
Estava eu (que fui amigo do Poeta) a tentar digerir muito devagar, com grande raiva e a mais profunda tristeza a terrível decepção que foi verificar a destruição dos poemas de J.H. Santos Barros (1946-1983) no livro «Alexandrina, como era» na colecção «Plural» da Imprensa Nacional/Casa da Moeda quando leio na mais recente Revista Ler (nº 152 Inverno/Primavera 2019) uma notícia sobre o mesmo livro com o título de «Fazer versos dói» e uma entrevista com o responsável da Imprensa Nacional/Casa da Moeda.
Por um lado o título da notícia da Revista Ler castiga o autor da recolha indicando o título mais abrangente e espécie de «testamento poético» deste autor e chamando a atenção para o poema mais emblemático de J.H. Santos Barros – tão emblemático que está incluído na antologia «O Trabalho – Antologia Poética» editado pelo S.B.S.I. em 1985 com organização de Armando Cerqueira, Joaquim Pessoa e José do Carmo Francisco. Claro que esta antologia não é sequer referida na bibliografia desta obra reunida de J.H. Santos Barros, tal como nada se diz da outra antologia «O Desporto na Poesia Portuguesa» de 1989.
Mas Victor Rui Dores e António Lobo Antunes referem esse poema nas páginas 486 e 6 deste livro. Por outro lado, a entrevista com o responsável da INCM tenta justificar o aborto ortográfico de agora com o que se passou em 1911. Dito de outra maneira – tenta justificar um erro crasso em 2011 com a memória de outro erro crasso em 1911. No meio disto tudo, temos uma obra poética torpedeada, obliterada e destruída pela aplicação pura e dura do aborto ortográfico, ainda mais aplicada a poemas de um autor que felizmente para ele não viveu esses tempos tenebrosos. Um vómito – enfim. E sem castigo como todos os grandes crimes.
Crónicas do Tejo 185
José do Carmo Francisco, escritor
Errata:
Nova série retratos 88
O erro
No passado dia 9 de Setembro de 2025 publiquei no «Filamentos (artes letras)» um texto com o título de «Fazer versos dói ou o tractor de J.H. Santos Barros». Nele cometi um erro pois em vez de escrever «autor» deveria ter escrito «editor». Foi o editor do livro «Alexandrina, como era» que chamou «Prefácio» a um texto de 33 linhas assinado por António Lobo Antunes. Foi o editor que não viu a diferença entre Gil Reis (página 9) e Gil Garcia na lista de obras de J.H. Santos Barros. Ou David Mestres na página 11 por David Mestre. Foi o editor que escolheu o título «Alexandrina, como era» em vez de «Fazer versos dói» que é uma arte poética completa enquanto o anterior é um poema dedicado a uma tia do poeta. Foi o editor que acrescentou ao título «Todos os poemas» quando o «Pranto para Angra do Heroísmo» publicado no Jornal «Açores» de 17-1-1980 não aparece na edição. Foi o editor que sancionou o uso da palavra trator em vez de tractor na página 22. Foi o editor que fez o absurdo de um decreto-lei ter efeitos retroactivos. O chamado «AO90» foi aplicado nesta edição de modo a alterar palavras que no tempo em que foram publicadas eram escritas de outra maneira. J.H. Santos Barros (1946-1983) não viveu os tempos tenebrosos do aborto ortográfico mas os seus poemas foram castigados sem dó nem piedade. A questão central é que a Literatura está implicada na Geografia; na Europa escreve-se de uma maneira, na América do Sul escreve-se de outra. Basta ver uma recente edição de Erskine Caldwell (1903-1987) do livro «All night long») na qual o editor Leonardo Freitas respeita a versão brasileira de Vera de Gusmão onde surgem palavras ou expressões como estrada de ferro, hitlerista, tcheco, polonês, caminhão, fuzis, inspetor, moça, Moscou, roça, coletiva, chícara, cachorra, ajudar-lhe, trator, você, faze, úmida, rastro e serraria. Nem nos manuais das máquinas de lavar é possível a uniformidade quanto mais em Literatura… Os caminhos são paralelos. Há outro Mundo, outro Continente, outra Latitude. É tudo diferente, as palavras também. NB- Peço desculpa pelo meu erro a Urbano Bettencourt e aos leitores de Filamentos (artes e letras).
José do Carmo Francisco


