Corpo Estranho: um filme sobre a emigração, a memória e a inquietação do regresso

Uma infância pode permanecer intacta dentro de quem parte, mesmo quando os lugares que a guardaram continuam a transformar-se. As ruas mudam, as casas conhecem outros habitantes, as vozes familiares tornam-se mais distantes. E, quando finalmente regressamos, surge uma pergunta difícil de responder: que parte de nós ainda pertence ao lugar que aprendeu a existir sem a nossa presença?

É desse território íntimo — situado entre a partida e o regresso, a memória e o desencontro — que nasce Corpo Estranho, uma curta-metragem de docuficção com aproximadamente 15 minutos, atualmente em preparação. Realizado por Catarina Gonçalves, o filme está ligado ao projeto-âncora PDL Coisa de Linda, de Luís Borges.

Segundo informação divulgada pelo jornal Atlântico Expresso, a produção parte da experiência da emigração e procura refletir sobre aquilo que acontece quando alguém regressa ao lugar da infância e descobre que nem o espaço permaneceu igual nem a pessoa que partiu continua a ser inteiramente a mesma.

A narrativa acompanha Jess, personagem construída a partir de testemunhos reais de emigrantes açorianos. A sua voz servirá de fio condutor a um retrato coletivo das infâncias micaelenses, composto por recordações, imagens e fragmentos de vida recolhidos junto de famílias de Ponta Delgada e de outros pontos da ilha de São Miguel.

Mais do que contar uma história individual, Corpo Estranho pretende aproximar diferentes experiências de afastamento e pertença. Jess poderá representar muitas pessoas: quem saiu em criança, quem emigrou já adulto, quem regressou definitivamente e quem permanece fora, dividido entre a geografia quotidiana do presente e a geografia afetiva das origens.

Para construir esse arquivo coletivo, a equipa responsável pelo filme lançou duas convocatórias abertas à participação da comunidade açoriana residente em São Miguel e na diáspora.

A primeira procura arquivos domésticos guardados pelas famílias: bobines de Super 8, cassetes VHS e fotografias antigas que documentem infâncias vividas em Ponta Delgada e na ilha de São Miguel. Não é necessário que as imagens apresentem qualidade técnica perfeita. Pelo contrário, o grão da película, os saltos, as falhas e os erros de exposição são entendidos como parte da materialidade da memória — imperfeições que também contam uma história.

A digitalização será realizada pela produção sem qualquer custo para os participantes. Depois do processo, todos os materiais originais serão devolvidos às respetivas famílias.

A segunda convocatória destina-se à recolha de testemunhos de emigrantes açorianos, tanto daqueles que já regressaram como dos que continuam a viver fora do arquipélago. A equipa pretende conhecer o que sentem quando revisitam as memórias da infância em São Miguel: uma rua, uma casa, uma brincadeira, um cheiro, uma voz ou a estranha sensação de regressar a um lugar simultaneamente familiar e desconhecido.

Não se procura necessariamente um testemunho longo ou elaborado. Uma pequena memória, uma sensação ou uma frase solta poderão contribuir para o filme. As participações podem ser enviadas em texto, áudio ou vídeo e, se essa for a vontade do participante, permanecer totalmente anónimas.

Quem desejar colaborar em qualquer uma das convocatórias poderá contactar a produção através do endereço eletrónico corpoestranhopdl26@gmail.com. Os testemunhos também podem ser submetidos por meio do formulário anónimo divulgado pela organização do projeto.

Ao reunir imagens familiares e vozes dispersas pela emigração, Corpo Estranho propõe-se transformar lembranças particulares numa memória partilhada. O próprio título sugere a condição de quem regressa: alguém que reconhece a paisagem, mas já não sabe exatamente qual é o seu lugar dentro dela.

Entre as imagens imperfeitas do passado e as palavras de quem viveu a experiência da distância, o filme poderá revelar uma verdade profundamente açoriana: regressar nem sempre significa voltar ao mesmo lugar. Por vezes, significa entrar novamente na infância e descobrir que somos, ao mesmo tempo, parte daquela terra e um corpo estranho diante daquilo que o tempo deixou ficar.

Texto elaborado a partir de notícia publicada pelo jornal Atlântico Expresso, ao qual se atribui o devido crédito pela informação original.

Leave a Reply