diáspora é, simultaneamente, tempo de regresso e de renovação. O imaginário açoriano sempre foi oral, ondulante, mítico. As suas histórias, como as ilhas, emergem do mar e a ele regressam, ecoando os ritmos da sobrevivência e a metafísica da saudade. Ver essa tradição continuar no exílio é testemunhar o próprio oceano a reescrever-se em outras margens. Assim, quando um escritor luso-americano como Anthony Barcellos constrói um romance a partir do zoado dos tratores, das discussões familiares e da gramática suave da saudade, faz mais do que narrar — prolonga um ato civilizacional. Junta-se à longa procissão de contadores de histórias insulares que acreditaram que narrar é resistir e que dar voz é existir.

Neste contexto, existem livros que não se escrevem — lavram-se. Land of Milk and Money (Terra de Leite e Dinheiro), de Anthony Barcellos, é um desses livros: cresce como a alfafa nas terras áridas e irrigadas do Vale de São Joaquim, na Califórnia. Não é apenas a crónica de uma família, mas o testamento de um povo — os emigrantes açorianos que, atravessando o Atlântico, criaram novas ilhas de pertença no coração ocidental da América. No ritmo das suas frases, na melancolia dos seus silêncios, Anthony Barcellos capta o paradoxo da diáspora: a necessidade de deixar a terra natal para a poder preservar. O romance abre-se com um tribunal e encerra-se com uma bênção, movendo-se entre a linguagem da lei e a sintaxe silenciosa da saudade.

Como escreveu Vamberto Freitas, trata-se de “uma visão artística magnífica e abrangente da chegada de mãos vazias ao Novo Mundo e do subsequente triunfo e queda de um povo açoriano que — sem falar uma palavra de inglês — construiu, ao longo do Vale de São Joaquim, alguns dos mais sólidos impérios agrícolas.” A América de Barcellos é uma terra de contradições — de leite e de dinheiro, de fé e de fadiga, de herança e de perda.

Anthony Barcellos constrói o seu romance como outrora construiu a sua casa na árvore — corda a corda, nó a nó. O tempo dobra-se e desdobra-se em capítulos de tribunal e recordações de infância, como se a própria memória fosse o enredo. No centro, ergue-se o patriarca Chico Francisco, mito fundador desta saga: um homem que acredita que “a água é uma promessa à espera de ser cumprida.” Ao seu lado, Teresa, a matriarca, é a bússola moral e a guardiã da palavra. É o seu testamento — literal e simbólico — que desencadeia o conflito familiar. Os filhos, Cândido (Candy), pragmático e ambicioso, e Paulinho, reflexivo e ético, encarnam a dialética da vida emigrante: o choque entre o trabalho e o pensamento, entre o êxito e a serenidade.

Vamberto Freitas reconhece nesta luta “um retrato universal da ganância e do amor fingido, uma reinterpretação quase bíblica do mais antigo dos temas humanos — irmão contra irmão, clã contra clã.” Através dessa fratura doméstica, Barcellos desenha o mapa moral da diáspora: o que sucede quando o sonho da abundância eclipsa a memória da fome.

Julian Silva, pioneiro da ficção luso-americana, viu em Land of Milk and Money a continuação do caminho que ele próprio abrira: uma literatura da pertença e da transformação. Vamberto Freitas chama estes três livros — The Gunnysack Castle, de Silva; Saudade, de Katherine Vaz; e o romance de Barcellos — “a grande trilogia da vida açor-californiana moderna.” Para ambos, o Vale Central é um arquipélago transplantado, onde a memória ganha raízes em novo solo. Silva observou um dia em que “as vacarias dos nossos pais eram catedrais de resistência; os seus campos, um ato de oração.” Barcellos prolonga esse legado, mostrando como a ligação à terra pode, simultaneamente, unir e cegar: a fidelidade feroz da família Francisco à terra e ao sangue sustenta-a e destrói-a. Como nas personagens de Silva, também aqui se vive entre a gratidão e a dor. São seres que pertencem ao “entre-lugar”, onde a identidade está sempre a ser traduzida.

No centro desta geografia moral ergue-se Paul Francisco, neto de Chico — o intelectual, o dissidente, o herdeiro da saudade. Freitas descreve-o como “o neto mais criativo e emocionalmente rebelde dos fundadores”, dotado de “acuidade observacional e conhecimento do mundo exterior”.” Por meio dos seus olhos, o leitor vê tanto a beleza quanto a banalidade do legado imigrante. A decisão de Paul de abandonar a vacaria para se tornar professor universitário simboliza a passagem do trabalho físico para a cultura do pensamento. Mas ele nunca escapa à força gravitacional das origens. “Olha o seu passado com saudade, mas já pertence a outra América”, escreve Freitas. Paul é a ponte entre o arado e a caneta, entre a vacaria e o verbo — a consciência moral do romance e, por extensão, da experiência luso-americana.

