Daqui e dali, agora e antes IV por Paula de Sousa Lima

Viagem à outra margem do mundo – Marrocos

                                                                           

É perto, ali logo a um pulinho de Algeciras, basta apanhar o ferry. Mas Algeciras fica em Espanha, e Espanha é vizinha de Portugal continental, não da minha ilha. Logo, antes do pulinho, apanha-se o avião, este meio de transporte utilitário e prosaico, alheio a qualquer élan romântico e que não evoca particularmente a mágica palavra aventura – a não ser para quem, como nós, ilhéus, sabe que a aventura, seja ela o que for, começa quando as asas de metal se estiram sobre as nuvens.

Portanto, apanhámos o avião, depois fizemos viagem de carro até Algeciras, daí a Ceuta foi o tal pulinho de ferry – barcaça que lembra um bicho anafado imerso em águas aquietadas, dir-se-ia que pelo seu peso. No bojo do bicho ia o carro, ao lado de outros, todos em direção ao exotismo de Marrocos. E na amurada íamos nós, sem saber se rumávamos para Sul ou para Norte, por via da opacidade de uma névoa táctil, cuja cerração se fazia de enormidade absoluta – nem a nossa ilha se afunda em tal imensidão de bruma. Para Sul rumávamos, naturalmente, para o Sul onde sempre habitam a calidez, a estranheza, o exotismo – à espera de quem, como nós, seja capaz de lhes entregar os sentidos.

Mas sair do ferry não trouxe deslumbramento algum, não fez estremecer os sentidos. Desembarcámos em Ceuta, e Ceuta não é Marrocos – não cheira a Marrocos, não tem cor de Marrocos; tem a Zara e o McDonald’s. Que desilusão. Para a deixarmos ali sossegada, sem nos perturbar, fizemos o carro andar até transpor a fronteira. Era necessário, imperioso, entrar em Marrocos – para isso tínhamos passaportes, e estes garantiam-nos que o calor nos agulharia a pele, que odores intensos nos passeariam pelas fossas nasais, que cores exóticas se nos ofereceriam aos olhos.

A estrada era já diferente das que a Europa ostenta, largas e limpas e asséticas. De Ceuta à fronteira, o pó levantava-se ao rodar dos pneus do carro – Marrocos, aqui vamos nós, para longe da civilização aprumada da Europa. E vimos uma cáfila – até que enfim o substantivo coletivo decorado nos bancos da escola primária tinha corpo, vários corpos, obviamente, vários e tal os havíamos visto em fotografias e programas de televisão, mas ao vivo, e isso faz toda a diferença. Marrocos foi Marrocos a partir daí, do momento em que vimos a cáfila.

Logo a seguir, a fronteira. Não estávamos preparados para o que foi passar a fronteira, ninguém está. É outro o mundo que se abre à nossa frente, onde se entra depois de a fila de carros avançar ao centímetro, e os guardas dizerem: attendez um petit peu, attendez. Não foi um pouco, muito menos um pouco pequeno, foi muito tempo, com janelas ora abertas, pois o calor dentro do carro começava a falar do Marrocos real, ora fechadas, pois a poeira falava igualmente desse país tão longínquo da Europa, conquanto a um pulinho de Algeciras. Notámos que os carros eram quase todos modelos antigos, com marcas do tempo e de viagens não se sabe donde nem até onde. Poucos seriam os visitantes – aqueles eram carros de gente que fora a Ceuta fazer compras e voltava.

Percebemos isso ao ver os homens e as mulheres que não tinham carro e que passavam a fronteira a pé, vindos de Ceuta, com toda a sorte de bens às costas – até frigoríficos –, num equilíbrio tão instável como as suas existências. Era gente da outra margem do mundo: suja, malvestida, com sapatos rotos, com cabelos tomados pelo omnipresente pó; eram homem e mulheres que haviam ido a Ceuta com o pouco dinheiro amealhado a fim de adquirirem o que a civilização a todos promete, mas a que nem todos têm fácil acesso. Os que caminhavam com toda a sorte de bens às costas tê-los-iam comprado para revenda, pois em Marrocos tudo se vende e revende – soubemo-lo depois.

Foi na fila para passar a fronteira que eu soube o que é Marrocos. O resto é para deleite de quem vem de fora – se souber apreciar um chá de menta bebido numa esplêndida loja de esplêndidos tapetes, tal nós o fizemos. Antes, porém, atravessámos a medina, espaço onde se concentra a gente real de um Marrocos real, essa outra margem do mundo. Homens a pôr e a tirar o pão do forno, em contínua azáfama; mulheres a lavar a roupa, alheias a quem passa; crianças em correria pela estreiteza do dédalo de ruas; homens que vendem desde fruta a joias; gente, só entrevista, que se dobra sobre tapetes em homenagem a Alá. As cores, os odores, a calidez, tudo está ali – a par com o infortúnio de muito trabalhar e pouco ter.

Como viajar sempre alguma coisa nos ensina, aprendi que é assim a outra margem do mundo. Ali logo a um pulinho de Algeciras.

Paula de Sousa Lima, escritora vive na ilha de São Miguel, Açores

Agradecemos à escritora Paula de Sousa Lima por autorizar que estes deliciosos textos sejam publicados nesta plataforma de artes e letras da Bruma Publications, parte do instituto PBBI da Universidade do Estado da Califórnia em Fresno. Estes textos serão publicados nesta plataforma em portugês, e posteriormente republicados também aqui em tradução.

Textos originalmente publicados no jornal Ilha Maior da Ilha do Pico, Manuel Tomás, director.

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