Trinta Luas para o Álamo – Thirty Moons for Álamo

Abraço para o Álamo – uma “nota bárbara” de Onésimo Teotónio Almeida

Esta manhã acordei para a triste notícia (as notícias, porque elas chegaram de muitos lados) que esperava mais dia menos dia mechegasse: a morte do grande escritor Álamo Oliveira. Tinha falado com ele a última vez antes de a sobrinha o levar para Braga, de onde a seu pedido regressara à Terceira há cerca de duas semanas, pois desejava morrer na sua ilha. Nestes últimos tempos não respondia ao telefone de ninguém. Quando falámos pela última vez, antes de seguir para Braga, ainda deu um ar da sua graça. Perguntei-lhe se tinha assento para escrever alguma coisa e respondeu no seu típico tom gozão e autodepreciativo: Tenho tentado, mas depois quando vou ler não joga coisa com coisa. Foi o Dimas Simas Lopes, médico, primo da Leonor, a quem eu telefonava a pedir notícias dele que me ia mantendo a par do estado de saúde do amigo comum, e foi precisamente dele uma das primeiras mensagens desta manhã.

Não é da vasta e valiosa obra que agora me apetece falar. Plurifacetada como poucas (eu dizia muitas vezes que o Álamo abusava de talentos) conhecida e admirada por tanta gente, justiça há-de continuar a ser-lhe feita porque ela fica conosco e merece muito mais atenção (sobretudo fora dos Açores) do que a muita que felizmente tem recebido. Agora apetece-me somente referir pequenos momentos da nossa amizade. Ele era um ano mais velho no curso no seminário. No meu 3º ano, ele estava no 4º e era já um senhor das letras e artes. Dirigiu o jornal (mais propriamente revista “O Arauto”, um grande caderno de papel almaço com uma média de umas vinte páginas manuscritas, de regularidade quase mensal. Havia os ilustradores das páginas e os copiadores – os donos da melhor caligrafia que estavam encarregados de copiar para o exemplar único as colaborações recebidas pelo diretor. Esse exemplar iria depois passar de carteira em carteira, demorando-se em cada leitor o tempo necessário para a leitura.

Um dia, o Álamo passou pela minha carteira no salão numa hora de estudo e, com um ar displicente, pôs sobre ela um caderno de papel almaço em branco dizendo-me e seguindo para a sua carteira: Barra-me isto!

Fiquei tocado. O artista Álamo achava que eu tinha jeito bastante para desenho de modo a ser capaz de “barrar” (as margens de cada página eram ilustradas como no tempo das iluminuras). Para um novato como eu (era o meu primeiro mês no Seminário de Angra), o reconhecimento ficou indelével. Mas registo que as minhas ilustrações nunca chegaram às solas das suas. Ele sim, era um artista nato.

Anos mais tarde, estávamos noutra prefeitura, a dos “médios (do 5º ao 8º anos). Ele no 6º e eu no 5º. Convidou-me para ator protagonista  numa das suas peças de teatro a ser apresentada em sessão da Academia Cardoso do Couto, que reunia mensalmente. Creio que se chamava “O pedinte”. Confesso que não entendi nadinha dela, mas o Álamo também nunca me explicou o sentido.

Todos lhe reconhecíamos os talentos que revelava em tudo onde intervinha. Para nós, antigos colegas, o que ele fez na vida foi apenas desenvolver – e em que grau o fez! – todo o potencial que desde cedo nele começara a germinar e que nós já havíamos reconhecido.

O humor era uma constante nele. Não contava piadas; saía-lhe no tom e algum desdém com que salpicava comentários e apartes (ele atravessa a sua prosa). Mas ria com vontade. Lembro-me de o ter feito quando lhe mostrei uma paródia que fiz de um poema de Coelho de Sousa, nosso professor de Português, publicado no livro Poemas de Aquém e Além. Intitulado precisamente “Álamo”, era sobre uma árvore. A minha graçola brincava com o facto de ele ser muito magro e o poema de Coelho de Sousa falar de “Álamo esguio / transido nas alturas como quem tem frio“. O pior é que agora não sei se estou a citar Coelho de Sousa se a minha paródia! Devo ter isso num dos meus muitos cadernos que guardo em caixotes.

Quando a 9 de novembro de 1963 organizei a festa do enterro do Centenário do Seminário (é assim por todos conhecida, mas tínhamos já realizado o enterro no final do ano letivo anterior e por isso sempre chamei a essa festa a “trasladação das relíquias do Centenário), o Álamo fez de cardeal – era o cardeal Trinca-Espinhas (nova alusão à sua magreza), com o Cipriano Franco em idêntico papel (o Cardeal Cagarini). Os dois acompanharam o “papa João XXIV” (hoje Monsenhor Constância) a um varandim do 1º andar enquanto nós todos os que marcháramos no cortejo fúnebre esperávamos em delírio no pátio onde a paródica cerimónia estava a ter lugar. As portadas abriram-se e foi o Álamo que anunciou com ar soleníssimo: Sua Santidade vai dar a benção papal!

