A luz que atravessa a palavra

A palavra abre no mundo uma claridade; a poesia ensina o olhar a atravessá-la. Em Islands of Dreams and Longing, Aníbal C. Pires conduz-nos para além da linha visível das ilhas, até à sua íntima substância, onde a pedra guarda a memória do fogo, o mar prolonga a distância e cada horizonte acende, no coração, o desejo de partir e de regressar. Estas páginas não contemplam apenas um arquipélago: escutam-lhe a respiração, acolhem-lhe as contradições, recolhem a luz que pousa sobre as paisagens e aquela outra, mais secreta, que persiste na lembrança. Assim, as ilhas revelam-se matéria de sonho e pertença, de inconformismo e beleza, de saudade e futuro: mundos cercados pelo oceano, mas infinitamente abertos à palavra.

Apresentar este livro em Ponta Delgada, aqui na Letras Lavadas, é cumprir uma espécie de regresso. As páginas chegam-nos em inglês, mas trazem consigo a respiração atlântica das ilhas e a experiência de um povo que aprendeu a levar consigo a casa, a língua e a saudade. A língua inglesa alarga o horizonte desta obra, aproxima-a de leitores dispersos pelo mundo; não lhe retira, porém, a raiz açoriana. Pelo contrário: permite que a voz das ilhas atravesse outros mares sem perder a sua origem.

O título oferece-nos, desde logo, duas palavras fundamentais: dreams e longing — sonhos e saudade. Nos Açores, o sonho quase nunca é abstrato. Tem a forma de uma janela voltada para o mar, de uma mala preparada para a partida, de um regresso esperado, de uma ilha vista ao longe. E a saudade não é apenas nostalgia: é uma força que nos põe em marcha, que nos leva a partir e que, tantas vezes, nos faz regressar. Neste livro, sonhar é também uma forma de permanecer ligado àquilo que a distância não consegue desfazer.

A escrita de Aníbal Pires acompanha-nos há algum tempo. Conhecemos nela a inquietação cívica, a clareza de quem observa com atenção e a recusa em aceitar as simplificações que tantas vezes se impõem à realidade açoriana. Mas encontramos igualmente uma voz lírica, capaz de escutar o silêncio das paisagens e de reconhecer, na pedra, na neblina e no mar, uma história humana. A poesia e a prosa poética convivem aqui com a análise e a reflexão; não se anulam, iluminam-se, mutuamente. A ternura não impede o pensamento. O pensamento, por sua vez, não seca a emoção.

Por isso, os textos destas páginas não são descrições de lugares destinadas a confirmar aquilo que já julgávamos conhecer. Não se oferecem como legendas de uma paisagem, nem como inventário de belezas para consumo rápido. São aproximações — líricas, interrogativas, por vezes severas — à vida de cada ilha. Aníbal Pires escreve sobre o território, mas também sobre as escolhas políticas, as desigualdades, a insularidade, o abandono, a mobilidade, a memória e as possibilidades de futuro. O seu olhar sabe deter-se na vertigem de uma falésia e, logo depois, perguntar que vidas se escondem por detrás dela; sabe contemplar a beleza sem a usar como cortina para ocultar os problemas.

Essa união entre contemplação e consciência crítica confere à obra uma espessura particular. As ilhas não surgem como paraísos imutáveis, protegidos do tempo. São lugares vividos, com contradições e aspirações; comunidades que preservam tradições, mas que também exigem condições de vida dignas, ligações regulares e decisões capazes de reconhecer as diferenças entre os nove territórios. No texto sobre o Ocidente, por exemplo, a distância não é apenas uma medida entre pontos no mapa: torna-se uma experiência concreta, atravessada por opções políticas e pelas consequências que estas têm no quotidiano das pessoas. A escrita não abandona a poesia quando entra na realidade social; leva-a consigo, como forma de atenção e responsabilidade.

Os poemas, por seu lado, não procuram encerrar cada ilha numa fórmula. Corvo, Flores, Faial, Pico, São Jorge, Graciosa, Terceira, Santa Maria e São Miguel aparecem com cadências próprias, como vozes de um mesmo coro que não precisa de cantar unissonante para pertencer à mesma partitura. Há, em cada ilha, uma geografia exterior e uma geografia interior. A primeira pode ser percorrida por caminhos, estradas, portos e montanhas; a segunda é feita de recordações, gestos herdados e histórias que continuam a atravessar gerações.

É neste espaço entre o visível e o pressentido que a fotografia de Aníbal e de Madalena encontra a palavra. Quero deter-me, com particular gratidão, nas imagens que ambos nos oferecem. A sua qualidade não está apenas na nitidez, na composição ou na escolha da luz — embora tudo isso contribua para a força do livro. Está sobretudo na capacidade de cada fotografia criar uma atmosfera, de fazer do olhar uma forma de demora. São imagens que não se limitam a provar que um lugar existe: deixam-nos sentir que esse lugar também nos olha.

