A 8km de Lisboa por José do Carmo Francisco

Em resumo 71

Escrevo esta crónica num doloroso Domingo de manhã. Estou sentado numa esplanada da Estrada de Benfica, perto de um chafariz desactivado e de um marco antigo onde de pode ler «Lisboa 8 km». O Domingo de manhã é para mim, há muito tempo, o tempo da morte na minha vida. Meu avô materno (1979), meu afilhado (1989), minha mãe (1995) e meu pai (2018) são aqueles que eu recordo de imediato. Mesmo aqui ao lado existe a Rua Cláudio Nunes onde viveu a escritora Maria Ondina Braga. Ela – a rua – começa na igreja de Benfica e acaba no cemitério onde está o Jazigo do Padre Cruz e a campa do atleta olímpico Francisco Lázaro. Sei desde sempre que cada dia é sempre uma despedida. Ainda há poucos anos o fim do dia em Portugal era dado pela RTP com o Hino Nacional pela meia-noite e havia gente que via tudo (filmes, concursos, passatempos, teatro, corridas de touros, Jogos sem Fronteiras). Sei que não estou só a 8 km de Lisboa porque o marco à beira da Estrada de Benfica é apenas uma memória de um tempo em que Lisboa acabava em São Sebastião da Pedreira. Palhavã que era na verdade quase ali ao lado, eram só quintas. O eléctrico de Carnide era nesse tempo com frequência cortado na Azinhaga do Ramalho até ao dia em que os passageiros viram horrorizados um homem que se suicidou numa árvore dessa Azinhaga. O eléctrico de Benfica era o 5, vinha do Largo do Carmo e demorava muito tempo a chegar ao lugar onde fazia raquete e hoje é um Centro Comercial. A verdade é que nunca me despedi de Santa Catarina, do Montijo, de Vila Franca de Xira, de Évora, de Santarém e de todas as casas onde vivi em Lisboa. E foram cinco desde 1966 até hoje, ano de 2026. Só sou daqui porque escrevo esta crónica num doloroso Domingo de manhã. Em resumo: a 8 km de Lisboa.

José do Carmo Francisco, escritor

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