A memória do vivido e do sentido em Cantata e outros poemas errantes, de Vasco Pereira da Costa, por Víctor Rui Dores.

Deus é uma impura partícula de matéria escura/ deambulando na impudente energia/ que arregoa as galáxias da poesia.” (pág. 11)

Poeta de agudíssima sensibilidade e de apreciáveis recursos sensoriais, pesquisador subtil de realidades visíveis e invisíveis, Vasco Pereira da Costa soma e segue. Cantata e outros poemas errantes (Letras Lavadas Edições, 2025) é o seu mais recente livro, onde o grão da voz do poeta se faz ouvir no elemento vocal, sonoro e cantabile das palavras (ele que é herdeiro de uma tradição oral), digo, na musicalidade das vogais abertas, nas tónicas sempre certeiras e na prosódia cuidada:

As naus das minhas mãos corsárias / singram as angras cálidas das tuas ancas.” (pág. 60)

Rico em espessura evocativa, este é um livro de impressões, itinerâncias, vibrações, memórias soltas e partilhados afetos. Fora da sua ilha, o poeta a ela regressa pelos retroativos da memória. Ele carrega a ilha perdida e mitificada, fazendo dela a casa, o espaço primordial, imagético e afetivo, isto é, a lembrança indelével de lugares, coisas e pessoas que ficaram enraizados no seu imaginário. Por exemplo, algumas figuras castiças da Terceira, sua ilha natal: Zé da Lata,  Leonço, Jaquim das Horas, Marieta, Ti Doninha, Melra Preta, ou Francisco Borges.

Ao longo das 100 páginas da obra, o sujeito poético fixa emoções, sensações e estados de alma. Mas sem cair nas malhas de um certo impressionismo contemplativo da paisagem insular, pois que esta é uma poética que, partindo da ilha, deambula por vários espaços geográficos (de Angra do Heroísmo a Alexandria; da serra de Santa Bárbara à planície de Cistene) sempre em busca de horizontes universais.

Por isso mesmo, este é um livro que dialoga com diferentes universos literários  (de Camões a Álvaro de Campos; de José Régio a Blaise Pascal; de Vitorino Nemésio a Vinícius de Moraes; de António Pedro Pita a Nuno Costa Santos), universos musicais (Gershwin, Miles Davies, Paderewski), universos filosóficos (Engels, Spinoza, Nietzche, Marcuse) e universos pictóricos (Botticelli, Bosch, Hokusai).

Desconstruindo mitos e divindades (nesta matéria, é de antologia o poema 17., págs. 45 a 48), o poeta combate a simplificação hipócrita da vida, buscando decifrar o enigma dos dias. Para tal, e porque está preocupado com o destino do homem no palco do mundo, denuncia as verdades ilusórias e renuncia às máscaras de um quotidiano alienante. E faz do poema o lugar de um confronto, traduzido na inquirição do real.

Cantata e outros poemas errantes remete-nos para uma modernidade enxertada na seiva da tradição.  Estamos perante uma poesia ligada às raízes comunitárias ancestrais da expressão poética no horizonte da cultura europeia, isto é, uma poesia mitológica e helénica  da civilização do sul, da luz, da emoção e da razão.

Em poemas bem urdidos e carpinteirados, Vasco Pereira da Costa fala, ainda e sempre, da integridade viva do real, da sua essência infinita e concreta que o assombra, habita, fascina, comove e renova. Refira-se que, quer na ficção quer na poesia, ele sempre assumiu um compromisso de paixão para com a escrita, lapidando as palavras exatas e essenciais, nelas buscando os ritmos e as pulsações, os silêncios e as sonoridades. O que talvez bastasse para provar, se necessário fosse, que estamos perante uma das vozes mais significativas no âmbito da melhor poesia portuguesa.

                 Victor Rui Dores, poeta

Leave a comment