A fotografia, neste livro, não acompanha o texto como ornamento, nem o texto explica a fotografia como se a imagem carecesse de tradução. Entre ambos, estabelece-se uma conversa feita de aproximações e intervalos. Por vezes, a imagem abre uma porta para o poema; noutras ocasiões, é o poema que nos ensina a regressar à imagem e a reparar no que antes nos escapara. A fotografia não ilustra simplesmente a palavra. A palavra não se sobrepõe à fotografia. Cada uma conserva a sua liberdade e, no encontro, ambas ganham uma nova ressonância.

Há uma tradição internacional de livros e projetos que exploram esta fecunda relação entre imagem e palavra. Boundaries, do poeta Richard Blanco e do fotógrafo Jacob Bond Hessler, aproxima poesia e fotografia para pensar as fronteiras físicas e invisíveis que atravessam a sociedade; Windows That Open Inward, de Milton Rogovin e Pablo Neruda, faz da imagem e do poema um diálogo sobre paisagem, vida comum e dignidade humana. São obras distintas desta, nascidas de outras geografias e de outras preocupações, mas ajudam-nos a reconhecer a riqueza de um território artístico onde a fotografia e a literatura não se subordinam uma à outra: interrogam-se, escutam-se e ampliam aquilo que cada uma, isoladamente, poderia dizer.

É nesse amplo horizonte que este livro se inscreve, sem perder a sua singularidade. O seu centro não é uma paisagem qualquer, mas o arquipélago açoriano, visto por quem conhece a complexidade das suas ilhas e sabe que amar um lugar não significa idealizá-lo. Significa olhá-lo por inteiro: reconhecer-lhe a beleza e as feridas, celebrar a sua cultura e exigir que o seu futuro não seja decidido à margem das suas gentes.

A fotografia de Madalena Ferreira Pires e de Aníbal Pires participa desse gesto de atenção. Há imagens que parecem guardar o instante; outras, o que o instante deixa em nós. No conjunto, elas devolvem-nos uma paisagem que não é cenário, mas presença: o mar como distância e caminho, a pedra como memória da terra, a luz como uma espécie de linguagem anterior às palavras. Agradeço-lhes profundamente esta generosidade. As imagens de ambos não apenas enriquecem o livro: são parte essencial da sua voz.

Este projeto era, há muito tempo, um desejo meu. Há livros que começam por uma ideia; outros, por uma amizade, por uma confiança antiga, por uma conversa que um dia encontra a forma certa de se tornar obra. Islands of Dreams and Longing pertence a essa segunda espécie. Por isso, a minha gratidão dirige-se ao Aníbal e à Madalena, pela generosidade com que acolheram esta proposta e pela beleza e inteligência com que a fizeram sua. Dirige-se também ao meu amigo Ernesto Resendes, que tantas vezes nos recebe — a mim e às nossas utopias — com a disponibilidade e a hospitalidade que tornam possíveis os projetos da Bruma Publications e das Letras Lavadas.

Publicar é acreditar que um livro pode encontrar leitores para além do lugar onde nasceu. É confiar que uma voz particular, quando alcança a forma necessária, pode tocar outras experiências e outras geografias. A Bruma Publications e as Letras Lavadas encontram-se aqui nesse entendimento: uma obra que parte dos Açores, atravessa o Atlântico em língua inglesa e regressa agora a estas ilhas para ser apresentada, escutada e reconhecida. O livro viaja, mas a viagem não o desliga da origem. Leva consigo a memória da terra e devolve-a transformada em palavra e imagem.

Talvez seja essa a promessa mais profunda deste encontro entre poesia, prosa poética e fotografia: recordar-nos de que ver também é uma forma de pertencer. A literatura aproxima o que a distância separa; a fotografia confere presença ao que a memória teme perder. Juntas, palavra e imagem não encerram as ilhas numa página. Abrem-nas. Fazem-nos atravessar a sua beleza e a sua inquietação; devolvem-nos ao mar com perguntas que não se dissipam no horizonte.

Ao lermos este livro, não visitamos apenas nove ilhas. Entramos numa maneira de olhar o mundo: atenta ao que permanece, crítica diante do que precisa mudar e fiel à esperança de que a beleza possa coexistir com a justiça. E compreendemos, mais uma vez, que as ilhas não são apenas lugares cercados de água. São lugares rodeados de histórias, de vozes e de vidas — histórias que continuam a navegar em cada pessoa que partiu, em cada pessoa que ficou e em cada pessoa que, de algum modo, regressa.

É por isso que agradeço ao Aníbal e à Madalena este livro: pela luz que souberam guardar, pelas palavras que nos ajudam a escutá-la e por nos lembrarem que a distância entre uma ilha e o mundo pode ser atravessada por um poema, por uma imagem e por um sonho que continua a chamar-nos.

Diniz Borges-apresentação feita em Ponta Delgada no dia 24 de Outubro na livraria Letras Lavadas

Nos Açores, em Portugal e na União Europeia podem comprar usando este like:

https://www.letraslavadas.pt/islands-of-dreams-and-longing

Nos EUA e no Canadá podem comprar atrave;s da Bruma Publications;

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