
Adolfo Ferreira de Loureiro (Coimbra, São Bartolomeu, 12 de Dezembro de 1836 — Lisboa, 22 de Novembro de 1911), militar, escritor, poeta, político e, sobretudo, engenheiro, esteve nos Açores em algum momento não posterior a 1898. Não visitou as Flores e o Corvo (acontecia muito, infelizmente), mas nem por isso deixou de referir estas ilhas numa conferência que deu na Associação dos Engenheiros Civis Portugueses (que mais tarde se transformaria na Ordem dos Engenheiros). A conferência foi publicada em 1898, provavelmente no final do ano, na forma de um pequeno livro, e creio que terá sido dada, na Associação, pouco tempo antes da sua publicação. A data exacta da sua vinda aos Açores não é conhecida, mas imagino que tenha vindo ainda em 1898, ou talvez em 1897. É interessante ler o que ele escreveu sobre as Flores e o Corvo, e que reproduzo mais abaixo. Não nos tendo chegado a visitar, Ferreira de Loureiro baseou-se em informações dadas pelo seu colega Cordeiro de Sousa.
Quanto a Cordeiro de Sousa é também uma interessante figura. Aliás, para as Flores, Cordeiro de Sousa é mais interessante que o próprio Ferreira de Loureiro, sendo uma figura relevante, embora creio que esquecida, para o pouco desenvolvimento que, apesar de tudo, houve por então na ilha das Flores.
José Maria Cordeiro de Sousa era um «engenheiro naval», ou melhor, um engenheiro de portos. Não consegui encontrar muito sobre a sua vida, senão que era irmão do famoso Luciano Cordeiro, fundador da Carris, cujo nome foi dado a uma das ruas de Lisboa que liga o Campo dos Mártires da Pátria à Avenida Duque de Loulé.
A 20 de Janeiro de 1897, o jornal Portugal, Madeira e Açores (publicado em Lisboa), ano 13, n.º 587, página 3, anuncia a partida de Cordeiro de Sousa de Lisboa, no vapor Funchal, com destino a São Miguel. Poucos dias mais tarde, a 30 de Janeiro de 1897, o jornal Gazeta da Relação (de Ponta Delgada), ano 29, n.º 4493, página 2, explica a razão da sua vinda para os Açores: o então chefe de secção de fiscalização do Porto de Lisboa havia sido nomeado como director das obras no porto artificial de Ponta Delgada. Durante o período em que esteve nos Açores, que não terá sido muito longo, Cordeiro de Sousa colaborou com Afonso Chaves: a 30 de Dezembro de 1897, o jornal O Preto no Branco (publicado em Ponta Delgada), ano 2, n.º 105, página 2, refere-se a José Maria Cordeiro de Sousa como «Director das Obras do nosso Porto artificial», dizendo que, à falta de marégrafo, havia realizado ele próprio, a intervalos regulares, medições das alturas das marés, medições essas que oferecera ao capitão Francisco Afonso Chaves. O seu trabalho no porto de Ponta Delgada terá terminado por meados do ano seguinte, pois em 5 de Julho de 1898 o jornal Portugal, Madeira e Açores, ano 14, n.º 657, página 2, diz que «No ministerio das obras publicas entrou o projecto de conclusão das obras do porto artificial de Ponta Delgada, com todas as plantas e perfis desenhados, caderno de encargos, orçamento, série de preços, medição, etc.» e que «acompanha o projecto um circumstanciado relatorio sobre o assumpto, trabalho primoroso do director das obras, o engenheiro sr. José Maria Cordeiro de Sousa». Terá então sido colocado como director interino das obras públicas a cargo da Junta Geral do Distrito de Angra do Heroísmo, conforme notícia saída a 13 de Julho de 1898 no jornal A União, ano 5, n.º 1363, página 2. Embora não fosse da sua jurisdição, calculo que tenha sido após essa nomeação que tenha visitado a ilha das Flores (então parte do distrito da Horta). Ou talvez tenha sido antes. O que é certo é que não se limitou a passar ao seu colega Adolfo Ferreira de Loureiro a informação sobre as Flores relevante sob o ponto de vista das obras públicas: não esqueceu as Flores e os problemas que aqui detectou, lutou por ela, e obteve mesmo algumas vitórias importantes para a ilha, nomeadamente no Porto Velho de Santa Cruz. Veja-se o que diz, a 5 de Novembro de 1903, o Portugal, Madeira e Açores, ano 20, n.º 914, página 2:
Pharolim das Flores
Disse o nosso collega O Seculo, que no dia 1 do corrente seria inaugurado o pharolim no Porto Velho, na ilha das Flores.
Esqueceu-se, porém, dizer que aquelle pequeno ou grande melhoramento, foi da iniciativa do benemerito filho de aquella ilha, o nosso fallecido amigo sr. dr. Theophilo Ferreira, que ha 12 annos o sollicitara ao governo. A morte prematura d’este illustre florentino, que tão desinteressadamente advogava os melhoramentos da sua terra, deu em resultado a lanterna do pharolim ir parar ao deposito das obras publicas e lá se ter conservado até agora.
O illustre engenheiro sr. Cordeiro de Sousa conseguiu então do governo que para a montagem do dito pharol fosse destinada a verba precisa. A elle, pois, devem os florentinos este serviço, bem como a verba para a obra da muralha do mesmo porto, para o que tanto se tem empenhado sua ex.ª, desde a sua visita a ilha das Flores.
