A Poesia só morrerá quando morrer o último homem — entrevista de Emanuel Bento a João Filipe Pestana do DN-Madeira.

Emanuel Bento, o lançamento do seu novo livro de poesia ‘As pedras que escondem o dentro’ já tem uma data e um local definidos?

O novo livro “as pedras que escondem o dentro”, novamente lançado pela “Fraternitas”, uma editora madeirense e, desde já, o meu agradecimento ao editor, Sandro Abreu, pelo sua perseverança, qualidade e confiança, sobretudo por nunca abdicar do projecto em si, ligado ao EIPOEMA (Encontro Internacional de Poesia da Macaronésia – cujo grande e primordial mentor foi e é o ex-secretário regional do Turismo e Cultura, João Carlos Abreu), que cria aproximações e, por conseguinte, recorda o  “common ground” existente  entre os quatro arquipélagos (Madeira, Açores, Canárias, Cabo Verde) que tanto em comum partilham, apesar de, tantas vezes,  política e socialmente, parecer que assim não é e que estamos todos numa deriva individual, sem rumo conjunto, o que é bizarro, não só pelas circunstâncias de partilharmos origens comuns, mas também porque somos mais de 3 milhões de pessoas insulares e, muitas mais, se juntarmos às respectivas diásporas, será lançado, no Centro de Estudos de História do Atlântico , no dia 11 de Dezembro pelas 18:00.

Pode levantar um pouco o véu sobre o evento e o que pretende que o público encontre nesse momento?

Tive o privilégio e a honra de o primeiro livro, “Apenas o Largo Silêncio”, lançado em 2024, no Museu de Imprensa em Câmara de Lobos, terra materna e de nascimento (meu), ter sido apresentado pelo Magnífico Reitor da UMa, Sílvio Fernandes. Desta feita e mantendo a “ligação académica”, por ter sido aluno da UMa. O que muito me orgulha e, por ter perfeita consciência da importância nacional, regional, política, social, educacional, não esquecendo nunca a parte do saber e as oportunidades e  outras mais-valias que a UMa cria – seriamos uma Região muito mais pobre sem a universidade, a todos os níveis – “as pedras que escondem o dentro” será apresentado pela professora-doutora, da Universidade da Madeira, Ana Isabel da Silva Ferreira Moniz, o que, novamente, muito me orgulha e honra. Não só pela sua competência e  percurso académico, mas também por ser, desta feita, uma voz feminina. Quanto ao que se pretende, além de que corra tudo bem e que haja casa cheia, é que seja um momento festivo, de convívio e partilha, porque a poesia, mesmo que dura e no osso, não tem que ser um momento depressivo. Antes pelo contrário. A  seriedade, a  reflexão sobre o mundo e a condição humana, não proíbem a diversão e muito menos a busca de comunhão nesse espírito mais alegre.  E em tudo, relembrando Mark Twain, tal como o excesso de sabão, também o excesso de cultura mata.

Há algum tema, imagem ou pulsão central que atravessa estes novos poemas?

Há quem diga que andamos sempre a reescrever o mesmo livro. Ou seja, como disse Aragon (não o da trilogia do Lord of the Rings), “tout le monde imite, tout le monde ne le dit pas”. A verdade é que há sempre arquétipos e o mito do herói/anti-herói (este uma construção muito mais moderna). Não é por acaso que Borges na sua inesquecível “A Biblioteca de Babel” fala de um lugar que contém todos os livros possíveis e, se assim é, esse lugar contem até os livros ainda por nascer, bem como, pensando bem, todos os homens, os mortos e os vivos, o que me leva a uma ideia que sempre tive que somos todos, afinal, o mesmo homem. Por outro lado, há a teoria da intertextualidade pós-moderna  em que andamos todos numa repetição de citações de um lado para outro, ao que se juntam ainda os grandes temas universais e, muito honestamente, creio que este novo livro tem de tudo isso um pouco, inclusivamente sobre o peso da própria linguagem, da palavra “itself” e do que significa, tal como do corpo, da carne que o constitui – a civilização e a sociedade às vezes esquecem-se disso: que sempre somos carne e osso e que aquela se rasga e sangra e este quebra e, tanto uma como outro, doem.

