
Uma palavra de gratidão ao IX EIPOEMA — Encontro Internacional de Poesia da Macaronésia
Há homens que escrevem poemas. Há homens que vivem para a poesia. E há, muito raramente, homens cuja própria existência se transforma num poema, desses que não cabem nas páginas de um livro, porque precisam da vastidão do mundo, da generosidade dos encontros e da eternidade dos afetos para serem verdadeiramente compreendidos. João Carlos Abreu não é apenas um poeta. João Carlos Abreu é, ele próprio, um poema. Um poema escrito com a delicadeza da amizade, a elegância da palavra, a dignidade dos gestos e esse amor incomensurável pela Madeira, que nele deixou de ser apenas uma geografia para se tornar uma maneira de estar no mundo. Há pessoas que representam uma terra pelas funções que desempenham; outras, pelas obras que realizam. João Carlos Abreu representa a Madeira pela própria humanidade que transporta. É um embaixador sem fronteiras, um homem cuja pátria se prolonga por todos os lugares onde vive um madeirense, onde se recorda uma ilha, onde a saudade encontra uma voz e onde a cultura continua a ser a mais bela expressão da nossa pertença.
Foi com este sentimento de profunda admiração, de gratidão e de reencontro que vivi o IX EIPOEMA — Encontro Internacional de Poesia da Macaronésia, uma celebração da palavra que reuniu sensibilidades, geografias, memórias e vozes de um Atlântico que, apesar das suas imensidões, nunca conseguiu separar verdadeiramente os povos que aprenderam a reconhecer-se nas suas águas. A Macaronésia é muito mais do que uma designação geográfica. É uma constelação de ilhas, uma comunidade de horizontes, um arquipélago de arquipélagos onde a poesia encontra uma das suas mais profundas razões de existir. Porque os povos insulares conhecem, talvez melhor do que ninguém, a linguagem das partidas, o peso das ausências, a beleza dos regressos e essa extraordinária capacidade de transformar a distância em proximidade afetiva. E quando a poesia reúne estas ilhas, reúne também as suas diásporas, essas outras ilhas humanas espalhadas pelos continentes, onde continuam a florescer as línguas, os costumes, as recordações e os sonhos das terras de origem.
A todos os que tornaram possível este encontro, deixo uma palavra de sincera e comovida gratidão. Aos organizadores, aos poetas, aos participantes, aos colaboradores e a quantos, muitas vezes longe das luzes do reconhecimento público, ofereceram o seu tempo, o seu entusiasmo e a sua dedicação para que a poesia tivesse uma casa aberta, acolhedora e verdadeiramente humana. De forma muito especial, quero expressar o meu reconhecimento a Sandro Freitas e Marcelino de Castro, pela dedicação, pela visão cultural e pelo espírito de generosidade que ajudaram a transformar este encontro numa celebração daquilo que verdadeiramente nos aproxima. Organizar um encontro de poesia é muito mais do que reunir autores e estabelecer programas. É acreditar que a palavra ainda possui a capacidade de reconciliar distâncias, de criar amizades, de preservar memórias e de devolver ao mundo alguma da beleza que a pressa dos nossos dias tantas vezes lhe rouba. É, sobretudo, um ato de confiança na cultura e na humanidade.
Mas permitam-me que estas palavras de gratidão se detenham, com particular emoção, numa figura que ocupa um lugar singular na minha admiração intelectual e que, nestes encontros do EIPOEMA, passou também a ocupar um lugar muito especial na minha geografia afetiva: João Carlos Abreu, esse extraordinário embaixador da Madeira no mundo, esse homem de cultura que fez da sua vida uma permanente declaração de amor à sua ilha e às suas gentes. Conheci-o há quase quarenta anos, num encontro casual em San Diego, na Califórnia, na companhia de figuras inesquecíveis da comunidade madeirense, entre elas Mary Giglito, Maria José Brantuas, Zeca Rodrigues e tantos outros ilustres madeirenses que fizeram daquela comunidade uma expressão viva da dignidade, da generosidade e da perseverança de um povo. Foi um daqueles encontros que a vida nos oferece sem qualquer anúncio, sem que possamos adivinhar a importância que, muitos anos depois, essa circunstância aparentemente fortuita virá a adquirir. Guardei desse momento a memória de um homem afável, culto, profundamente ligado à Madeira e à sua diáspora. Mas seria necessário que o tempo cumprisse o seu percurso e que a poesia nos voltasse a aproximar para que aquela primeira impressão se transformasse numa amizade verdadeiramente inesquecível.