Se a estrutura do romance revela o engenho de Barcellos, os diálogos revelam o seu génio. As conversas respiram como organismos vivos — ora ternas, ora impacientes, ora cruas e humoradas. Ao captar o ritmo da fala luso-americana do Vale Central, o autor alcança algo raríssimo na ficção étnica: diálogos que soam verdadeiros e, ao mesmo tempo, poéticos. As trocas familiares, as ironias de festa, as discussões no tribunal têm o timbre da vida real, onde o riso e a ferida partilham a mesma frase.

Nisso, Barcellos aproxima-se dos grandes estilistas americanos. Como Ernest Hemingway, entende que o silêncio também é linguagem; como F. Scott Fitzgerald, sabe que a conversa é a moeda emocional de uma sociedade; e, como John Steinbeck, transforma a fala quotidiana em música moral. Mas há também ecos de mestres portugueses. Nos Açores, Álamo Oliveira, em Já Não Gosto de Chocolates, atinge o mesmo prodígio — transformar a fala comum num espelho da consciência. E em Miguel Torga, o médico e poeta das serras, encontramos o mesmo instinto ético: camponeses e pastores que falam como quem reza. Tal como eles, Barcellos converte o diálogo em revelação — um sacramento da linguagem.

Por isso, o seu romance pertence a duas tradições simultaneamente: o realismo claro da prosa americana e o humanismo lírico da literatura lusófona. Sustentar, ao longo de centenas de páginas, esta autenticidade bilíngue de tom e ritmo é uma proeza rara — um feito que torna Land of Milk and Money tanto arte quanto antropologia.

Vamberto Freitas compara-o a Steinbeck, sublinhando que “Steinbeck, o primeiro a ficcionalizar a vitalidade do campo mecanizado da Califórnia, não teria desdenhado esta narrativa…teria provavelmente visto nela a continuação do que ele próprio fundara.” De facto, Barcellos prolonga a visão de Steinbeck e inscreve nela uma nova dimensão: a do imigrante açoriano, que transforma a sobrevivência em pertença e a pertença em legado. A Califórnia de Barcellos não é mítica — é moral. O Vale de São Joaquim é o palco onde a prosperidade se cruza com a nostalgia, onde cada documento legal esconde uma prece esquecida.

Como conclui Vamberto Freitas, Land of Milk and Money é “outro grande romance da saga açoriana na América do Norte.” É literatura e é arquivo — um livro que regista o que o esquecimento ameaçava apagar. Julian Silva e Barcellos erguem, juntos, as colunas gêmeas do cânone luso-americano: captam a ternura do apego, a dor da herança, a ética da identidade. Lembram-nos que a terra que cultivamos também nos cultiva — e que, em cada acre, em cada testamento, em cada ceia de família, o passado continua a sussurrar frases inacabadas.

No final, o romance deixa no leitor uma vibração persistente — o riso que rompe a fadiga, o zumbido da memória misturado ao das máquinas de ordenha. Termina, como nota Vamberto Freitas, “com uma gargalhada que diz tudo: a continuidade e a inevitável rutura do nosso passado e presente.” Esse riso é o som da sobrevivência — o hino açor-californiano que ecoa há mais de um século e meio pelas planícies da Califórnia.

E, no vasto panorama da literatura étnica e multicultural californiana, Land of Milk and Money ergue-se como espelho e alicerce. Pertence ao lado de The Grapes of Wrath, de Steinbeck; The Woman Warrior, de Maxine Hong Kingston; Under the Feet of Jesus, de Helena María Viramontes, e The Joy Luck Club, de Amy Tan — obras que mapeiam as geografias interiores da migração, do trabalho, da fé e da família. O Vale de Anthony Barcellos é o coração moral da Califórnia: nele, o arado torna-se caneta e a vacaria transforma-se em catedral de memória. O seu romance afirma que a experiência açor-californiana não é mera nota de rodapé na história do Estado Dourado, mas um dos seus capítulos vitais — escrito em leite, luz e saudade.

Anthony Barcellos deixou-nos, após uma curta doença, no verão de 2024, aos 73 anos.  E deixou outra obra, que, na realidade, antecede esta.  Esse seu livro, com o título em inglês “Count Me Out”, acaba de ser publicado nos Estados Unidos e, em breve, falaremos dele. 

No fim, Land of Milk and Money é um ato luminoso de restituição — um romance que lavra o silêncio e o converte em canto, devolvendo à literatura californiana a voz açoriana que nela sempre habitou. Como a água que corre pelos canais do vale, a prosa de Barcellos transporta reflexão e renascimento. Recorda-nos que a verdadeira riqueza de uma terra não está na colheita, mas na humanidade; e que as histórias dos que um dia chegaram sem nada são hoje a música duradoura da pertença.

Diniz Borges (texto publicado originalmente no jornal Atlântico Expresso)

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