Ostra feliz não faz pérola, de Rubem Alves por Víctor Rui Dores

Acabo de ler, com inusitado interesse, o livro Ostra feliz não faz pérola, do escritor e ensaísta brasileiro Rubem Alves (1933-2014).

Segundo este autor, pessoas totalmente acomodadas ou em estado de felicidade plena raramente sentem a necessidade de mudar, inventar ou criar. O ato criador surge de uma “ferida” ou de uma inquietação. É a dor e a angústia que impulsiona o ser humano a produzir arte, ciência, literatura, superação, curiosidade ou desejo de entender e transformar o mundo – esta a premissa do referido livro.

Por conseguinte, a criatividade nasce a partir de um sofrimento e de um incómodo. Logo, as pessoas que sofrem produzem beleza para parar  de sofrer.

Enveredando por uma linguagem metafórica, Rubem Alves dá o exemplo da ostra. Lembra que nem todas as ostras produzem pérolas, sendo que “uma pérola é o tumor de uma ostra”. E isto porque uma pérola só surge quando um grão de areia (ou outro corpo estranho) entra na ostra e lhe causa dor. Para se proteger dessa dor, a ostra envolve esse grão de areia com camadas de madrepérola, transformando a ferida em algo precioso. Ou seja, este molusco produz a pérola porque quer deixar de sofrer.

É-nos dado, a propósito,  outro exemplo: no fim da vida e completamente surdo, o compositor Ludwig van Beethoven foi capaz de produzir uma obra-prima como a  “Nona Sinfonia”, que canta a alegria.

A partir daqui, podemos extravasar para a literatura.

“Faz da tua dor um poema”, escreveu Goethe. Transformar a dor em literatura é um dos processos mais antigos e poderosos da escrita, frequentemente chamado de catarse, exorcismo ou escrita terapêutica. Muitos autores consagrados usaram o trauma, o luto, a doença e o coração partido como matéria-prima para criar obras universais. E são tantos os que transformaram o sofrimento em arte. Só para dar alguns exemplos:

Luís de Camões (sobretudo na sua Lírica); Dostoiévski (que viveu experiências extremas e disso fez matéria narrativa); Fernando Pessoa (através dos seus heterónimos); Virginia Woolf (que utilizou a escrita para processar os severos episódios de depressão e os lutos profundos que marcaram a sua vida); Primo Levi (sobrevivente do Holocausto, este escritor italiano transformou o horror vivido no campo de concentração de Auschwitz numa das obras mais importantes do século XX, Se isto é um homem); Franz Kafka (sobretudo em A Metamorfose, obra que traduz a dor do isolamento, da inadequação e da rejeição física); e muito teria eu para dizer sobre autores portugueses que, através da escrita, exorcizaram a Guerra Colonial que sofreram na pele: Álamo Oliveira, António Lobo Antunes, Carlos Vale Ferraz, Cristóvão de Aguiar, Fernando Dacosta, João de Melo, José Martins Garcia, Manuel Alegre, Mário de Carvalho, Santos Barros, Urbano Bettencourt, entre outros.

Moral da história: a adversidades e os desafios da vida podem transformar a pessoa e levá-la a criar algo precioso, isto é, desenvolver qualidades e talentos que talvez ela nunca descobriria em tempos de tranquilidade e felicidade.

Ora aí fica uma matéria para reflexão.

Victor Rui Dores

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