A maldição da Bola de Prata por José do Carmo Francisco

Nova série 07

Em 1966 os «raivosos da bola» (como a minha avó materna dizia dos seus vizinhos de rua) faziam-se ouvir nas tabernas da aldeia e nos cafés da cidade. Nesse ano o Sporting de Braga venceu a Taça de Portugal na final do Jamor e o Sporting Clube de Portugal ganhou o Campeonato Nacional. Uma coisa que muitos portugueses não perdoavam era o jogador Lourenço que tinha marcado quatro golos ao SLB num jogo no Estádio da Luz. Outra coisa era o jogador Figueiredo ter sido o melhor marcador do Campeonato nesse ano mas o regulamento da Bola de Prata determinava que só valiam os golos atribuídos pelos redactores do Jornal A BOLA e num desafio em Évora o golo de Figueiredo foi referido na crónica como sendo da autoria de outro jogador «leonino». Em Inglaterra no Campeonato do Mundo de 1966 Figueiredo não jogou nenhum desafio porque havia um jogador do SLB que jogava sempre mesmo com injecções de «Novocaína» dadas pelo enfermeiro Manuel Marques. Lourenço, de castigo pelos quatro golos marcados na Luz, também não teve direito a minutos e por isso nunca foi internacional. O seleccionador era benfiquista e até no nome – Manuel da Luz. Em 1986 o Bola de Prata foi preterido na convocatória. Seu nome é Manuel Fernandes – era jogador e capitão da equipa do SCP e o seleccionador era um ex-jogador do SLB. No Mundial do México o melhor marcador do Campeonato foi excluído da selecção. Agora em 2026 o melhor marcador da selecção portuguesa (melhor que os quatro melhores) foi escorraçado de modo miserável mas o que corre por aí é que ele abandonou o grupo. Já não há tabernas e cafés mas há redes sociais. Portugal é um país pobre e pequeno mas só não é pequeno na inveja e na maldade. A última palavra de «Os Lusíadas» de Luís de Camões é mesmo essa – inveja.    

José do Carmo Francisco, escritor

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