Foi precisamente nestes encontros do EIPOEMA que essa aproximação ganhou uma dimensão humana que guardarei para sempre. O que começara, há quase quatro décadas, como um conhecimento ocasional, numa cidade distante da costa do Pacífico, encontrou agora, no ambiente generoso e profundamente humano da poesia, a oportunidade de se transformar numa amizade que jamais esquecerei. Há qualquer coisa de extraordinariamente belo nesta maneira como a vida aproxima as pessoas, por vezes separadas por décadas, oceanos e geografias, para depois lhes oferecer o privilégio de uma convivência que parece recuperar, num breve espaço de tempo, todos os anos que ficaram pelo caminho. Foi isso que senti na companhia de João Carlos Abreu. Não apenas a alegria de reencontrar alguém que conhecera muitos anos antes, mas a felicidade muito mais profunda de descobrir, para além do homem público e da figura cultural que sempre admirei, um ser humano de uma ternura rara, de uma generosidade desarmante e de uma capacidade de amizade que ultrapassa largamente a circunstância dos encontros.
Nestes dias de poesia, conversas, partilhas e afetos, nasceu uma proximidade que não se mede pela duração do convívio, mas pela autenticidade daquilo que nele se revela. Há amizades que necessitam de décadas para amadurecer; outras parecem reconhecer-se desde o primeiro instante em que lhes é permitido florescer. A amizade que estes encontros me proporcionaram com João Carlos Abreu pertence a essa segunda categoria, tão rara quanto preciosa. E se há quase quarenta anos tive o prazer de o conhecer, foi agora, neste universo de poesia e fraternidade que o EIPOEMA tão generosamente nos ofereceu, que tive o privilégio de o conhecer de uma forma muito mais íntima e humana. Esta amizade, nascida da convivência e alimentada pela partilha de sensibilidades, ficará entre as recordações mais belas que levo da Madeira. Porque os encontros verdadeiramente importantes não são necessariamente aqueles que nos apresentam pessoas novas, mas também aqueles que nos permitem descobrir, numa pessoa que já conhecíamos, uma humanidade ainda mais luminosa do que imaginávamos.

João Carlos Abreu possui essa elegância interior que não se aprende nos livros, essa nobreza que não depende de títulos, essa grandeza que nunca necessita de se anunciar. A sua presença tem a serenidade das coisas autênticas. A sua amizade tem a profundidade das raízes. A sua palavra possui a delicadeza de quem compreende que a cultura só alcança a sua verdadeira grandeza quando se coloca ao serviço dos outros. Há nele uma rara harmonia entre o poeta e o homem, entre a sensibilidade artística e a generosidade quotidiana, entre o amor à sua terra e a abertura ao mundo. E talvez seja precisamente essa harmonia que o torna tão singular. João Carlos Abreu não precisa de separar a poesia da vida, porque fez da própria vida uma expressão contínua daquilo que a poesia procura alcançar: a beleza, a verdade, a ternura, a memória e a dignidade da condição humana.
A minha admiração por João Carlos Abreu é profunda e abrange todas essas dimensões da sua existência. Admiro o poeta, naturalmente, porque nele a poesia não é um exercício ornamental da linguagem, mas uma forma de compreender a condição humana, de escutar o silêncio das coisas e de reconhecer a beleza que tantas vezes se esconde nos gestos mais simples. Admiro o homem de cultura, porque soube compreender que a Madeira não se esgota nos seus limites geográficos e que a identidade de um povo também se constrói nas comunidades que vivem para além do horizonte. Admiro o amigo, porque a amizade, quando é verdadeira, constitui uma das mais belas manifestações da poesia vivida. E admiro, acima de tudo, o ser humano, porque há uma bondade genuína na sua maneira de olhar os outros, uma disponibilidade afetiva que ultrapassa conveniências e circunstâncias, uma capacidade de dar sem esperar recompensa que constitui, porventura, a sua mais extraordinária obra.
