
Os Guarda-Redes Morrem ao Domingo (que reúne 11 contos, 11 crónicas e 11 poemas, Padrões Culturais, 2002) é, até ver, a sua opus magnum.
Ele chama-se José do Carmo Francisco, foi bancário de profissão e é a afirmação inequívoca de uma verdadeira vocação de escritor. O seu nome está indissociavelmente ligado ao jornalismo (desportivo e cultural), à poesia, à crónica, ao conto, à biografia, à antologia e ao suplementarismo.
Cronista do tempo que passa, este autor acabo de dar à estampa a 3ª edição de A Pátria da Chuva (On y va, 2026), que reúne um conjunto de 70 crónicas que foram publicadas no jornal “Correio do Ribatejo”, nesse que é um ato de contínua e continuada comunicação e de cumplicidade com o leitor. Agora reunidas, estas narrativas conhecem uma outra consistência, uma outra unidade e uma nova respiração.
“A minha fábrica das crónicas quase que não se vê, mas existe; é uma mesa na pastelaria onde uma equipa de gente correcta, competente e cordial me atende todos os dias”. (pág. 14).
Estas crónicas são um espelho do quotidiano. Crónicas do instante que vão ao encontro de situações singulares que se inscrevem no que é a própria vivência escrita de José do Carmo Francisco. São narrativas de memórias soltas, leves e breves (“short and sweet” diria eu se a tradição anglo-saxónica fosse para aqui chamada), isto é, pedaços de episódios saídos do dia a dia que suscitam dúvidas e perplexidades ao autor, que escreve precisamente para captar essas dúvidas e essas perplexidades, e para tentar compreendê-las como uma espécie de confronto.
Com marcas de grande afetividade e revelando capacidade de evocação, José do Carmo Francisco fala-nos, pois, de vivências e experiências, de acontecimentos e lugares que fazem parte do seu imaginário. Cada texto é uma viagem íntima que é a fixação de quanto a observação do cronista soube captar no seu contacto direto com as coisas que o rodeiam e com as pessoas que ele, com amor e admiração, celebra e homenageia: familiares, amigos, poetas, escritores, jornalistas e até jogadores de futebol… (Há quem o apelide de “o poeta da bola”). Mas é também o modo como o autor, sentado à mesa de um café, invoca e convoca sensações e sentimentos que ficaram enraizados na sua memória.
Há poesia na prosa de José do Carmo Francisco, ele que é poeta de agudíssima sensibilidade e apreciáveis recursos sensoriais, revelando uma manifesta competência para a redondilha maior. Há nele a linguagem que canta: o elemento vocal e sonoro das palavras, a musicalidade de vogais abertas e as tónicas muito certeiras.
Apraz-me essa poesia da serenidade, sem artifícios e sem desvios, com grande poder de irradiação e encantamento. Leiam-se, a propósito, os quatro livrinhos de poesia que se apresentam de forma artesanal, como se de uma espécie de literatura de cordel se tratasse: As Casas de Blackheath Park e outros poemas (apenas, 2018), 40 Poemas Periféricos (apenas, 2019), Musa a ouvir Verdes Anos e outos poemas (apenas, 2019) e Rosa Luz e outros poemas (apenas, 2019).
Catarinense das Caldas da Rainha, este autor é de há muito um grande amigo dos Açores, pois que colabora regularmente com alguma imprensa escrita e falada destas ilhas, sendo presença assídua nestes “Filamentos”.
Há que continuar a abrir alas a este plantador de palavras.
Horta, 27/04/2026
Victor Rui Dores, poeta, romancista e dramaturgo.
Nota da direção dos Filamentos: O cronista, poeta, e ficcionista José do Carmo Francisco é um dos nossos colaboradores, com uma generosidade infinita. Tem-nos brindado com poesia, crónicas e notas de leitura e tem trazido para este diálogo cultural entre o mundo português e a diáspora uma amálgama de talentos, na poesia, na crónica e no ensaio. A nossa eterna gratidão a José do Carmo Francisco.
