
– Nova série 09
Na Rua do Alecrim falou a Mulher-Menina num eucalipto cortado e, de súbito, foi o cheiro sempre novo da madeira que nos envolveu e derrotou tudo: o gasóleo, os fumos, os ruídos, a pressa e o olhar gelado de quem desce a Rua sem a ver. Há quem não repare mas a Rua em certos momentos inesperados, ao fim da tarde, nos intervalos dos semáforos do Largo das Dyas Igrejas assemelha-se ao espaço do seu nome: é quando as zonas verdes, os vasos, as plantas e o olhar de quem (como nós) ainda acredita em milagres, se junta ao sol e une as águas do Rio à que bebemos no Largo de Camões. Nesses momentos a Rua do Alecrim é o lugar do encontro, o sossego duma história, o registo sonoro duma voz a contar os sábados e os domingos entre o mar e os pinheiros alinhados contra o vento. Há quem não repare mas os fins de tarde prolongam convocatórias de gente singular, gente que viveu esta rua e escreveu as suas viagens em poesia e ficção. Poemas de Cesário Verde, contos de Fialho, páginas de Eça de Queirós, personagens de Camilo, tão atarefadas como as de Dinis Machado, poemas de David Mourão-Ferreira e de Joaquim Pessoa atravessam os momentos demorados do passeio pela rua acima quando a tarde junta as placas azuis da memória com o tom cinzento do quotidiano. O tempo fica suspenso, os relógios páram, o verde da muralha fernandina faz contraponto com o azul do rio, as partículas de chuva brilham muito frias nos cabelos da Mulher-Menina e, por isso, ouve-se ao longe uma melodia de Carlos Paredes. Nesses momentos a Rua do Alecrim é o lugar mágico onde não se sabe bem o tamanho dos sonhos e os limites da verdade, onde se cruzam as sombras do passado e os caminhos do futuro, onde se afirma o desejo talvez impossível de que não termine o encontro, essa frágil ligação, efémera e transitória, silenciosa e invisível para quem, no olhar gelado pela pressa, desce a Rua sem nela reparar.
José do Carmo Francisco, escritor