Como foi o processo de ordenação e composição do livro?

Tenho um considerável espólio. Mais de mil e duzentos poemas ainda por publicar, mas, neste livro, além de ser composto por mais poemas face ao anterior, optei pela escolha de vários, em considerável número, mais recentes, mesmo deste ano que passou. Poderia dizer que foi uma escolha aleatória e até irónica. Na faculdade, diziam os alunos que mais parecia que alguns professores davam notas jogando os testes ao ar e que os caiam, num lado, eram bons, no outro, maus. As histórias e estórias (inclusive os ditos mitos urbanos) sempre são uma excelente matéria literária. Mas não foi o caso. Procurei dar mais fôlego ao que escolhi. Também mais força. E até, nalguns casos e dentro do possível, alguma ousadia com palavras que nem sempre se usam em poesia porque a poesia, mais do que ideias, é, antes de mais, palavras e cada uma delas tem a sua própria música. Aliás, qualquer um de nós tem a sua música, o seu ritmo. Também procurei que este livro tivesse poemas mais longos, mesmo sabendo que, não raras vezes, essa escolha dificulta a leitura e compreensão, em particular no verso branco/livre. Mas foi um risco necessário. Como em tudo na vida, “trial and error”. Realço ainda a belíssima fotografia de capa de autoria do Gregório Cunha (Ponta Delgada vista do Miradouro da Quinta, em São Jorge, numa homenagem ao meu pai, que era da Ponta Delgada, terra que amo particularmente,. sendo que a foto do primeiro foi de Câmara de Lobos, neste caso homenageando minha mãe.

 Num contexto em que a atenção é fragmentada e os ritmos são acelerados, que lugar acha que a poesia ainda ocupa?

Os factos falam por si e são indesmentíveis. Lê-se hoje menos poesia. Vende-se hoje menos poesia. Mesmos o Prémio Nobel tem sempre grande dificuldade em premiar os poetas, por mais extraordinários que sejam e não há país no mundo que não os tenha tido. Mas sempre se vai escrevendo e sempre se vai lendo, por mais que vivamos na ditadura das redes sociais onde, “grosso modo”, reina a idiotice e o analfabetismo, pelo menos intelectual (mais ainda no nosso caso em que passamos para o mundo digital sem ter havido a necessária consolidação da importância dos livros e das bibliotecas, fruto do que foi o país e do clericalismo de sacristia que sempre reinou). Dou o sempre o exemplo do que aconteceu com o Covid. Então quase todo o mundo usava as redes sociais para as idiotices do costume, sem grande substância e referências e, quando a pandemia começou, de repente acordamos e vivíamos num extraordinário mundo  que desconhecíamos: de oito mil milhões de cientistas e médicos : Este registo dos que tudo sabem, cada vez mais radicalizado e tribalizado, dos que são incapazes de dialogar ou de ler o que realmente vale a pena, continua, ainda assim quero crer que a poesia, “a mais antiga e nobre das artes”, só morrerá quando morrer o último homem, o que acontecerá, naturalmente, um dia. Até lá, só conheço um caminho, o de continuar a ver, observar, viver, pensar, sentir, o mundo e as pessoas, escrevendo sempre, só assim é que é possível manter a sua posição fundamental na cultura e história dos homens e do próprio mundo.