João Carlos Abreu ama a Madeira como só a podem amar aqueles que a transportam inteira dentro de si. Ama as suas montanhas e os seus vales, as suas ruas e os seus jardins, as suas tradições e os seus criadores, os seus escritores e os seus artistas, os seus homens e as suas mulheres, os que ficaram e os que partiram. Mas há uma dimensão desse amor que sempre me comoveu particularmente: a sua profunda ligação à diáspora madeirense. João Carlos compreendeu que uma ilha não termina onde o mar começa. Uma ilha continua nos filhos que emigraram, nas famílias que reconstruíram a vida noutras terras, nas associações que preservaram a memória coletiva, nas vozes que transmitiram a língua aos descendentes e nas gerações que, mesmo nascidas longe, continuam a reconhecer na Madeira uma parte essencial da sua identidade. Para ele, a diáspora nunca foi uma realidade distante ou secundária. Foi sempre uma extensão humana da própria Madeira, uma geografia de afetos que merece proximidade, reconhecimento e gratidão.
Talvez por isso João Carlos Abreu seja, para mim, uma das mais belas expressões daquilo que significa ser verdadeiramente um embaixador cultural. Não um embaixador de protocolos e formalidades, mas um embaixador de pessoas, de memórias, de gestos e de palavras. Um homem que leva consigo a Madeira sem precisar de a anunciar, porque a sua própria maneira de ser já a revela. Um homem que não necessita de erguer monumentos à identidade madeirense, porque a sua existência constitui um testemunho vivo dessa identidade. E um poeta que compreendeu que o maior poema que podemos oferecer à nossa terra é uma vida dedicada a engrandecê-la, a partilhá-la e a torná-la mais próxima de todos os que a amam.
O IX EIPOEMA recordou-nos precisamente essa dimensão essencial da cultura: a sua capacidade de construir comunidades onde antes existiam apenas distâncias. Entre a Madeira, os Açores, Cabo Verde, as Canárias e as suas múltiplas diásporas, a poesia revelou-se uma linguagem de reconhecimento mútuo, uma forma de compreender que as ilhas, apesar das suas particularidades históricas, linguísticas e culturais, partilham uma experiência profundamente humana de abertura ao mundo. Somos povos de chegadas e partidas, de horizontes abertos e memórias persistentes. Somos herdeiros de uma condição atlântica que nos ensinou a viver entre a terra que nos viu nascer e as terras que nos receberam. E a poesia, talvez mais do que qualquer outra expressão artística, consegue dar voz a essa existência plural, a esse sentimento de pertencer simultaneamente a vários lugares sem deixar de ser profundamente fiel à primeira geografia do coração.
Por isso, a minha gratidão a todos os que participaram neste encontro é também uma gratidão pela esperança que a cultura continua a oferecer. Num mundo tantas vezes dominado pelo ruído, pela superficialidade e pela indiferença, reunir pessoas em torno da poesia é um gesto de extraordinária beleza e de silenciosa resistência. É afirmar que ainda precisamos de escutar, de sentir, de partilhar e de reconhecer a humanidade que nos une. Sandro Freitas, Marcelino de Castro, João Carlos Abreu e todos quantos contribuíram para a realização deste IX EIPOEMA merecem o nosso reconhecimento, não apenas pelo que organizaram, mas sobretudo pelo que ajudaram a preservar: a convicção de que a cultura é uma responsabilidade coletiva, de que a poesia continua necessária e de que o Atlântico pode ser, acima de tudo, um território de encontros.
