A Caminho do Oitavo: As Fronteiras que a Literatura Não Reconhece

Há livros que se publicam e há livros que, ao longo dos anos, vão construindo uma geografia própria. BorderCrossings — Leituras Transatlânticas, de Vamberto Freitas, pertence a essa segunda linhagem: não é apenas uma sucessão de volumes, mas um território crítico e afetivo que se foi alargando livro após livro, leitura após leitura, margem após margem. Sete volumes encontram-se já publicados; sete estações de uma longa viagem intelectual em que a literatura açoriana e portuguesa dialoga incessantemente com outras literaturas, sobretudo com as vozes que atravessaram o Atlântico e fizeram da deslocação, da memória, da identidade, do exílio e da pertença matéria de criação. Agora, quando o oitavo volume desta notável coletânea de crítica e vivências literárias se prepara para chegar ao mercado português, talvez seja este o momento de regressarmos ao caminho percorrido — não por nostalgia, mas porque nenhuma grande travessia se compreende verdadeiramente sem olharmos, de quando em quando, para as margens que ficaram para trás.

Ao longo das próximas publicações, iremos revisitar alguns dos textos que acompanharam os sete volumes já editados de BorderCrossings, recuperando leituras, apresentações e reflexões que ajudam a compreender a singularidade de um projeto que há muito ultrapassou os limites convencionais da crítica literária. Porque Vamberto Freitas nunca leu os livros apenas a partir da biblioteca: leu-os também a partir da ilha, da diáspora, da América, das viagens, das amizades literárias, dos encontros com escritores e das inquietações de quem sabe que uma literatura vive tanto das palavras impressas como das circunstâncias humanas que as rodeiam. Em BorderCrossings, a crítica transforma-se, por isso, numa espécie de cartografia transatlântica: cada autor é uma coordenada, cada livro uma possível passagem, cada ensaio uma ponte lançada sobre o oceano.

Começamos esta viagem de regresso para diante com um texto do Professor Catedrático Ernesto Rodrigues, uma das vozes académicas que se debruçaram sobre esta obra e sobre o universo crítico de Vamberto Freitas. É uma forma de voltarmos às primeiras margens enquanto já avistamos a próxima. Porque o oitavo volume aproxima-se, mas traz consigo os sete que o antecederam. Nenhum livro chega sozinho. Atrás dele caminham as páginas anteriores, os escritores lidos, as conversas mantidas, as geografias atravessadas e essa extraordinária fidelidade à literatura que, em Vamberto Freitas, tem sido também uma maneira de habitar o mundo.

Estamos, pois, a caminho do oitavo. Mas, como em todas as verdadeiras travessias, avançar significa também recordar. E regressar aos sete volumes de BorderCrossings é descobrir que, entre ilhas e continentes, entre partidas e regressos, entre a língua portuguesa e as muitas vozes do outro lado do Atlântico, há fronteiras que só existem até ao momento em que um livro as atravessa.

Vamberto Freitas – os olhos atentos da nossa escrita por Álamo Oliveira

Vamberto Freitas publicou, há poucos dias, o livro 4 de borderCrossings – leituras transatlânticas IV. Os seus leitores já não estranham que este ensaísta os vá contemplando com dádivas tão necessárias de se ter e ler. Na verdade, os quatro livros são a arrumação de um criterioso trabalho de escrita que incide sobre a escrita dos outros. A ficção narrativa e a ensaística que, de alguma forma, refletem a açorianidade na sua dispersa, mas importante posição geográfica, bem como a escrita anglo-americana, que deu a Vamberto Freitas saberes e vivências socioculturais marcantes, aparecem, nestes quatro livros, com transatlântica persistência crítica. Isto é: os textos incluídos foram, primeiramente publicados em jornais e revistas em separado, embora, quando agrupados, ganhem a coerência de um tratado, aqui entendido pela unidade de critérios analíticos que assentam em princípios teóricos criticamente aceites. Porém, as análises feitas por Vamberto Freitas não se espartilham no rigor matemático das teorizações, bastas vezes antagónicas, apesar de, muitas vezes, terem sido conquistadas em debates académicos de prestígio. Os seus textos surgem sob uma linguagem clara, direta, apelativa, relevando sempre a ideologia prevalecente, a capacidade discursiva e a estruturação da obra analisada. Vamberto Freitas expressa-se de forma a fazer com que o leitor aceite a importância de determinado livro, criando aliciantes, mas justificando sempre e com rigor os motivos das suas sugestões de leitura.

A muitos, parecerá que Vamberto Freitas nunca escreve nada de negativo sobre um livro ou um leitor. Não é assim. Quem tem seguido os seus textos encontra exemplos que chamam a atenção para a mediocridade, sendo até mais exigente sempre que está em referência um autor que tem a obrigação de saber e de conhecer melhor sobre o que escreve. Claro que ele, para além de gozar de uma independência académica e cultural reconhecida publicamente, faz as suas escolhas de leitura e, destas, volta a escolher o que quer analisar escrevendo.

Sobre os escritos ensaísticos de Vamberto Freitas, escreveram um naipe notável de opiniões, também elas críticas, conceituadas, justas e deferentes. Leia-se Teresa Martins Marques, Eugénio Lisboa, Carlos Bessa, Urbano Bettencourt, Aníbal C. Pires, Diniz Borges, Onésimo Teotónio Almeida, entre outros, têm borderCrossings 4 como ponto de atenções. São três textos de autores exigentes e de créditos firmados nas Letras portuguesas.

Ao referenciar criticamente autores anglo-americanos, Vamberto Freitas alia os escritores luso-americanos, informando que estes não podem temer comparações (quase sempre inevitáveis) com escritores de outras proveniências geoculturais quanto à qualidade literária. A denominada Literatura étnica nos Estados Unidos tem merecido uma atenção muito especial por parte de V. Freitas, salientando os problemas decorrentes da integração sociocultural, com chamadas pertinentes para os da diáspora açoriana.

Pelas ilhas, onde escasseiam leitores e espaços de divulgação da paradoxal abundância editorial, Vamberto Freitas continua a militar, quase isoladamente, na escrita e na publicação dos textos críticos sobre os livros que vai lendo, divulgando, sobretudo, o que tem vindo a sair dos prelos de autoria ou de interesse açorianos.

A disciplinada persistência de Vamberto Freitas na publicação dos seus textos críticos tem permitido que autores e livros sejam conhecidos em muitos outros espaços, nomeadamente nos Açores e Continente português, nos Estados Unidos da América e do Brasil. Os escritores açorianos (e não só) devem-lhe a generosa divulgação de centenas e centenas de livros que, de outra forma, nem se conheceria a sua existência.

Finaliza-se com a calendarização, também ela muito regular, de borderCrossing – leituras transatlânticas, a saber: livro 1 data de 2012; livro 2, 2014; livro 3, 2016; livro 4, finais de 2017.

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Publicado no “Açoriano Oriental Artes & Letras”, número 29, de 22 de Janeiro de 2018.

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