Sente que escrever poesia hoje é um risco, uma resistência ou uma necessidade? Diz-se que escrever poesia pode ser tão arriscado hoje como um desporto radical…

Essa é, sem qualquer dúvida, uma pergunta extremamente pertinente, para a qual, para não ser juiz em causa própria, prefiro responder com estas duas ideias de Herberto Helder, de que há quem brilhe no escuro e de haver quem prefira tocar e sentir as cicatrizes no escudo, a ter ramos de ouro. Por norma nunca falo do que escrevo, isto é, não interpreto o que escrevo nem por que razão o faço, apenas escrevo. Quem quiser ler e souber ler que leia e tire as suas conclusões mas concluo com esta ideia do bardo inglês: num mundo de bajuladores e de interesseiros, quase sempre injusto e cruel para a generalidade dos seres humanos, precisamos porventura de ser um pouco loucos  e corajosos para verdadeiramente se sobreviver ou tão simplesmente para se escrever.

Alguma vez sentiu vontade de experimentar outros géneros literários, como o conto, romance, ensaio? Que forma teria a sua escrita num desses territórios?

Há muito que fiz um opção plena e consciente pela poesia, por mais démodé que isso seja. Ademais a poesia não vende por aí além nem dá dinheiro a quem a escreve. Basta ver o que tanto se escreve e tanto se vende. Espreme-se todas aquelas fantasias tão em voga e o sumo é pouco ou nenhum. Mas a escrever outros géneros diria que as crónicas e os contos também sempre me fascinaram e que, porventura, um dia, poderei fazer esse caminho ainda que, para já, não esteja nos planos.

O que o motiva, hoje, a escrever poemas? É uma prática de observação, de memória, de resistência interior?

É tudo isso e mais ainda. Não é nem nunca será a imortalidade que não existe, até porque tudo acaba ou acabará, mesmo para aqueles que são tremendos no que escrevem, até para esses um dia a fama “post-mortem” também se esvaziará. Tudo e todos sempre contados estivemos. Mas escrever é estar vivo, pensar e sentir, reflectir o que somos e o que nos rodeia. Uma prova e pulsão de vida. Um “eros” grego, muito mais amplo e complexo do que o erotismo barato e gratuito dos nossos dias. Uma negação – transitória – do “thanatos”.

Começou a sua vida profissional na comunicação social, tendo inclusive trabalhado no DIÁRIO alguns anos, além de ter sido vice-presidente da Direcção Regional do Sindicato de Jornalistas. Que memórias guarda do jornalismo?

Foi muito importante para mim por todas as razões e mais algumas. Mais não seja por me ter permitido aprimorar a arte e a capacidade da escrita, conhecer muita gente e sobretudo muito melhor a minha própria terra e as suas pessoas. Tenho muito orgulho de ter sido jornalista e sindicalista e até de ter contribuído, enquanto vice-presidente para a idealização, organização e realização de um curso do CENJOR, na Região,, integralmente financiando e que permitiu a muitos de nós, então jornalistas, começar com uma visão mais multimédia e digital da informação.

Como foram estes 20 anos na assessoria institucional e política, inicialmente à esquerda e agora à direita? De que maneira essa experiência moldou o seu olhar sobre o mundo e, inevitavelmente, a sua poesia?

É verdade. Da esquerda para a direita. Poderia citar Churchill sobre essas transições, mas não sou muito amigo de citações e menos ainda de me armar aos cucos com elas. Para uns serei certamente um traidor, para outros um renegado ou um “cristão-novo” (que é o que todos somos, se bem pensarmos), mas certamente haverá alguma competência da minha parte no que faço, já que em nada da vida fui escolhido pela cor dos meus olhos, ainda assim e, com toda a honestidade, confesso que essa passagem aconteceu na hora certa. E ainda bem que assim aconteceu. Tive essa felicidade e de haver pessoas que confiaram em mim para que isso acontecesse e que continuam a confiar em mim e no trabalho, dedicação e profissionalismo, que coloco no que faço. Por outro lado, sem qualquer dúvida, que houve uma transformação na forma como vejo o mundo e isso tem sempre repercussões no que escrevemos, pelo menos aparentemente.

In Diário de Notícias-Madeira

Fotos do lançamento do livro

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