Nos meus primeiros anos de vida nestas margens do Atlântico, soube que o Álamo vinha aos EUA visitar a família, que estava toda na Califórnia, mas ele passaria primeiro uns dias aqui na Costa Leste em casa de uma quase-família amiga sua, que entretanto emigrara da Terceira para Taunton, Massachusetts. Avisado da sua chegada (eu tinha pedido encarecidamente que o fizessem) telefonei-lhe de imediato: Álamo, quando queres que passe por aí a ir buscar-te para darmos uma volta por aqui? A resposta saiu-lhe no seu mais típico: Ó Onésimo, tu sabes que eu gosto muito é do meu sofá! (sofoá – no seu toque de sotaque terceirense). Resignei a ir ter com ele para uma longa e divertida conversa. Rodeado de amigos, reclinado no sofá, ele ia regando a garganta com o seu tão estimado whiskey.

Poderia continuar a contar histórias, porém vou limitar-me a apenas mais uma. Dono de inúmeros talentos, o Álamo foi autor da capa de muitos livros, vários deles meus. Assim de repente, estou a lembrar-me de L(USA)lândia – a Décima Ilha (1987), Açores, Açorianos, Açorianidade (1989), Que Nome É Esse, ó Nézimo? (1994) e Rio Atlântico (1997). Fez para mim e fê-lo para tantos amigos. Um dia, organizaram uma exposição só com livros com capas da sua autoria. Reuniram cerca de sessenta. 

A esse propósito, pus a circular uma boca que hoje é repetida, mas atribuída a outras pessoas: O Álamo é o maior capador dos Açores. Na verdade, eu não estava a ser muito original. O Dr. Antonino Ávila, que foi regente do orfeão do Seminário antes do Dr. Edmundo Oliveira, mudou-se para os EUA e foi pároco em Fall River, Massachusetts, mesmo aqui a vinte minutos de auto-estrada. Era um homem também multitalentoso, desde fotógrafo, a marceneiro e ourives. Tinha, além disso, um grande sentido de humor.  Estava ainda na Terceira quando da freguesia dos Altares uma comissão de festas de homenagem a um padre Enes missionário em Timor o foi visitar com um pedido: o sacerdote ia visitar a sua terra natal e queriam homenageá-lo descerrando uma foto dele no salão paroquial. Todavia gostariam que ele estivesse vestido com aquela capa plissada (já vi escrito “pelissada”) que os padres usavam nos dias da ordenação e missa nova, contudo a foto que tinham era sem ela. Então o Dr. Antonino descansou-os: Tragam-me essa fotografia que eu capo o homem!

Foi daí que veio a boca que pus a circular sobre a atividade do Álamo como capador de livros, talvez a mais colateral das suas múltiplas e ricas facetas.

Vou quedar-me por aqui nessas minhas lembranças de um querido amigo. Poderia continuar a contar histórias até aos nossos dias porque os encontros e reencontros foram inúmeros por esses Açores-at-large entre a Califórnia e o Retângulo, incluindo uns inesquecíveis dias na ilha das Flores com ele, o João de Melo e o Urbano, sendo nossa anfitriã a Gabriela Silva que repetia sem se cansar ser o Álamo a grande paixão da sua vida. Eu de motorista da carrinha a subir e descer os precipícios da bela ilha e o Álamo encolhido, com receio de olhar para a paisagem, inquieto que chegássemos a casa pois – suplicava ele – não quero morrer de ataque de coração!

Sessenta e tantos anos de companheirismo, meu saudoso Álamo, é muita carga para a memória da amizade.

Fotos – Fui desencantar algumas

# 1 – Seminário de Angra. Num varandim da camarata no primeiro andar sobre o “pátio dos médios”, o Álamo (cardeal Trinca-Espinhas). Está à direita, sozinho. Do outro lado, o cardeal Cagarini (Cipriano) e o papa João XXIV (José Constância).

#2 – Um dos livros que o Álamo me capou.

#3 – O Álamo falando no Simpósio  de Literatura Açoriana que organizei em abril de 1983 na Brown University. Está à esquerda. Os outros membros da mesa são o Heraldo Gregório da Silva (na altura professor na California State University – San José, autor de um clássico livro sobre a açorianidade em Vitorino Nemésio, publicado pela Imprensa Nacional; Eduardo Mayone Dias, lisboeta açorianófilo professor na Universidade da Califórnia Los Angeles; e o moderador da mesa, Nelson Vieira, meu colega na Brown.

Onésimo Teotónio Alameida, escritor, filósofo e Professor Emérito da Brown University.

Trinta Luas para o Álamo

Este projeto de trinta dias em memória de Álamo Oliveira (1945–2025) é uma homenagem ao poeta das ilhas, do exílio, da resistência e da profunda humanidade. A cada dia, partilharemos poemas, reflexões, testemunhos e excertos escolhidos da sua vasta obra. Vozes dos Açores e da diáspora juntam-se para lembrar não apenas o escritor, mas o amigo, o mestre, o faroleiro da nossa memória comum. Não é um adeus — é a celebração do eco que fica.

Álamo Oliveira foi mais do que um poeta — foi a consciência de um arquipélago, a voz dos que partiram e dos que ficaram. Durante trinta dias, convidamo-lo a caminhar connosco pelas suas palavras, a sua memória, e a sua luz. Todos os dias partilharemos homenagens, versos escolhidos, reflexões e mensagens de escritores, leitores e amigos de todo o mundo.

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