Foi por essa occasião que o chefe de secção das obras publicas sr. Fernando de Mendonça o informou da existencia do pharolim, que ali se encontrava ao abandono.
São serviços que é sempre bom saber-se a quem se devem. O seu a seu dono.»
Antes de passarmos ao texto de Adolfo Ferreira de Loureiro, só um esclarecimento adicional. O Sr. Miguel Henriques referido no texto como possível autor do projecto do porto do Boqueirão, nas Flores, é o autor de uma famosa Planta da Ilha das Flores gravada na Horta a 23 de Março de 1866 pelo Conductor de 4.ª Classe Urbano Augusto Cesar da Fonsêca. Miguel Henriques (1818-1885) era então Major no Corpo de Engenharia. É autor de projectos relacionados com o Porto da Horta que se encontram, tal como a planta das Flores, na Biblioteca Nacional.
Flores e Corvo, de Adolfo Ferreira de Loureiro
Ás duas ilhas mais afastadas para o occidente, as Flores e o Corvo, não tive occasião de ir. Todavia, por informações que me forneceu o nosso collega Cordeiro de Sousa, posso dizer que essas duas interessantes ilhas, assim como são as mais distantes do continente europeu, e como que as sentinellas avançadas das nossas possessões atlânticas, assim também, e talvez por isso mesmo, são as que mais esquecidas têem andado na partilha dos melhoramentos materiaes que a toda a parte têem chegado, apesar de mais próximas do continente americano, que nas innovações e nas conquistas da civilisação e do progresso tem tomado o passo ás nações do velho mundo.
Com effeito, pelo que diz respeito a estradas, por exemplo, ha na ilha das Flores só duas estudadas, a do litoral e a central. Os estudos da primeira, que mede 66 kilómetros de extensão, datam de 1884, e d’esta estrada estão construidos 7:500 metros e 6:500 metros em construcção, havendo um lanço em que os trabalhos foram suspensos ha onze annos e outro ha cinco ou seis, tendo no primeiro sido construidos só 800 metros e no segundo 3 kilómetros.
A segunda, que não mede mais de 14 kilómetros, foi começada ha vinte annos, faltando para a concluir uns 3:800 metros, que são de grande necessidade para a ilha, mas cujos trabalhos estão suspensos.
O Corvo, a pobre ilha, desprovida de todos os melhoramentos, não tem um palmo de estrada e vive ainda como nos tempos primitivos, sendo por atalhos e veredas que se serve a população activa, trabalhadora e simples.
Pelo que diz respeito a obras maritimas, não estão melhor servidas as duas ilhas.
Na villa de Santa Cruz das Flores ha um caes, quasi sempre utilisado quando o mar o permitte, apesar de um pouco distante do fundeadouro dos vapores. Chega-se a elle passando por entre pedras, que offerecem algum risco.
Por um projecto, datado de 1 de fevereiro de 1883, procurou melhorar-se o porto com um pequeno molhe e um lanço de muralha com escadas, projecto que não teve andamento, apesar do orçamento ser só de 3:125$000 réis .
A muralha existente foi começada em 1872. Em 1883 desabou uma parte d’ella, cuja reparação, orçada em 6:620$000 réis, moeda fraca, não está concluida, correndo-se o risco de perder-se o que está feito, e de que tudo seja destruido pelo mar. O orçamento supplementar d’este trabalho, na importancia de 6:235$000 réis fracos, e datado de 5 de maio de 1894, não foi ainda approvado, nem se sabe que destino teve.
O caes do Boqueirão, que fica afastado da villa e em uma pequena bahia funda e abrigada, tem um varadouro talhado na rocha, de dimensões acanhadas, e cujo projecto julgo ser do sr. Miguel Henriques. Este caes, que no emtanto custou muito caro, pouco serviço presta á villa, sendo só utilisavel em mar tranquillo, e ainda assim em más condições.
Na ilha do Corvo chamam Porto das Casas a uma praia de calhau, que fica em frente do fundeadouro do Açor, e que não se presta ao serviço pelos grandes calhaus que formam a costa e pelo rolo de mar que sobre ella se encapella e quebra. Tem, pois, quem pretender desembarcar no Corvo, de seguir a costa e dobrar a ponta próxima , alem da qual se faz o desembarque no Porto Novo, uma outra praia de calhaus rolados, mas pequenos. Entre estes dois portos, no sitio do Boqueirão e em uma rocha batida pelo mar, foram abertos uns degraus onde ás vezes se desembarca, quando a marezia não permitte atracar ao Porto Novo.
No sitio denominado Sargacinho estabeleceu-se em tempo uma rampa de varadouro, cujo projecto de 3 de outubro de 1889 não me consta tivesse andamento algum. Ainda ha outro caes, o da Areia , que julgo não ser melhor do que os outros.
Quanto a melhoramentos de outra especie, quasi nada!
Mesmo para a satisfação da necessidade a mais impreterível da vida, a agua potável, a única povoação da ilha do Corvo, a antiga Villa Nova, só possue uma miserável fonte, que em 1889 se quiz melhorar, mas que não se sabe o destino que teve o respectivo projecto.
Deve esperar-se que chegue um dia a estas pobres ilhas a vez de serem devidamente attendidas, e o estabelecimento nas Flores de um observatorio meteorológico [desaparecido há não muito tempo], a ligação d’esta ilha com a Europa pelo cabo telegraphico [que não veio, o primeiro cabo, em fibra óptica, só chegou mais de um século depois], e a satisfação de outras necessidades de primeira ordem, abrirão uma nova era para aquellas abandonadas ilhas.
