
Antes de qualquer palavra de boas-vindas, permitam-me imaginar uma imagem: uma voz que atravessa o Atlântico.
Durante gerações, essa voz chegou dentro de uma carta, pela rádio ligada ao fim do dia, nas páginas de um jornal dobrado com cuidado. Trazia notícias de uma ilha, de uma família, de uma festa, de uma partida. Às vezes, trazia apenas a confirmação de que, do outro lado do mar, alguém continuava a lembrar-se de nós.
Hoje, essa voz chega quase instantaneamente. Mas a rapidez com que as palavras atravessam o oceano não garante, por si só, que nos compreendamos melhor. É por isso que este encontro é tão necessário.
Minhas senhoras e meus senhores,
Caros jornalistas, colegas e amigos,
Sejam muito bem-vindos à Universidade do Estado da Califórnia em Fresno. É um privilégio receber aqui profissionais da comunicação social dos Açores e da diáspora da Califórnia. Reunimo-nos num lugar onde muitas trajetórias se cruzam: as de estudantes que procuram abrir caminho para o futuro, as de famílias que vieram de longe e as de comunidades que ajudaram a construir o Vale de São Joaquim.
A Fresno State é uma universidade pública profundamente ligada à região que serve. Nas suas salas de aula e nos seus projetos de investigação encontram-se a agricultura, as artes, as humanidades, as ciências, a educação e tantas outras áreas essenciais à vida deste vale. Para muitos jovens, estudar aqui significa concretizar uma esperança que começou antes deles, nas mãos de pais e avós que trabalharam para lhes oferecer outras possibilidades.
Para as nossas comunidades, esta universidade representa uma extraordinária oportunidade. Podemos trazer para dentro dela a língua portuguesa, a história dos Açores, as experiências da emigração e as perguntas das novas gerações. Podemos aproximar estudantes de investigadores, escritores, artistas, jornalistas e profissionais de ambos os lados do Atlântico. Podemos criar intercâmbios, abrir percursos de estudo e dar aos mais novos a oportunidade de conhecerem as ilhas como lugares vivos, com desafios e ideias para o futuro.
Esta ponte com as novas gerações exige que as escutemos. Os descendentes dos emigrantes não herdam a pertença de uma única maneira. Alguns falam português; outros conhecem apenas palavras guardadas em casa. Há quem encontre os Açores pela primeira vez numa história de família, numa aula, num filme ou numa viagem. Cabe-nos abrir caminhos para todos eles, permitindo que façam perguntas e descubram a sua própria relação com esta herança.
É esse também o propósito do Portuguese Beyond Borders Institute. Queremos ser um instituto voltado para a comunidade: atento à sua memória, disponível para as suas inquietações e empenhado em aproximá-la da universidade. Quando recolhemos uma história oral, promovemos uma conversa pública ou acolhemos um estudante que deseja conhecer melhor as suas raízes, procuramos fazer com que o conhecimento circule nos dois sentidos. A comunidade tem muito para ensinar à universidade; a universidade tem recursos que podem ajudar a comunidade a imaginar o seu futuro.
Por isso, o encontro de hoje tem uma importância que ultrapassa este auditório. Ter connosco jornalistas dos Açores e da diáspora é uma ocasião para nos conhecermos melhor e para trabalharmos juntos. A comunicação social pode ajudar as ilhas a acompanhar a vida das suas comunidades espalhadas pelo mundo. Pode ajudar a diáspora a conhecer os Açores para além da memória e da saudade, acompanhando os debates, as dificuldades e as aspirações de quem lá vive. Pode, sobretudo, criar uma conversa em que todos tenham lugar.
Essa responsabilidade torna-se ainda maior num tempo de incerteza e de ruído. Vivemos rodeados de afirmações prontas a circular e de certezas que raramente aceitam uma pergunta. Os populismos perigosos prosperam nesse ambiente. Reconhecemo-los na vida política e governativa, mas devemos ter a coragem de os reconhecer também nas nossas comunidades: quando se oferece uma explicação fácil para um problema difícil, quando se transforma a diferença em ameaça, quando se procura um culpado em vez de procurar compreender.
A comunicação social tem aqui um dever exigente. Dar voz às preocupações das pessoas é indispensável. Escutá-las com respeito também. Mas escutar implica apurar, contextualizar e fazer as perguntas que permitem distinguir uma dificuldade real de uma resposta enganadora. O jornalismo presta um serviço público quando nos ajuda a pensar com mais clareza, mesmo perante assuntos que nos inquietam ou dividem.
E há perguntas que nós, na diáspora, precisamos de fazer a nós próprios. As nossas festas são uma expressão luminosa de continuidade cultural. Nelas há trabalho generoso, convívio, música, devoção e uma forma de transmitir pertença. Mas, por vezes, vamos de festa em festa tão ocupados a celebrar a comunidade que deixamos de reparar na sua presença, cada vez mais frágil, no mundo político e cultural da sociedade em que vivemos.
Quem participa nas decisões que moldam as nossas cidades? Quem acompanha a escola pública, a universidade, as bibliotecas, os museus e os espaços onde se discute o futuro desta região? Que oportunidades damos aos nossos jovens para serem vistos e ouvidos também fora das instituições da comunidade? Estas perguntas merecem mais espaço na comunicação social, tanto aqui como nos Açores. Precisamos de notícias que acompanhem as celebrações e, com a mesma atenção, examinem as escolhas que afetarão a próxima geração.
Talvez seja essa uma das tarefas mais importantes deste congresso: aproximar profissionais que conhecem margens diferentes da mesma história e convidá-los a olhar, juntos, para aquilo que ainda não estamos a ver. Uma reportagem pode revelar uma necessidade esquecida. Uma entrevista pode dar a um jovem a certeza de que a sua voz conta. Uma investigação rigorosa pode impedir que o medo ocupe o lugar dos factos. E uma notícia sobre uma pequena comunidade pode recordar-nos que a dignidade de uma vida não depende do tamanho do lugar onde ela decorre.
Desejo que encontrem na Fresno State um espaço para essas conversas. Que daqui nasçam perguntas novas, colaborações duradouras e uma atenção mais funda às pessoas que habitam as ilhas e a diáspora.
O Atlântico continuará entre nós. Continuará a haver partidas, regressos e distâncias que nenhuma tecnologia consegue apagar por completo. Mas podemos cuidar das palavras que o atravessam. Podemos fazer com que levem verdade, escuta e responsabilidade. E, assim, ajudar uma criança nascida deste lado do oceano a reconhecer uma voz vinda das ilhas — e alguém, nas ilhas, a saber que a sua história também encontrou casa aqui.
Sejam todos muito bem-vindos. Muito obrigado. Vamos ao trabalho.
Texto apresentado no começo do quarto encontro de OCS dos Açores e da Diáspora com a formalização da ADMAA. Fotografia do jornal Tribuna Portuguesa-Miguel Ávila.
