
Nova série 08
Vitorino Nemésio (1901-1978) na página 243 do livro de crónicas «Ondas Médias» (Editora Bertrand) afirma: «Neto não! Que meu avô mais velho nasceu em 1841 e Herculano é de 1810. E para meu bisavô talvez fosse velho de mais». Julgo haver uma razão forte para a admiração de Vitorino Nemésio por Alexandre Herculano. O grande escritor português do século XIX era ali da Rua da São Bento. Seu pai empobreceu e cegou. Ele ia à Escola dos Frades do Oratório, à Calçada das Necessidades. Aprendeu línguas, comércio e paleografia. As coisas que os livros lhe ensinavam ficavam-lhe na alma e na cabeça, como verdades vivas. Criado ao mesmo tempo por uma família católica e por uma literatura racionalista e romântica, Herculano foi crente, conspirador e emigrado. Esteve prestes a deitar fogo a uma esquadra e salvou-se do pelotão de fuzilamento por um triz. Escondeu-se numa fragata de guerra até haver navio que o levasse a Inglaterra. Em Agosto de 1831, ele tinha 21 anos e levava no ouvido a música das palavras de Schiller para fazer com elas e com o seu coração os melhores versos. Levava uma mecha de enxofre no bolso e uma poesia na alma. Para encurtar razões: Herculano foi, toda a vida, aquilo que o vulgo chama «um homem de vergonha», Nemésio compara-o a Egas Moniz, a Sá de Miranda e a Mouzinho de Albuquerque. Herculano tinha parentes que eram pedreiros, britadores, calceteiros. Comiam sempre de cabeça descoberta o magro farnel de pão, ovo cozido e azeitonas. Davam as «santas graças» depois de se benzerem. Vitorino Nemésio em «Eu, comovido a Oeste» explica tudo: «Eu me construo e ergo, peça a peça/De saudade, vagar e reflexão./Com quase quarenta anos, mal começa,/ovo de tanta coisa, o coração». Depois de «Paço do Milhafre» em 1924 e «Varanda de Pilatos» (1926) surge «A mocidade de Herculano» em 1932. Nem podia ser de outra maneira.
José do Carmo Francisco