E volto, inevitavelmente, a João Carlos Abreu. Porque há homenagens que nunca conseguem dizer tudo quanto desejamos, sobretudo quando a admiração se encontra com uma amizade que nasceu de forma tão bela e inesperada. Há quase quarenta anos, em San Diego, a vida concedeu-me a oportunidade de conhecer um homem que já então se distinguia pelo seu amor à Madeira e à sua diáspora. Agora, através destes encontros do EIPOEMA, concedeu-me algo ainda mais precioso: a possibilidade de construir com ele uma amizade que levarei comigo para sempre. E essa é, talvez, uma das mais belas dádivas que a poesia nos pode oferecer. Não apenas os versos que escutamos ou as palavras que partilhamos, mas as pessoas que passam a habitar a nossa vida de uma forma definitiva. João Carlos Abreu terá sempre a minha mais elevada admiração, o meu mais profundo respeito e uma amizade que guardarei como um dos grandes privilégios destes dias na Madeira.

Meu estimado João Carlos Abreu, permita-me que lhe dirija estas palavras com a emoção de quem encontrou, para além do poeta e do homem de cultura, um amigo cuja generosidade jamais esquecerei. Há quase quarenta anos, tive o prazer de o conhecer naquela Califórnia onde tantos madeirenses fizeram da saudade uma segunda pátria. Foi um encontro casual, um breve cruzamento de caminhos que a memória conservou. Mas foi agora, nestes dias de EIPOEMA, que tive a felicidade de descobrir a dimensão mais profunda da sua humanidade e de construir consigo uma amizade que considero verdadeiramente preciosa. A sua delicadeza, a sua generosidade, a sua extraordinária capacidade de acolher e de partilhar, a sua paixão pela poesia e o seu amor incondicional à Madeira permanecerão comigo muito para além destes dias. Há pessoas que admiramos à distância; outras que a convivência nos ensina a admirar ainda mais. O João Carlos pertence a estas últimas. E essa é uma distinção que nenhum título, nenhuma homenagem e nenhum reconhecimento público conseguem substituir.
A todos os que fizeram do IX EIPOEMA uma celebração memorável, o meu abraço de reconhecimento e gratidão. Que este encontro continue a florescer, que as suas vozes atravessem os mares, que os seus poemas encontrem novas geografias e que a Macaronésia permaneça esse imenso arquipélago de palavras, onde nenhuma ilha está verdadeiramente só e onde nenhuma diáspora deixa de pertencer. Que a amizade, esse poema sem fronteiras, continue a ser uma das suas mais belas realizações. Porque um encontro de poesia verdadeiramente conseguido não termina quando se encerram as sessões ou se apagam as luzes das salas. Continua nas conversas que permanecem, nos afetos que se aprofundam, nas amizades que nascem e na memória daqueles que regressam às suas terras levando consigo algo que não possuíam quando chegaram.
E ao João Carlos Abreu deixo uma última palavra, que é também a mais simples e a mais verdadeira: obrigado. Obrigado pela poesia, pela Madeira que tão generosamente reparte com o mundo, pela amizade que estes encontros nos permitiram construir e, sobretudo, pela beleza da sua humanidade. Aquele encontro casual de há quase quarenta anos, em San Diego, adquiriu agora um significado que jamais poderia ter imaginado. Porque a vida, como a poesia, tem a extraordinária capacidade de guardar os seus versos mais belos para o momento em que estamos verdadeiramente preparados para os compreender.
Os poemas mais belos nem sempre são aqueles que se escrevem. Alguns caminham entre nós, estendem-nos a mão, oferecem-nos um sorriso e ensinam-nos, sem nunca o proclamarem, que a verdadeira grandeza de uma vida está na beleza que deixa na vida dos outros.
João Carlos Abreu é um desses poemas. E a Madeira, a sua diáspora e todos nós que temos o privilégio de o conhecer somos infinitamente mais ricos por ele existir.
E se este IX EIPOEMA me deixou muitas palavras para recordar, deixou-me sobretudo uma certeza que guardarei com especial ternura: há encontros que celebram a poesia, mas há outros, ainda mais raros, em que a própria poesia nos oferece uma amizade. E essa amizade, quando é verdadeira, torna-se um poema que nunca mais acaba.
Diniz Borges, Filamentos (artes e letras)
